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António Tomás: «Amílcar Cabral era homem para construir unidade Guiné-Cabo Verde» 02 Fevereiro 2008

O jornalista e antropólogo angolano António Tomás esteve recentemente em Cabo Verde, onde lançou o seu livro “Amílcar Cabral: O Fazedor de Utopias”. Em entrevista concedida ao asemanaonline na cidade do Mindelo, o autor fala-nos de Amílcar Cabral, das suas ideias, do seu papel na história de África e no mundo e a forma como é hoje visto tanto em Cabo Verde, como na Guiné-Bissau e Portugal.

António Tomás: «Amílcar Cabral era homem para construir unidade Guiné-Cabo Verde»

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Lançou recentemente em Cabo Verde o seu livro “Amílcar Cabral: O Fazedor de Utopias”. Como lhe surgiu este título?

Eu tive muitas dificuldades em encontrar o melhor título para este livro e surgiu muito tarde. O título que pensei dar ao livro à medida que o ia escrevendo era “Um simples Africano”. Mas a Iva Cabral antecipou-me quando organizou a cronologia e as fotografias de Amílcar Cabral que foram publicadas pela Fundação Mário Soares. Tive então que arranjar outro título. Por isso, o título que acabei por dar ao livro surgiu muito tarde quando eu meditava em qual teria sido o contributo de Amílcar Cabral para o pensamento de Esquerda. E achei que o Fazedor de Utopias era o título mais justo para a biografia dele.

Amílcar Cabral era um utopista?

Sim, era certamente. E todo o projecto de Amílcar Cabral tem muito a ver com utopias. Na altura em que Amílcar Cabral começou a pensar na independência de Cabo Verde e da Guiné Bissau isso só poderia acontecer no quadro de uma utopia porque era, de tal forma utópico, que era preciso acreditar, que era preciso ter um sonho para levar esse projecto adiante. Além disso, há um outro aspecto que nos mostra que ele era um utopista: a forma como ele organizou as zonas libertadas. Nisso, há todo um grande pensamento da Esquerda que tem que ver com a construção de sociedades mais justas, e que podemos comparar a Zumbi dos Palmares, no Brasil.

A união dos cabo-verdianos e dos guineenses projectada por Amílcar Cabral também era uma utopia?

Eu não tinha pensado nisso, mas acho que tens toda a razão. Sim, era uma utopia porque a Guiné e Cabo Verde sempre tiveram condições muito diferentes, o colonialismo foi muito diferente nos dois sítios. E conseguir juntar cabo-verdianos e guineenses em torno de um projecto nacionalista é realmente uma das grandes utopias de Amílcar Cabral.

Como nasceu a ideia de fazer este livro?

A ideia de fazer este livro nasceu primeiro de uma grande curiosidade em relação a Cabo Verde, foi sempre um país que me intrigou muito. Eu cresci com cabo-verdianos em Luanda, onde há uma grande comunidade cabo-verdiana, e depois quando fui para Lisboa, eu estudei com cabo-verdianos. Eu era o único angolano no meio de muitos cabo-verdianos. Interessei-me pelo crioulo, pela música cabo-verdiana, pela comida, fiz grandes amizades com esses colegas cabo-verdianos. Foi através dessas pessoas que comecei a ler coisas sobre Cabo Verde e, naturalmente, coisas sobre Amílcar Cabral. De tal forma que quando eu e Miguel Hurst, com quem tinha um grupo de teatro, o Museu do Pau Preto, começamos a trabalhar numa peça sobre Amílcar Cabral eu já estava mais ou menos dentro das leituras sobre ele. Fizemos a peça e depois eu resolvi continuar com a investigação sobre Amílcar Cabral numa área diferente e fazer um trabalho que nunca ninguém tinha feito. Ou melhor, tinha sido feito de forma diferente - Oleg Ignatiev escreveu um livro intitulado “Amílcar Cabral, filho de África”, de 1975 -, mas nunca tinha sido escrita uma biografia sobre ele com uma perspectiva africana. E foi assim que surgiu a ideia de escrever este livro.

Na ocasião da apresentação do livro na cidade do Mindelo, Ana Cordeiro disse que uma das razões que levou António Tomás a escrever este livro tem a ver com a sua identidade e lusofonia. Que quer isso dizer?

