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Título de “baía mais bela do mundo”: Um activo “encalhado” na Baía do Porto Grande 11 Janeiro 2016

A Baía do Porto Grande não está a tirar o “devido proveito” turístico do estatuto de uma das 33 enseadas naturais mais belas do mundo, muito porque faltam a visão e os investimentos para a requalificação da sua orla e promoção desse activo. Esta ideia é defendida pelo consultor turístico José Almada, o gestor Carlitos Fortes, o engenheiro civil Hernano Santos, o mediador de seguros Nuno Ferreira e o guia turístico Edson Oliveira. O próprio vereador municipal Anildo Fortes, representante de S. Vicente na Assembleia-Geral do Clube das Baías Mais Belas do Mundo, alerta que, se não forem respeitados certos requisitos, Mindelo pode perder o título. Estas opiniões surgem nas vésperas do empossamento da comissão instaladora do Núcleo Regional Norte da ACTI (Agência Cabo-Verdiana do Turismo e Investimentos), a ser presidida pelo economista Gil Costa. Segundo Leonesa Fortes, o Ministério do Turismo tem pronto um inventário dos potenciais recursos turísticos, que destaca a Baía do Mindelo e o Monte Cara como produtos turísticos de excelência na ilha de S. Vicente.

Título de “baía mais bela do mundo”: Um activo “encalhado” na Baía do Porto Grande

Entre as mais belas do mundo. Este título só pode soar como o melhor marketing turístico para a ilha de S. Vicente... É que para merecer estar entre as 33 enseadas naturais mais belas do mundo há que merecê-lo. Parece que não é o caso e tornou-se um mero activo “encalhado” nas águas do Porto Grande do Mindelo. Há anos que a cidade do Mindelo é distinguida pelo restrito Clube das Baías Mais Belas do Mundo sediado em França, só que, para um grupo de críticos, esse selo de marca pouco ou nada tem servido para a promoção turística de S. Vicente e para atrair investimentos que visem requalificar a baía. Essas pessoas advogam, entre outras coisas, a construção de hotéis ao longo da orla, a deslocalização da Electra e dos tanques de combustíveis das petrolíferas Vivo Energy e Enacol, a demolição dos pavilhões da ex-Congel e da FIC, a melhoria das praias da Cova Inglesa, Praia dos Botes e Lazareto, a aprovação de um plano de gestão da Laginha e o saneamento definitivo do cheiro nauseabundo proveniente da fábrica de conservas Frescomar.

“Há milhares de baías bonitas espalhadas por este planeta, por isso é um privilégio pertencer a um grupo de três dezenas das mais belas do mundo. Só por si, este título constitui um grande activo. Porém, há que admitir isto, não temos sabido explorar turística e economicamente a importância desse estatuto”, salienta o consultor turístico Almada Dias. Segundo Dias, o facto de S. Vicente não ser ainda um destino espelha o quanto ainda precisa ser feito. “Na verdade, só há dois destinos turísticos em Cabo Verde (Sal e Boa Vista), apesar de dizermos que temos um país de dez destinos. Veja o caminho que ainda temos a percorrer”, salienta Dias, para quem a chamada ilha do Monte Cara tem tudo para ser eleita o próximo atractivo do arquipélago, se for levada em conta a sua beleza natural, a sua rica expressão cultural e a história da cidade do Mindelo.

A baía do Mindelo é comparável a um diamante bruto, mas que, segundo Carlitos Fortes, precisa ainda ser lapidado. “É indiscutível que a baía tem esse glamour natural, que lhe concede projecção internacional. Compete agora aos cabo-verdianos trabalhar essa preciosidade com intervenções fundamentadas numa visão comum”, enfatiza Fortes, para quem a marginal da cidade precisa ser equacionada no seu todo e ser dotada de um plano de desenvolvimento a ser seguido por todos os intervenientes.

