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Um só ator para um único papel ou ineficácia dos poderes extraordinários: caso de Pinhão que desespera 04 Outubro 2017

Os pinhonenses querem uma estrada sem buracos, querem a iluminação pública que têm estado a pagar, querem o saneamento das pocilgas à entrada da via de acesso ao cemitério.

Começo por dizer que só sei de Pinhão o que está nos noticiários. Sem poder lá ir, falar com as pessoas, confio na comunicação social que me traz a sua voz reivindicativa. Ouço-os e processo de acordo com o que conheço: as expectativas das populações quando elegem o poder local. Foi este o caminho que empreendi.

Por: Alexandre Soares

Um só ator para um único papel ou ineficácia dos poderes extraordinários: caso de Pinhão que desespera

Um pouco por todo o mundo, há exemplos de que o poder leva à acomodação/corrompe e que os poderes extraordinários advenientes por exemplo de mandatos sucessivos imobilizam/corrompem ainda mais. Turquia e o seu superpresidente ‘de jure’, legitimando o referendo o que ‘de facto’ já era.

Em Cabo Verde há também superpresidentes, a nível local que é o que cabe ao caso. São sucessivamente eleitos, pois é, é o próprio povo que os elegeu a dar-lhes o aval – de que são os únicos que podem dar solução aos desafios.

Mesmo que os problemas do mandato anterior não tenham sido resolvidos, o povo acredita na nova promessa, mais uma, de que o senhor presidente precisa de mais um mandato para fazer o seu trabalho.

Há um ditado nosso que tenho ouvido a gente com autoridade – a começar pela estrutura mais básica que é a família. “Si e pa muda pa pior, dixa-nu ku kel ki nu konxe”. Todo o ditado pode ser contraditado e este precisa sê-lo.

É certo que o surgimento do ditado está relacionado com um facto básico: antes da empresa aventureira, todos queremos segurança –aquela que vem do que conhecemos. O tido como certo dá segurança, o novo amedronta; antes de experimentar já se parte do pressuposto que o novo não oferece garantias. É isso que temos de mudar.

Temos de mudar a ideia de que há um ator para um único papel. Isso que servia nas antigas monarquias – de Salomão a Luís XVI — já não nos serve. O rei que era juiz e sacerdote, gestor económico e planificador urbano, guerreiro e estratega, escritor e empreendedor, modelo de conduta para a faixa da população com voz e auctoritas para todos. Já não nos serve e os monarcas atuais das democracias avançadas mostram isso: representam a tradição, fazem o que os parlamentos lhes ditam.

Os superpresidentes do poder local, que este país viu nos pouco anos da nossa existência independente, foram uma realidade ditada por fatores próprios, um deles a vulnerabilidade das populações.

Mas a nossa nova realidade de país graduado a um patamar acima, PDM, obriga a mudar de mentalidade e de atitude cidadãs.

As soluções estão velhas. Um presidente há decénios numa câmara? Onde está a renovação de ideias que o imperativo de desenvolvimento local pede? Porque é que ninguém prepara a sua sucessão numa perspetiva democrática? A motivação tem de ser o amor à terra, sim.

Foto: Reivindicação da população de Pinhão, concelho de Ribeira Grande de Santo Antão, RTC, 2/10/2017

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