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Tómas Mendes Cabral « Nhu Eugénio» De Chã de Junco E sua fascinante história de vida 20 Setembro 2017

Nhu Eugénio, hoje um octogenário ainda bem rijo apesar de algumas complicações com o seu estado de saúde, participa em todas actividades culturais e religiosas da sua zona. Considerado por alguns colegas da mesma idade como um dos melhores cantores da zona no chamado “reza”. Sublinha: Que nessa cerimónia não leva a sua cimboa.

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Tómas Mendes Cabral « Nhu Eugénio»  De Chã de Junco E sua fascinante história de vida

Tomás: Significa "gêmeo".

O nome Tomás tem origem no aramaico ta’oma’, que significa literalmente "gêmeo". Equivale em significado ao nome Dídimo, que quer dizer "gêmeo" em grego.
Do grego surgiu a versão latina do nome, Thomas, que consequentemente gerou as variantes Tomás e Tomé.

Tomás tem a mesma origem e significado do nome Tomé, sendo que, por vezes, ambos os nomes são utilizados em alternância, dependendo da tradução que for feita.

As preferências de Tomás Mendes Cabral:

Dias de semana: 3ª feira
Mês: Fevereiro
Cor: Branco
Animal: Vaca
Religião: Católica
Companhia: Mulher

No meio das trevas onde agitam mundos, do seio desse paul onde fermenta a vida, as forças criadoras da Natureza rebentam produzindo tipos ingénuos como o que vamos conhecer:

Tomás Mendes Cabral mais conhecido por “Eugénio di Nízia”, nasceu em Chã de Junco a 03 de Fevereiro de 1936. O primogénito dos três filhos de Sabino Mendes Cabral e de Luísa Tavares Semedo. Os outros dois irmãos faleceram nos primeiros anos de vida. Eugénio passou toda a sua infância, adolescência e juventude no lugar onde nasceu. Não conseguiu estudar para além de 3ª classe. O pai viria a falecer em 1966 na idade de 58 anos e a mãe 30 anos depois quando contava aproximadamente 84 anos de idade.

Eu (génio)?

Bem, esta pergunta iremos analisar mais a frente se Eugénio merece ou não de facto este atributo. Mas, uma coisa podemos já assegurar: Nhu Eugénio é um homem humilde, bem-humorado, criativo, compassivo, romântico, franco, leal, altruísta, brincalhão, afável e muito aberto ao diálogo. Numa palavra: um verdadeiro “gentleman”.

Feitas estas considerações só nos resta agora viajar um pouco no tempo com o nosso amigo Tomás Mendes Cabral. (Eugénio).

Eugénio entra no mundo do trabalho

Tomás Mendes Cabral, ou simplesmente “Eugénio” como é popularmente conhecido lançou muito cedo no mundo do trabalho. Com apenas 15 anos de idade já trabalhava ajudando os pais. Com o salário de três escudos diário igual ao de um adulto conseguia resolver alguma situação. Entretanto, salário de uma mulher na altura não passava de dois escudos. Completa: o salário de um capataz era já de dez escudos. O pagamento era feito de três em três dias. Acrescenta: Um leitão custava doze escudos. Um galo valia dois escudos e cinquenta centavos. Coisas do passado!

Eugénio recorda a Vila de 1948

Nhu Eugénio conta que só veio conhecer a Vila di Mangui na idade de 12 anos, pois, nunca tinha saído da sua localidade. Afirma que a Vila só tinha algumas casas e poucas ruas. O que mais o deixara encantado foi a baía com aquela extensa praia de areia branca. Enfatiza: “mar go… n tinha medu del.” Conta que Vila do Tarrafal era um lugar pacato de gente simples com poucas instruções mas muito educada e hospitaleira. Recorda que havia uma regedoria e um regedor que resolvia casos ligeiros. Que a Câmara Municipal resolvia casos mais complicados.

Eugénio maravilhado com as suas primeiras calças

Eugénio recorda quando com muita timidez vestiu as suas primeiras calças “rosamatu” como então se dizia, aí na casa dos seus 13 anos.

Eugénio “son premier flirt”

Eugénio recorda com saudades quando começou a “viver” o seu primeiro romance com uma garota um pouco mais nova. Ressalta pois que andava nessa altura à volta dos seus 16 anos de idade. Que o “namoro” foi muito breve dado a timidez da moça que não lhe dava muitas oportunidades para o “encontro”. Remata: O namoro antigamente era baseado em respeito mútuo as chances eram raras e quando isso acontece (por um mero acaso) era vigiado por uma acompanhante mantendo-se distante um do outro, ironiza na sua linguagem de homem brincalhão: “Mi li bo la ”. Conclui: “E ka suma namoru di gosi: Mi li bo mas pa li”.

Segredos da vida: Essa tal “rapariga tímida” que foi o seu “primeiro amor” veio a casar-se mais tarde com um outro homem a quem o destino teria traçado e, o mais curioso: filho dela, (a moça tímida), viria a se casar com a sua filha. Estavam realmente destinados a manter laços de amizade. (Une belle histoire d’amour) com um final feliz. Deus escreve certo por linhas tortas.