Bem, na altura em que cheguei a Portugal para estudar coloquei a questão que muitos já colocaram antes de mim (e falo disso na introdução do livro): quem sou eu? E é a mesma pergunta que fez Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, toda aquela geração e todas as pessoas que, de repente, saem de sociedades africanas e que vão para a Europa e que se deparam com o racismo. E questionava-me: qual o meu lugar nesta sociedade? Aliás, o Museu do Pau Preto era um grupo que, pela primeira vez em Portugal, juntava apenas artistas negros precisamente porque nós tínhamos essas questões de identidade para resolver. A questão da lusofonia surge porque acho que há uma certa incompatibilidade entre essas questões de identidade e a forma como a Lusofonia tem sido defendida em alguns fóruns. Porque acho que, de certo modo, a defesa da lusofonia tem passado pelo apagar de certos capítulos da história colonial, principalmente aqueles que têm que ver com a violência colonial. O meu projecto não é contra a lusofonia, como muita gente deverá pensar. O meu projecto é propor uma forma de falar da lusofonia, tendo em conta que Portugal esteve em África durante 500 anos, que não silencie a História.

Disse durante a apresentação do livro que constatou tanto em Cabo Verde como na Guiné Bissau, durante o período de investigação para este livro, uma certa desilusão da independência. Sabe, a sua afirmação surpreendeu todos, no que diz respeito a Cabo Verde, que é tido como a mais bem-sucedida das ex-colónias portuguesas.

Bem, Cabo Verde é o país onde se vive menos esse sentimento de desilusão da independência. Encontra-se mais essa desilusão na Guiné-Bissau e sobretudo em Angola. As pessoas da geração do meu pai estão todas absolutamente desiludidas com a independência. São pessoas que ainda dizem que o período do colonialismo foi a melhor época das suas vidas. Falei também com muitas pessoas da minha idade que, mesmo não conhecendo o passado colonial e por causa da presença que Portugal tem hoje no nosso país, colocam em causa a questão do colonialismo. E por isso também escrevi este livro, para dar uma justificação, para fundamentar a razão pela qual temos de nos orgulhar de sermos independentes. Cheguei a esta conclusão através de uma outra formulação, que tem que ver com a própria possibilidade de cada país. E Cabo Verde é hoje um país que tem a situação mais ou menos resolvida. É um país que se tornou viável, mas nem sempre foi assim durante os 30 e poucos anos de independência. Houve anos muito maus, em que o país quase deixou de ser viável. A Guiné-Bissau, por sua vez, é um país completamente inviável. E há muitos países em África que são completamente inviáveis. Há uma grande tradição no domínio dos pensamentos que põe precisamente em causa esta questão do colonialismo, pois há países que são independentes no contexto internacional, que têm muitos direitos que os outros países, como os Estados Unidos, a Inglaterra, a Rússia, mas não protege os seus cidadãos da mesma forma que os outros países.

Afirmou também durante o lançamento do seu livro que tentou “desportugalizar” Cabral. Como fez isso?

Eu acho que há muita coisa interessante escrita sobre Cabral, do ponto de vista jornalístico. Mas, penso que nunca houve a preocupação de compreender Cabral filosoficamente. E as pessoas que têm escrito sobre Cabral são sobretudo portugueses e eles têm uma forma de falar sobre a guerra colonial que é transformar essa guerra num subcapítulo da luta anti-fascista. Eu tentei fazer uma coisa diferente, que foi enquadrar Cabral em três tradições de pensamento. As pessoas que têm escrito sobre Cabral não têm tido essa preocupação até agora. Assim, eu procurei enquadrar Cabral numa tradição negra e africanista, que tem a ver com as reivindicações de raça e com a questão racial da forma como é tratada por William Du Bois e outros teóricos americanos e que depois vai dar nos Congressos nacionais africanos de 1917 até 1944 ou 45, em que já aparece N’Krumah. E Amílcar Cabral é a continuação deste pensamento.

Também procurei enquadrar Cabral numa tradição de Esquerda, que começa com Hegel, Marx, e que na altura se chamou socialismo utópico e que teve a ver com a criação de novas sociedades, em que as pessoas tivessem os mesmos direitos, acesso à educação, à cultura e à saúde. E outra tradição em que procurei enquadrar Cabral como líder de guerrilha. Analiso como Cabral foi buscar elementos a Mao, ao Che Guevara e criou uma forma de guerrilha bastante original.

Do seu ponto de vista, a figura de Amílcar Cabral ainda está pouco explorada?

