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Técnica de pesca emergente gera polémica em S. Vicente 18 Junho 2014

Um grupo de pescadores de São Pedro está a arrasar os fundos marinhos costeiros das ilhas de S. Vicente e de Santa Luzia, graças a uma técnica de pesca denominada “crosse”, que permite capturar grandes quantidades de peixe com recurso a redes de tresmalhe e a mergulhadores. O biólogo marinho Rui Freitas já lançou o alerta ao Director-Geral das Pescas, ao Instituto Nacional das Pescas (INDP), Ministério do Ambiente e à comunidade científica nacional pedindo a sua proibição imediata. “Ou banimos essa técnica de pesca, de vez, do nosso arquipélago ou ela afunda-nos de uma vez por todas”, frisa o biólogo.

Técnica de pesca emergente gera polémica em S. Vicente

“As capturas são colossais, independentemente do tamanho e do valor comercial do peixe. Isso explica a presença de grande quantidade de peixes ‘estranhos’ no nosso mercado e que até há bem pouco tempo não tinham qualquer valor comercial. São exemplos disso o fambil, tainha branca, ruta preta, bidiões de grandes dimensões, na sua maioria herbívoros do ambiente recifal costeiro”, elucida o biólogo, frisando que a comunidade piscatória de São Pedro é conhecida como a que mais destrói o ecossistema marinho cabo-verdiano, por combinar juventude, astúcia e tecnologia na arte da pesca.

Há pelo menos três anos que, segundo o biólogo Rui Freitas, os pescadores de S. Pedro adoptaram a técnica de pesca “crosse” como forma de maximizar o trabalho em equipa. Depois de devastarem boa parte do litoral Sul de São Vicente, levaram essa técnica para as ilhas de Santo Antão, Santa Luzia e Ilhéu Branco, conta o especialista, para quem a zona Norte destas ilhas está mais salvaguardada devido ao hidrodinamismo das ondas, que dificulta o uso dessa técnica.

O debate sobre o uso da “crosse” não é novo em S. Vicente, realça o presidente-cessante da Associação Nova Geração dos Pescadores de S. Pedro, Celestino Oliveira. Este “lobo do mar” diz que há algum tempo fez saber a sua opinião sobre essa matéria numa conversa com operadores do sector pesqueiro e com o próprio Presidente do INDP. Resumidamente, Celestino Oliveira considera que os profissionais da vila piscatória estão a ser alvo de críticas infundadas por causa da sua reconhecida capacidade de inovação.

Dilema entre o futuro e a sobrevivência da geração actual
“Para começar, só o pessoal de S. Pedro é que usa esta técnica de pesca inovadora denominada ‘crosse’, o que tem causado algum ciúme junto de outras comunidades piscatórias e alimentado alguma polémica à volta deste novo método de captura do pescado. Há quem acuse os pescadores de usarem garrafas de ar, que, como sabemos, são proibidas na pesca. Mas só um ou dois mergulhadores usam esses engenhos para evitar que a rede de tresmalhe fique presa nas rochas”, informa Oliveira, que se mostra agastado com “certos professores universitários que agora adoptaram a mania de ambientalistas radicais.” É que, na perspectiva deste homem do mar, há tanta preocupação com o futuro que ninguém se lembra que a geração actual também precisa sobreviver.

Segundo Celestino Oliveira, não é verdade que os pescadores roçam tudo o que lhes aparece à frente. Esclarece que pelo facto de poderem visualizar os peixes com a máscara, os mergulhadores podem seleccionar a captura. Por outro lado, assegura que as redes de tresmalhe usadas por esses pescadores respeitam as medidas regulamentadas, que são de 30 por 33 milímetros. “É verdade que essa técnica possibilita boas capturas, que permitem pagar o esforço dos pescadores e fazer a manutenção dos equipamentos. Mas é bom frisar que o pessoal de S. Pedro sempre foi muito activo e criativo na arte da pesca”, realça Oliveira.

A polémica do uso da “crosse” pelos pescadores de S. Pedro já chegou ao conhecimento do INDP. Porém, o Instituto das Pescas, diz o seu presidente Óscar Melício, não tem competência para investigar a forma como essa técnica é aplicada. “Se usam a garrafa de ar para a captura isto é ilegal, é bom frisar. No entanto, sabe-se que muitas vezes os pescadores recorrem à garrafa para soltarem as redes que ficam presas nas rochas”, pontua o responsável do INDP, instituição que ainda não conseguiu medir o impacto da técnica “crosse” no equilíbrio do ecossistema marinho. Isto, por se tratar de uma arte de pesca relativamente nova, alega o seu presidente.

No entanto, Melício admite que o tamanho médio dos peixes de fundo diminuiu, o que pode ser um sinal da sobrecarga de pesca dessas espécies, em Cabo Verde. Um exemplo disso é a garoupa, um dos peixes comerciais mais procurados no arquipélago, mas que tem vindo a escassear no mercado. Essa situação preocupa o INPD porque, segundo Óscar Melício, o potencial de peixes de fundo é limitadíssimo em Cabo Verde e o seu consumo não pára de aumentar.

KzB

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