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Viver nas ruas da cidade capital 27 Setembro 2016

“Meu suporte e minha alegria eram a minha mãe, que morreu em 2005. Fiquei sem ninguém que me abrigasse, por isso moro na rua desde essa altura”. Este é o relato de Zeferino Mendes Tavares, conhecido por Dju, 39 anos, que há mais de 11 deambula pelos arredores do Sucupira, o maior mercado informal do país, junto com outras pessoas. Oriundas de diferentes lugares, elas também vivem na rua por algum motivo. Alcoólatra e toxicodependente, Zeferino Mendes confessa que o seu maior desejo é livrar-se desses vícios que o atormentam e construir casa própria num terreno que já possui. Por agora sobrevive trabalhando como lavador de carros, mas queixa-se que, por ser morador de rua, não é visto com bons olhos pela sociedade.

Viver nas ruas da cidade capital

Viver nas ruas não é uma opção. Situações como falta de trabalho, rompimento dos vínculos familiares, adversidades pessoais e doenças, levam várias pessoas a escolher as ruas da capital como “refúgio”. Muitas foram rejeitadas pelas próprias famílias, outras estão em busca de respeito e de novas oportunidades de vida.

Zeferino “Dju” Mendes Tavares é um exemplo das muitas vidas nestas condições. Há mais de onze anos, após o falecimento da sua mãe, fez da rua a sua casa, porque não encontrou apoio nem nos seus familiares, com quem perdeu o contacto, nem na sociedade. Sua esperança numa vida digna perdeu-se com a morte da progenitora. “Ela cuidou de mim como ninguém mais cuidou,” conta Dju, que antes morava em Achadinha.

Os moradores de rua e usuários de drogas como Dju são frequentemente rejeitadas pela sociedade. Muitos “cidadãos do bem” desviam deles como de um objecto ou de um obstáculo se tratassem, conta Dju. Na sua luta diária pela sobrevivência enfrenta várias adversidades – a fome, o frio, o calor, a chuva.

A cegueira social e governamental e a sensação de invisibilidade são apenas mais duas, tão duras quanto as outras. "Somos maltratados e mal vistos. Sofremos muito porque tudo é precário e duro. Não estamos na rua porque queremos. Eu tenho vontade de melhorar de vida, ter minhas coisas”, expressa Dju.

A luta pelo sustento e abrigo

À semelhança de várias pessoas que vivem nas ruas, Dju dorme num pedaço de chão no mercado do Sucupira. “Somos várias pessoas a passar a noite no Sucupira, muitas vezes nos damos bem, outras vezes desentendemo-nos e os problemas só são resolvidos com a intervenção da Polícia”, conta o morador de rua.

É uma vida dura, confessa Dju: “Se eu não trabalhar não como e nem me visto”. Como lavador de carros ganha seiscentos escudos por dia, dinheiro que dá para tomar o pequeno-almoço, o almoço e até comprar um cigarro. “Quando não tenho nada para comer procuro um senhor com quem costumo trabalhar. Ele sempre me ajuda, oferecendo-me roupa, comida e às vezes até dinheiro”.

O sonho de sair da rua

O sofrimento que consome Dju não é no entanto maior do que a esperança numa vida melhor. Aguarda com ansiedade a oportunidade de um dia ser visto como uma pessoa de bem porque “as pessoas que moram nas ruas são humilhadas pela sociedade”, diz Dju.

Mas a sua maior batalha é contra as drogas e do álcool, que usa frequentemente como uma “válvula de escape para esquecer a sua situação”. O seu desejo é livrar-se destes vícios para aumentar as suas hipóteses de ter um emprego e os meios necessários para construir uma casa num terreno já tem.

Políticas públicas

A fazer fé nas informações recolhidas, a maioria dos moradores de rua na cidade da Praia refugia-se no álcool e nas drogas para acalmar a amargura, o frio e a falta de esperança. No olhar carregam histórias tristes e conflituosas que dificilmente ganham voz no meio da multidão. As autoridades parecem estar de olhos vedados para estas situações. O problema, dizem os críticos, não é a ausência de políticas públicas para esses flagelos. Estas são boas, falta tirá-las do papel, para que não continuem a ser meras palavras.

Dju corrobora esta ideia: “Se fizeram alguma coisa por nós ainda não vi. Constroem Casa para Todos, habitações sociais, mas deveriam também ver a nossa situação e oferecermos um lar”. Para os técnicos da área social, o país carece de uma política pública capaz de promover a reinserção social dessas pessoas, dando-lhes oportunidades de trabalhar, de estudar e de ter uma moradia.

Mas para Dju um morador de rua ainda é invisível para a sociedade. O seu discurso não é digno de consideração, o seu sofrimento é ignorado e, muitas vezes, ele próprio não se vê como pessoa. “Uma pessoa a dormir no chão deixou de ser impactante. Só se apercebem dela quando incomoda os outros de alguma maneira. Infelizmente a indiferença para com pessoas que moram na rua tornou-se hábito”, finaliza Dju.

Cláudia Santos

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