Eugénio e os seus primeiros sapatos

Eugénio conta que experimentou pela primeira vez na vida um par de plástico na idade de 18 anos e sentiu-se nesse dia como um príncipe.

Eugénio e a sua “gaita-boka”

Eugénio afirma que antes de simboa foi Gaita-de-beiços “gaita-boka” a sua primeira inspiração. Nota-se que hoje “gaita-boka” quase se encontra em desuso nas nossas músicas. Conta que ganhou uma certa notoriedade na zona devido à sua experiência pela “gaita-boka”. À pedido de amigos organizava “badju di gaita-boka” em que se juntavam rapazes e raparigas passando a noite com o preço de entrada de dois escudos. O baile iniciava de “boka tardi” e prolongava até ao amanhecer. Cada um dava largas à sua alegria e à sua imaginação gozando à moda antiga ao som “de gaita e ferrinho e de uma enxada de boca larga” que fazia parte do “conjunto”. Coisas próprias da época. Belos tempos!

Toca cimboa rapica tamboro canta cu alma sem ser magoado. Um poema de Arménio Vieira, cantado pelo rei da morna “Bana”.

De gaita-boka à cimboa

Ora, simboa que tenta timidamente sair hoje do seu esconderijo apareceu pois na vida de Eugénio na idade de 22 anos e foi aí se aperfeiçoando até se tornar hoje um génio na sua execução na opinião de algumas pessoas com quem abordei. À entrada do Mercado do Artesanato do Tarrafal existe um quadro pintado com a sua gravura o que denota efectivamente o respeito e o carinho que goza junto às autoridades municipais. Eu próprio testemunhei de improviso uns ligeiros acordes dos seus hábeis dedos num estilo clássico que dava a impressão que o homem conversava com o seu instrumento e este respondia no mesmo tom. Fantástico! Sabe-se também de fontes dignas que já chegou de formar alguns jovens nesse domínio tanto dentro como fora do país através da solicitação da Câmara Municipal do Tarrafal tendo em conta que não só manuseia como já ficou demonstrado como também o confecciona. É lamentável que o Ministério da Cultura não tenha dado melhor atenção a este artesão. Voltaremos ao assunto um pouco mais abaixo.

Tomás Mendes Cabral Abraça o compromisso matrimonial

Tomás Mendes Cabral, ou “Eugénio” se assim preferir, na idade de 24 anos decidiu mudar o seu estatuo e fê-lo com alguém que a sorte o reservara: à sua bem-amada: Andreza Semedo, a “Nizia” um pouco mais nova. O enlace aconteceu na Igreja Paroquial de Santo Amaro Abade numa linda manhã de 3ª feira do dia 15 de Julho de 1958. Dessa união foi abençoado por Deus com 13 filhos. Destes, sete infelizmente, faleceram, três dos quais em tenra idade, os últimos quatro em data não muito distante. Entretanto, fora do casamento é pai ainda de mais três filhos. Hoje avô de vários netos e alguns bisnetos.

Nhu Eugénio apesar de algumas mágoas como se pode constatar com a morte recente dos 4 filhos considera-se um homem feliz.

O desapontamento de Nhu Eugénio perante o Ministério da Cultura

Nhu Eugénio é um homem decepcionado segundo afirma com a forma como é tratado pelos homens da Cultura. Hoje, com a idade um pouco avançada e com uma saúde bastante debilitada beneficia apenas de uma pensão de 4 900$00 dos Serviços de Assuntos Sociais que mal dá para compra de medicamentos. (Hoje por sinal até se encontra cortada).

Se é certo que este humilde homem de Chã de Junco é reconhecido pela Câmara Municipal do Tarrafal como artista pelo seu valor já demonstrado o mesmo não se pode dizer do Ministério da Cultura. Mas, o nosso Eugénio não é o único (desses humildes obreiros) que se encontra nesta situação de “desamparo”. Ele, um homem bem-humorado por natureza sempre a brincar, não obstante o seu estado de saúde, ironiza: kuandu ki ratons ta lembra di ratinhus! Com isto faz-me lembrar: Kuandu ki fartu ten dor di fomentu?

A propósito, no meu artigo de 04 de Abril 2017 sobre “NTONI DENTI D,ORU, um considerado músico da nossa praça que vive próximo da sua área teceu algumas críticas às autoridades competentes quanto à situação de abandono que foi votado o rei da “finason & batuku” de São Domingos no momento em que mais necessitava.

Reza ou ladainha

Nhu Eugénio hoje um octogenário ainda bem rijo apesar de algumas complicações com o seu estado de saúde, participa em todas actividades culturais e religiosas da sua zona. Considerado por alguns colegas da mesma idade como um dos melhores cantores da zona no chamado “reza”. Sublinha: Que nessa cerimónia não leva a sua cimboa.

Termino com os meus sinceros ao Sr. Eugénio por ter partilhado comigo um pouco da sua vida: as suas alegrias e as suas tristezas. As suas aventuras e desventuras. Os seus sonhos e as suas desilusões. Formulando votos de muita saúde e muita coragem. Bem-haja!
Um abraço a todos.
Hasta lá próxima

Tarrafal, aos 19 de Setembro de 2017

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