Para esta fonte, a enseada do Porto Grande tem sido desvalorizada por causa de intervenções avulsas, que por não se encaixarem deixam de gerar a harmonia esperada. Como diz, cada um pensa e intervém à sua maneira porque falta um instrumento fundamental: um plano director de desenvolvimento. “A primeira coisa a fazer é equacionar quais as actividades económicas compatíveis com a baía e que não colocam em perigo esse activo. Não se pode aceitar que a Enapor, a Vivo Energy, a Enacol, a Marina do Mindelo, o Mercado de Peixe, a Câmara Municipal, a Agência Marítima e Portuária, o restaurante Pont d’Aga ajam como queiram. Isto não é coerente, pois estamos a morder pedacinhos desta baía e não a agir de forma sistémica”, critica Carlitos Fortes. Para o PCA da Enapor, Cabo Verde precisa desenhar a baía do Mindelo do futuro, saber o que será desta marginal daqui a vinte, trinta anos.

Esta é também a sugestão do empresário Hernano Santos, que acusa os políticos de falta de interesse em traçar objectivos claros para a baía do Porto Grande. “Os políticos fazem a gestão corrente dos mandatos, que são de quatro anos. Não querem perder tempo para discutir um projecto que só estará concluído daqui a trinta anos. Mas precisamos iniciar os estudos que nos vão dizer como será esta baía daqui a duas, três décadas”, frisa esse engenheiro civil. Na opinião de Santos, se as coisas continuarem como estão, ainda um presidente de Câmara pode hipotecar o futuro de S. Vicente em apenas um mandato. Dá como exemplo uma extensa área na zona de Santa Filomena, situada no extremo norte da baía, que a autarquia mindelense repassou a uma empresa de construção civil para urbanização e venda de lotes.

“Em vez de gerarmos emprego duradoiro para gerações, como a construção de hotéis, damos a um privado uma área considerável e bem localizada para lotear e vender apartamentos. Isto é o que se chama dar um tiro no próprio pé”, critica o empresário. Em relação ainda ao reordenamento da baía do Mindelo, este engenheiro considera que a própria estrada de S. Pedro poderia ser desviada mais para o interior, o que permitiria conquistar terreno junto à praia do Lazareto, destinado a empreendimentos turísticos e actividades de lazer.

Esta entrada da cidade, que podia ser o cartão-de-visita de Mindelo, há muito reclama uma atenção digna da sua posição estratégica. Usada como zona de expansão industrial, apresenta neste momento uma imagem caótica, além de enfrentar problemas ambientais, alguns provocados por condutas de esgoto que recebem fluidos da fábrica de conserva Frescomar. Este é um dos grandes dramas que têm afectado a imagem da cidade e prejudicado as pessoas que vivem na zona do Lazareto.

O problema é tão grave que levou alguns moradores a fazer uma manifestação e houve até quem tenha pensado em destruir as condutas da estação de bombagem instaladas na praia do Lazareto. “Depois pensámos melhor e não levámos a ideia adiante. Mas já não suportamos mais esta situação”, dizem Casemiro Pina e Aldevino Lopes, que fizeram questão de mostrar à nossa reportagem os terminais das condutas à beira-mar e que, segundo dizem, costumam fazer descargas directamente para o mar.

Zona crítica

Esse trecho é neste momento um ponto crítico para a imagem da baía do Mindelo. No entanto, esse descampado poderia ser uma das zonas turísticas mais cobiçadas da ilha de S. Vicente, se fosse requalificada. Aliás, Almada Dias considera que essa área tem tudo para ser elevada a uma zona premium, pela sua excelente localização.

Esta visão é partilhada pela própria ministra do Turismo, que considera a baía do Porto Grande um dos principais recursos turísticos de S. Vicente. Aliás, segundo Leonesa Fortes, o ministério que tutela fez um inventário das potencialidades da ilha, que apontou a marginal do Mindelo e o Monte Cara como dois produtos de excelência, mas que precisam ser trabalhados ainda.

“Outros produtos inventariados são, por exemplo, as festas do Carnaval e de S. Silvestre, o musical da Baía das Gatas, a nossa Cise e as praias de mar. A cultura sobressai como um dos pontos fortes de S. Vicente. Mas a ilha pode também vender o turismo de sol e praia, tal como acontece no Sal e Boa Vista”, realça Fortes. Segundo a ministra, dentro dessa perspectiva, as praias de Cova d`Inglesa e do Lazareto deverão ser requalificadas, com a colocação de areia como aconteceu na Laginha.

