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Tibo Évora: Admirador de Cabral e Sankara 15 Janeiro 2013

Quando nasceu a 23 de Julho de 1974, o pai, natural do Burkina-Faso, deu-lhe o nome Tèmoko Coulibaly. Mas para a mãe, Djina, uma cabo-verdiana de Cabeça de Tarafes (norte da Boa Vista) que incutiu ao filho a identidade cabo-verdiana, ele é Tibo Évora. Músico e activista social e cultural, lutou e conseguiu que a cidade de Saint-Denis desse a uma das suas avenidas o nome de Amílcar Cabral e agora, ansioso, aguarda que uma rua em França seja baptizada com o nome de Cesária Évora. Entretanto, Tibo Évora grava o primeiro disco a solo da sua carreira, com direcção musical de Toy Vieira, e um repertório de mornas e coladeiras que aprendeu com gente de Bubista. Na forja tem ainda uma peça de teatro, onde mistura música e poesia, inspirado no “Discurso da Dívida” que Thomas Sankara, herói burkinabe, fez em Addis Abeba, em 1987.

Tibo Évora: Admirador de Cabral e Sankara

Tibo Évora não tem memórias da convivência com o pai. Este faleceu quando era ainda um bebé. “Quem me criou foi a minha família cabo-verdiana. Somos raça do Norte da ilha da Boa Vista, da família Brito Évora do Livramento”, diz Tibo Évora, que tem três irmãos do lado da mãe e outros tantos do lado do pai. Mas destes não sabe o paradeiro. “Cortaram qualquer ligação comigo, tudo por causa do dinheiro do meu pai, por isso não conheço os meus parentes do Burkina-Faso”, lamenta o músico que guarda entretanto boas lembranças da infância e adolescência.

“Nasci em Paris, lá tínhamos uma casa grande, uma espécie de “hotel particular”, um restaurante e um salão de festas onde aconteciam sempre bailes populares que a minha mãe e meu tio Afonso organizavam”. “Foram eles que, junto com o falecido Mané Bilinha, também da Boa Vista, me ensinaram as mornas e coladeiras antiquíssimas que vou gravar no meu disco”, conta Tibo, que além destas músicas, de autores anónimos em muitos casos, ouvia Bana, Cesária Évora, Ildo Lobo e Os Tubarões, Os Appolo, Morgadinho, Mário Pop, Celina Pereira, Paulino Vieira. “Através dos poetas que cantavam aprendi a história e a poesia de Cabo Verde: B. Leza, Manel d´Novas, Teófilo Chantre”.

Mas a cultura francesa também está no sangue de Tibo Évora. Enquanto estudava Ciências Económicas na Universidade de “La Sorbonne”, descobriu os grandes trovadores gauleses. “Gosto de cantar Jacques Brel, Charles Aznavour, Serge Lama, entre outros”, confessa o cantor que todos os fins de semana despe a pele de administrativo e sobe aos palcos da França. “Canto em francês e em crioulo”, diz Tibo, que espera repetir a fórmula no disco. “Seleccionarei uma ou duas músicas em francês, mas o CD vai ser dedicado à música de Cabo Verde”.

Duetos poderão também acontecer. À cabeça da lista está Abel Marcel, pianista cubano com quem Tibo Évora muitas vezes partilha o palco e experiências musicais. “Mas é claro que há muitos artistas cabo-verdianos com quem gostaria de gravar um dueto, porque Cabo Verde é rico em artistas talentosos”, assegura o músico franco-caboverdiano.

Fã de Cabral …

Tibo ainda não conta com nenhum disco da sua lavra, mas coleciona feitos em outras áreas. Com apenas 16 anos criou uma associação cultural e desportiva que ensinava aos jovens crioulos de Paris os valores do desporto e da cultura cabo-verdiana. Não faltavam espectáculos musicais, exposições, debates, demonstrações de culinária. “Foi nessa altura que descobri Amílcar Cabral. Mais tarde, tive a ideia de propor que dessem o seu nome a uma das avenidas de Saint-Denis”, recorda Tibo Évora. E a Associação Tabanka (Itália) distinguiu-o por esse feito em 2010.

“Cabral não é apenas de Cabo Verde ou da Guiné-Bissau, mas uma referência mundial tanto como poeta e intelectual como estratego e humanista”, explica assim Tibo Évora que, no ano passado, conseguiu que Saint-Denis desse outro nome cabo-verdiano a uma das suas ruas. Desta vez Cesária Évora, a “diva dos pés descalços”.

… e de Sankara

O outro grande ídolo de Tibo Évora é Thomas Sankara, antigo presidente da República do Burkina-Faso, terra do seu pai. “Ele era tão erudito como Cabral. Tanto que o mataram”, diz sobre esse intelectual africano o activo Tibo que é também criador intelectual das duas margens. Para a posteridade, o antigo chefe de Estado burkinabê deixou vários discursos sobre a urgência da emancipação de África e o fim do neocolonialismo.

O mais marcante de todos é conhecido como “O Discurso da Dívida”, feito por Sankara em Addis Abbeba (Etiópia), durante a conferência da extinta Organização da Unidade Africana em 1987. “Um amigo meu, que é actor, propôs-me escrever uma peça sobre este excelente discurso. Aceitei o desafio porque as palavras de Sankara marcaram a história do panafricanismo e fazem eco na actualidade. Dando-lhe uma dimensão artística, juntando poesia, teatro e música, talvez contribua para que os dirigentes de hoje criem políticas mais solidárias, humanas e para benefício de todos”, explica Tibo Évora.

O amigo do presidente François Hollande

Este kabrer de Paris é um dos que subiu ao palco no passado dia, 15, na Ribeira da Torre, ilha de Santo Antão, durante o mega-concerto de homenagem a Cesária Évora. “É uma grande honra participar nesse concerto e um privilégio poder voltar a Cabo Verde depois de tantos anos de ausência. Foi bom com o meu povo, minha inspiração, sentir aquela sabura di terra”, confessa Tibo Évora.

Mas não é só de saudades que este crioulo escreve, mas também inspira-se na actualidade cultural cabo-verdiana em França que publica em dois jornais luso-franceses. Évora quer também recrutar aqui voluntários para trabalhar com ele no projecto de Amizade França-Cabo Verde.

Uma ideia que Tibo Évora apresentou a François Hollande, presidente da República francesa, quando se conheceram em Julho deste ano, no Festival de Teatro d´Avignon. “Conhecemo-nos num encontro que Hollande fez com artistas e promotores culturais. Pedi-lhe uma audiência e encontrámo-nos no dia seguinte”, conta Tibo Évora.

Nas mãos o cabo-verdiano levava uma bandeira de Cabo Verde, que ofereceu a Hollande. Depois, de guitarra ao peito, tocou e cantou em francês e crioulo para o PR francês e sua mulher. A seguir convidou-os a visitar Cabo Verde, não sem antes propor a Hollande uma maior aproximação cultural entre França e estas ilhas do meio do Atlântico.

Um encontro tão marcante que François Hollande o relatou pouco tempo depois numa entrevista que deu ao jornal “La Provence”. “Depois disso as pessoas paravam-me na rua e diziam “olha, Tibo, o amigo do presidente”. Fico feliz que tenha falado disso, mas mais feliz ainda porque aceitou a minha proposta de montarmos uma rede de amizade Cabo Verde-França”.

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