OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

África: Pressa, ganância, apego ao poder 06 Fevereiro 2018

Em África, ainda hoje, no dealbar de sessenta anos das independências, o exercício do poder é muito pessoalizado. Basta ver para o que tem estado a suceder em alguns dos países irmãos e amigos. Podemos até lançar uma pergunta: porquê que a Guiné Bissau não tem um governo estável neste momento? Não vamos, por questões de ética, falar em nomes, mas o leitor não é ingénuo. Como é que alguém pode ter tido estrondosa coragem de inviabilizar sistematicamente a governação do país pelo seu próprio partido, ao qual o soberano povo da república atribui uma maioria absoluta, para lhe garantir a paz, a estabilidade e o tão almejado desenvolvimento?

Por: Domingos L. Miranda Furtado de Barros*

África: Pressa, ganância, apego ao poder

Daqui a dois anos a maior parte dos países de África a sul do Sahara vai comemorar os seus sessenta anos de independência. Por esta altura, se os líderes africanos quiserem dar o seu valioso e mais que esperado contributo para o desenvolvimento do continente, que eles levam na lapela para todo o lado e que tanto dizem adorar e cultivar, então, deviam abrir um amplo e profundo debate, visando fazer o balanço da trajetória até aqui e refletir sobre o porquê do atraso crónico do continente. Este debate deveria ter lugar e deveria ser franco e aberto. Já basta o medo do outro, que só tem contribuído para o definhamento das legítimas aspirações do povo africano. E neste debate deveria participar todos os grandes e renomados sages do continente, espalhados pelo mundo, sobretudo no ocidente. A África tem hoje, segundo dados existentes, alguns dos maiores cientistas sociais do mundo.
Sim, essa gente culta e laica e desinteressada no exercício do poder devia ser chamada a dar o seu parecer sobre a matéria. A partir daí os políticos africanos deviam apetrechar-se ou rodear-se de nédias mentes e capazes de os ajudar a tirar a África do descalabro em que se encontra. Não é compreensível que depois desse tempo todo os africanos continuem a perecer no calvário do mar Mediterrâneo, da forma abjeta e deplorável, como tem acontecido ultimamente. E isso graças à miséria que grassa o continente, de ponta a ponta. Os políticos africanos deviam, por amor aos povos que dizem representar, deixar dessa mania de afastar e de ostracizar aqueles que os podiam auxiliar, com o seu labor intelectual, na administração da coisa pública, aconselhando-os, propondo reformas administrativas e legislativas, para combater aquilo que o então presidente de Moçambique, Samora Machel, insistia em eleger como tarefa prioritária, ou seja, «a luta contra o tribalismo, contra o obscurantismo, contra a ignorância, contra o preconceito, contra a corrupção…». E fazia-o com veemência e rara clarividência. Samora Machel tinha toda a razão naquilo que dizia. É arrepiante pensar na lâmina de morte que ainda impende sobre a cabeça das crianças albinas, apenas pelo facto de serem diferentes.

O obscurantismo e outros males sociais não são e nunca foram exclusivos da África. Porém, se os outros conseguiram livrar-se desse emaranhado de patranhices, os africanos também podem e devem conseguir. Todos esses assuntos deveriam ser chamados à colação para o tal debate. Contudo, já antes disso, nós que não somos adivinho nem expert em ciências sociais, podemos avançar, sem grandes margens de erro que, no nosso amiudado ponto de vista, o insucesso do continente negro tem como epicentro três fatores intimamente interligados: a pressa em chegar ao poder, a ganância de enriquecimento à custa do erário público, o apego doentio e obsessivo ao poder, bem como a falta de cultura institucional. Em África, ainda hoje, no dealbar de sessenta anos das independências, o exercício do poder é muito pessoalizado. Basta ver para o que tem estado a suceder em alguns dos países irmãos e amigos. Podemos até lançar uma pergunta: porquê que a Guiné Bissau não tem um governo estável neste momento? Não vamos, por questões de ética, falar em nomes, mas o leitor não é ingénuo. Como é que alguém pode ter tido estrondosa coragem de inviabilizar sistematicamente a governação do país pelo seu próprio partido, ao qual o soberano povo da república atribui uma maioria absoluta, para lhe garantir a paz, a estabilidade e o tão almejado desenvolvimento?

Não queremos meter o bico em assuntos que não são da nossa competência, mas reservamo-nos sempre o direito de pertencer à África do povo, de pensar pela nossa própria cabeça, como ensinava Amílcar Cabral, e de sentir a dor e o desalento que milhões de africanos sentem. A incúria tem limites. Além do mais, o resguardo no que se refere a pronunciamentos que possam ser interpretados como tentação de intromissão na política interna dos países só tem sentido quando se ataca uns com escopo de favorecer outros. Não é o caso patente nesta peça. E nem sequer faria qualquer sentido. Escrevemos os nossos artigos imbuído apenas do espírito de augurar e de desejar o melhor para África. De nos batermos ciente e genuinamente para o progresso do continente, que não é propriedade de certos autores políticos, mas dos povos que nele habitam, sofrem e trabalham afincadamente para o aperfeiçoamento do bem comum. E tentaremos fazê-lo de forma genérica e não afunilada. Pois, guiado sempre pelo estrito respeito das instituições de países soberanos e dos seus legítimos representantes. Sem, necessariamente, abrir mão da nossa condição de lusófono entusiasta e de livre pensador. Não vinculado a nada nem a ninguém, a não ser ao apelo cívico da nossa consciência em relação a tudo aquilo que nos repugna e, ademais, na qualidade de ativista dos Direitos Humanos, que também somos. Então, sobretudo nesta condição, a falta de entendimento que inviabilize claramente o bem-estar de povos amigos e não só, afeta-nos sobremaneira. O tema dos Direitos Humanos é transversal a qualquer país e a qualquer povo.

Por isso não está sujeito às malhas e peias da tão propalada intocabilidade questão interna dos Estados. Portanto, esta legitimidade de certos pronunciamentos advém do facto de as birras e quezílias pessoais, particularmente em África, têm fragilizado as instituições, entravando o desenvolvimento do continente, criando misérias para o povo de puro capricho, causando sofrimentos incomensuráveis às pessoas de carne e o osso, que em nada diferem do articulista que aqui escreve. E há um outro lema que também nos é bastante caro. Para nós, o ativismo de Direitos Humanos em nada difere da pobre condição do poeta. Então, como diria o saudoso Vate cabo-verdiano, Mário Fonseca, «enquanto houver homens para quem os outros homens sofrem, a poesia existirá sempre». Podemos fazer a transposição desta máxima, “tout court, ou melhor, mutatis mutandis”, para missão daqueles que se batem pelo aprimoramento de Direitos Humanos.


*Lusófono convicto e ativista de Direitos Humanos

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