Esta e outras propostas de redinamização do turismo na ilha do Monte Cara serão trabalhadas, no entanto, pelo Centro Regional Norte da ACTI (Agência Cabo-Verdiana de Turismo e Investimento), cuja comissão instaladora será empossada no início da próxima semana, na cidade do Mindelo. (ver caixa) Esse organismo, que deverá estar pronto a funcionar daqui a seis meses, é que será o cérebro e o volante do sector nas ilhas de Santo Antão, S. Nicolau e S. Vicente. Segundo Fortes, o Centro Regional Norte (CRN) terá total autonomia para preparar o seu plano de actividades, a estratégia de marketing e decidir quais os investimentos necessários ao desenvolvimento do turismo nessas três ilhas, sem precisar do aval do Governo. Ou seja, o trabalho que antes era reservado à extinta Cabo Verde Investimentos passará para a alçada do CRN, que terá ainda a incumbência de assediar os próprios investidores externos.

Tirando a construção de uma pedonal/ciclovia e a possível requalificação das praias do Lazareto e de Cova d’Inglesa, não há outras obras turísticas estruturantes programadas para a zona Sul da Baía do Porto Grande. No entanto, mais para Norte, junto à praia da Laginha, estão previstas a construção dos hotéis Golden Tulip Laginha e Fortim del Rey, embora este último esteja parado no tempo há vários anos. Porém, segundo Leonesa Fortes, o Governo está a auxiliar as empresas que apresentaram projectos turísticos para S. Vicente a reestruturar a sua engenharia financeira e ver se será possível implementarem os anunciados empreendimentos para a cidade e orla marítima.

Ilha turística, mas sem hotel na sua orla

Hernano Santos destaca que São Vicente oferece paisagens fenomenais e praias de água quente durante o ano inteiro, mas que não se vê um único hotel em toda a orla marítima. Como diz, enquanto noutras paragens o sector turístico está a criar praias artificiais para satisfazer a demanda, na cidade do Mindelo os areais citadinos da Cova d’Inglesa, Praia dos Botes e do Lazareto estão abandonados à sorte. Algo que ele considera inadmissível num país que elegeu o turismo como um dos pólos de desenvolvimento.

Cidadão atento, Nuno Ferreira lamenta também a quase ausência de iniciativas em prol do dinamismo turístico da baía do Mindelo. Aponta como exemplo a própria situação da Laginha, uma praia urbana de que muitos destinos turísticos gostariam de dispor, mas que ainda não foi equipada nem começou a ser explorada por privados. Requalificada no âmbito da modernização do Porto Grande, a Laginha ganhou pinta turística, mas, para Ferreira, está subaproveitada, apesar de ser uma das estâncias preferidas dos mindelenses e dos visitantes que chegam a S. Vicente nos barcos cruzeiros. E, na perspectiva de Nuno Ferreira, Mindelo tem tudo para satisfazer um turista: banho de mar nos períodos de manhã e à tarde, passeios pelo centro histórico e actividades culturais à noite.

Mindelo amada pelos turistas

Mindelo é uma cidade amada pelos turistas, segundo o guia turístico Edson Oliveira. Do estreito contacto que mantém com os visitantes, esse jovem conclui que a urbe e as suas gentes agradam aos europeus. “Elogiam a imponência desta baía, ficam maravilhados com o canal S. Vicente-Santo Antão e fazem questão de visitar os lugares ligados à história do carvão”, exemplifica esse guia, que conheceu um alemão que trouxe consigo uma foto do Monte Cara feita pelo avô em 1917, durante uma visita à ilha de S. Vicente. O turista fez questão de vir conhecer essa maravilha da natureza plantada em pleno coração da Baía do Mindelo.

