ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Pesquisa científica: Investigador cabo-verdiano defende investimento na biotecnologia para descobrir medicamentos naturais e mais baratos 18 Maio 2017

Cabo Verde precisa de investir na biotecnologia ou seja explorar a sua flora no sentido de encontrar medicamentos fitoterápicos (obtidos empregando-se exclusivamente matérias-primas ativas vegetais) que sejam alternativas aos medicamentos químicos que custam bem mais e são todos de matéria-prima importado, encarecendo a assistência farmacêutica e o tratamento das doenças, principalmente as bucais em que só o acesso ao Dentista é caro. A constatação é do Cirurgião-Dentista cabo-verdiano Mário Luís Tavares Mendes, que reside no Brasil, onde está Doutorando em Ciências da Saúde- Núcleo de Medicina da Universidade Federal de Sergipe. Membro do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Patologia Investigativa da mesma Universidade, Mário, que é também mestre em Odontologia pelo Programa de Pós-Graduação em Odontologia, fala-nos, na entrevista que se segue, do custo da dependência tecnológica de Cabo Verde e do seu projecto de pesquisa em que obteve resultados positivos em termos da busca de medicamentos naturais para o tratamento de uma das mais prevalecentes patologias da cavidade oral (a estomatite protética ). Uma doença mais frequentes em usuários de próteses dentárias e que é causada essencialmente por fungos, cujo tratamento com antifúngicos não se tem mostrado ultimamente tão eficaz.

Pesquisa científica: Investigador cabo-verdiano  defende investimento na biotecnologia para descobrir medicamentos naturais e mais baratos

A Semana - Para começar, como é que a Orgnização Mundial de Saúde vê o uso da fitoterapia no sistema nacional de saúde de cada pais?

- A fitoterapia segundo OMS é um dos caminhos para o desenvolvimento sustentável e consequentemente se mostra uma das vias viáveis para países pequenos como Cavo Verde. A fitoterapia foi o motivo de pesquisa do meu mestrado que já foi concluído com sucesso e continua sendo o motivo da minha pesquisa de Doutoramento.

- Com vê impacto da nossa dependência tecnológica nos custos dos produtos, com destaque para os medicamentos?

- A dependência tecnológica dos países como Cabo Verde, que recebem ajudas externas, é muito alta. Essa dependência se traduz no aumento do preço final dos produtos e serviços ofertados à população e cria um círculo vicioso de pobreza e atraso social. Essa situação é observada principalmente no campo da saúde. A exemplo disso podemos citar o alto preço de produtos farmacêuticos e hospitalares, que encarecessem a prestação de cuidados de saúde no nosso país. Essa dependência que falo é consequência direta da falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico tendo como pano de fundo a criação de produtos com alto valor acrescentado, proporcionando o almejado desenvolvimento social, bem como responder perguntas pontuais das práticas locais dos profissionais inseridos nos mais diversos setores.

Pesquisa e investimento na formação

Quais os principais desafios da saúde em Cabo Verde? - O principal desafio da Saúde no nosso país passa pela questão do financiamento, fruto da limitação dos recursos que um país pobre enfrenta. No entanto, podemos elencar outros desafios entre as quais a capacidade de executar mudanças para a desmedicalização da saúde, a gestão e capacitação dos recursos humanos, a falta de pesquisa em saúde e a falta de conhecimento dos profissionais da saúde para a integração da medicina popular.

No seu ponto de vista, como Cabo Verde pode ultrapassar esses desafios?

- Ultrapassar esses desafios perpassa pela gestão eficiente dos recursos da saúde. Formação de recursos humanos críticos no sentido de buscar as respostas pertinentes para os desafios da prática clínica. A valorização dos recursos humanos em Saúde. O fomento e incentivo à pesquisa em Saúde, fator primordial para geração de conhecimento e evidências. Esse conhecimento e evidência constituem o pilar para tomada de decisões em saúde, caminho pelo qual se pode atingir a eficiência na utilização dos recursos.

Falemos da sua experiência como estudante e pesquisador no Brasil. Ou seja, como se sentiu a necessidade de se capacitar e hoje está a fazer o doutoramento nessa area do saber?

- Tendo em mente que a capacitação do recurso humano em saúde ela se dá de forma permanente, o meu objetivo foi exatamente isso: estar sempre atualizado para fazer face aos desafios do mercado de trabalho e prática clínica inerente à minha profissão. Primeiro, ingressei em um curso de especialização em Gestão de Saúde pública e da família para ampliar a minha visão no campo da saúde pública, coisa que trabalhei durante muitos anos em Cabo Verde. Posteriormente recebi um convite para fazer parte do grupo de pesquisa do Laboratório de Patologia investigativa(LPI). No mesmo período escrevi o meu projeto de pesquisa que acabei ingressando no Mestrado e no mesmo ano de conclusão do Mestrado consegui ingressar no Doutorado.

Resultados de pesquisa e ganhos para a população

Mas qual foi o objetivo do seu projeto de pesquisa e os resultados concrectos conseguidos?

- O meu projeto de pesquisa foi escrito com o objetivo de procurar o tratamento de uma das mais prevalentes patologias da cavidade oral (a estomatite protética). A partir de um problema clínico desenhamos a nossa metodologia para responder a nossa pergunta de pesquisa. Essa patologia acomete usuários de próteses dentárias e é causado essencialmente por fungos, o tratamento rotineiro é feito com antifúngicos, que ultimamente não tem se mostrado tão eficaz fora os efeitos colaterais que eles causam. Então decidimos lançar mão de produtos naturais que segundo relatos da literatura são promissores como agentes antifúngicos e no final do estudo mostraram como promissores antifúngicos para o tratamento da doença citada.

Nota-se agora alguma precupação para o uso de substâncias naturais. O que está na origem de tudo isto?

- As substâncias fitoterápicas estão sendo bastante pesquisadas em alternativa aos compostos químicos, principalmente pelo seu baixo custo. O consumo de remédios à base de ervas e plantas medicinais é prática comum para cerca de 80% da população mundial, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesse sentido, a ciência e os profissionais da saúde têm que buscar esse sinergismo com a sabedoria popular e medicina tradicional para o bem estar da população.

Siginfica que, com isso, pode servir de exemplo, para os serviços de saúde, as Universidades em Cabo Verde?

- Deve servir de exemplo no sentido de mostrar a necessidade do nosso país criar um incentivo claro à investigação, principalmente nas áreas que fazem uma integração do conhecimento científico com o popular. Essa integração é de extrema importância na redução dos custos em saúde. Cabo Verde tem uma gama de plantas que na sabedoria popular tem efeitos terapêuticos para um leque variado de condições patológicas, todavia não existem pesquisas nesse sentido, o que caba em desperdício na nossa biodiversidade.

Isto se traduziria em alguns ganhos para a população?

- Sim. Primeiro, poderíamos produzir medicamentos a baixos custos a partir de fitoterápicos, o que melhoraria a atenção em saúde. Segundo, geraria inovação e consequentemente minimizaria a dependência de Cabo Verde em termos de fármacos. Propiciaria ainda a redução dos gastos em saúde e o uso racional dos recursos.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade


Newsletter