Apesar dos seus pontos fortes, a baía ainda não usufrui plenamente das suas potencialidades, na opinião de Edson Oliveira. Se houvesse uma maior concertação entre as agências de viagem e turismo, os hotéis e residenciais acredita que todos sairiam a ganhar. “Poderia haver voos charters e programas culturais concertados”, elucida Oliveira, realçando que uma das principais críticas dos turistas tem a ver com a lentidão do serviço prestado pelos restaurantes. “Isto acontece porque alguns restaurantes não estão preparados para atender grupos com alguma dimensão. Mas fazemos questão de preveni-los do atraso”, realça Oliveira, cuja agência trabalha com franceses, portugueses, ingleses, espanhóis e japoneses.

Título escorregadio

Pertencer ao grupo das baías mais belas do mundo foi uma conquista para a cidade do Mindelo, mas esse título não é vitalício. O próprio vereador do ambiente, Anildo Fortes, alerta que qualquer membro pode perder esse estatuto se não cumprir determinados requisitos. Por exemplo, todas as baías têm de pagar uma taxa anual e participar regularmente nos congressos e assembleias-gerais para continuarem na organização. Já na última assembleia, realizada no Camboja, alguns membros foram expulsos, segundo o vereador.

Por enquanto, Mindelo parece estar de pedra e cal no clube das baías mais belas do mundo: tem pago a taxa anual e participado nos congressos e assembleias-gerais. Aliás, a Câmara de S. Vicente recebeu esta segunda-feira o convite para estar presente na 101ª assembleia-geral da organização, que acontece de 1 a 6 de Fevereiro nas Filipinas.

Traçada a compasso, como um dia exclamou o arquitecto norte-americano Peter Chermayev ao vislumbrar Mindelo do alto de Fortim, a Baía do Porto Grande precisa livrar-se de alguns “monstros”, se quer promover o turismo. Já são velhas as críticas sobre a presença na sua orla dos tanques de combustíveis da Vivo Energy e da Enacol e de obras como a Electra, ex-Congel e dos pavilhões da FIC que, no conceito dos mindelenses, borram a pintura dessa marginal.

O problema, como os próprios críticos reconhecem, é o custo da deslocalização dessas estruturas para outro ponto da ilha. Para a ministra Leonesa Fortes, esses casos, embora sejam complexos, podem ser analisados pelo Centro Regional Norte. “Qualquer solução vai certamente acarretar custos elevados, mas penso que o planeamento da ilha enquanto destino turístico não impede que haja um debate sobre a presença dessas estruturas dentro da cidade”, diz a ministra, que evitou dar o seu palpite sobre como resolver essas questões. Para ela, esse dossier pode ser analisado mediante intervenção dos futuros responsáveis do centro regional norte de turismo.

Gil Costa indicado para gerir o CRN

O economista Gil Costa é o nome indicado para assumir a comissão instaladora do centro regional norte da Agência Cabo-Verdiana de Turismo e Investimento, organismo que veio substituir a Direcção-Geral do Turismo e a Cabo Verde Investimentos, agora extintas. Costa, por aquilo que apurou este jornal, será empossado no cargo na próxima semana e terá seis meses para preparar o funcionamento do centro que irá ocupar-se do sector turístico nas ilhas de Santo Antão, S. Nicolau e São Vicente.

Este organismo, segundo a ministra Leonesa Fortes, terá autonomia suficiente para traçar o futuro do turismo nessas ilhas de Barlavento, sem depender do aval da cidade da Praia para levar a cabo as suas acções. Para tal, o CRN será coadjuvado por um conselho estratégico, que terá na sua composição representantes do ministério do Turismo, das Câmaras Municipais, da Agência Marítima e Portuária, Enapor, do Núcleo Operacional para o Cluster do Mar, Câmara do Comércio de Barlavento e de personalidades da sociedade civil.

“Todas as actividades e recursos que possam ser potenciados a favor do turismo nesta região devem ser discutidos entre os membros do conselho estratégico”, salienta a governante, que realça o facto de o CRN dispor de autonomia para pensar e materializar os investimentos turísticos. Essa entidade terá inclusivamente poder para actuar dentro das Zonas de Desenvolvimento Turístico Integrado (ZDTI). Segundo Fortes, os roteiros da região terão doravante que ser bem preparados para que o turismo não surja de “geração espontânea”, isto é, sem nenhuma planificação.

Kim-Zé Brito

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