Acho que sim. Há ainda muita coisa por descobrir sobre Cabral, mas também sobre outras coisas porque no livro não falo só sobre ele. Falo do tempo de Cabral e das suas ideias. Ainda há um longo trabalho a ser feito porque ainda há muitos buracos na biografia de Cabral, o que a publicação da correspondência dele ajudaria a resolver. Por exemplo, deveria publicar-se a correspondência de Cabral sobre a altura em que ele está a finalizar o curso de Agronomia e decide ir para a Guiné. Porque não veio para Cabo Verde? Será que há razões para ele não ter tomado esta decisão? Também seria bom saber sobre a sua estada em Angola. O que terá ele escrito sobre Angola? Porque Amílcar Cabral até ir para Angola era uma pessoa muito conciliatória, trabalha para empresas coloniais, é nacionalista clandestino. Mas, em Angola, ele radicaliza-se completamente. Porque se torna radical em Angola? Essas coisas têm de ser trabalhadas, ainda há um longo caminho a percorrer.

Considera, de facto, como disse durante o lançamento do livro, que as ideias revolucionárias de Cabral eram mais originais e interessantes que as de outros líderes da mesma época?

Isso é um outro projecto que eu acho muito interessante. Podemos discutir se, de facto, Cabral é mais interessante que os outros líderes, mas acho que Cabral toca mais do que os outros porque aborda questões de identidade, de classe e de raça. Nisso, ele é mais original e mais interessante que todos os outros líderes nacionalistas.

Durante a apresentação do seu livro, no Mindelo, um jornalista italiano que está de visita a Cabo Verde manifestou-se surpreendido com a forma pouco cuidada como Cabral é hoje tratado em Cabo Verde, quando na Itália há pelo menos três ruas com o nome do líder nacionalista e, inclusive, uma fundação dedicada à obra dele. Isso vai ao encontro do desabafo de Iva Cabral, que considera também que Cabral foi esquecido. Qual a sua opinião?

A Iva Cabral tem razão, e aquele jornalista italiano disse coisas muito interessantes, mas esses são pormenores que não posso desenvolver, pois não sei qual é a importância que é dada a Cabral e à sua época nos programas escolares de Cabo Verde. Mas acho que, de facto, Cabral é uma figura esquecida, as pessoas sabem muito pouco sobre ele. Se calhar, a culpa não é das pessoas. O problema tem a ver com a falta de material sobre Cabral. Eu próprio, quando comecei a escrever o livro deparei-me com dificuldades em encontrar livros sobre Cabral que fossem fáceis de ler.

Bem, acho que Cabral é mais conhecido de uma certa geração, que é contemporânea de Cabral. Não sei se a culpa é apenas das pessoas mais novas, mas também não houve grandes esforços em se escrever, em dar a conhecer a figura de Cabral. Curiosamente, em Portugal há muito mais material sobre Cabral do que em Cabo Verde. Mesmo que as pessoas queiram conhecer, não encontram muitas alternativas. A única forma de colmatar essa falha é dar a conhecer Cabral, escreverem-se livros, publicar a correspondência dele, fazer colóquios sobre ele.

Cabral foi refém da sua época, como afirmou num outro fórum?

Sim, Cabral foi refém da sua época. Na altura em que se ensinava sobre essas grandes figuras como Agostinho Neto, ergueram figuras de características quase divinas, que tinham feito tudo bem. A partir do momento em que as pessoas se tornam mais críticas começam a se afastar. Aliás, esta é uma das razões porque Cabral é refém da sua época. A segunda razão tem a ver com as querelas partidárias porque para muita gente Cabral ainda é uma figura do PAICV. E, claro, é natural que as pessoas do MPD e de outros partidos não se revejam na figura de Cabral. Só se transcende isso de duas formas: primeiro, começar a ver Cabral além de querelas partidárias, colocá-lo numa posição nacional e para além de qualquer filiação partidária, pois é um dos pais da nação cabo-verdiana como é o George Washington nos Estados Unidos, ou Thomas Jefferson, que tinha escravos mas ninguém lhe tira o contributo que deu para a afirmação dos EUA. Segundo, deveria começar-se a encarar Cabral com mais crítica. Não se pode ensinar ideologias na escola. Temos que ensinar as pessoas a pensar, a criticar e a discordar.

Afinal, como se sentia Amílcar Cabral: cabo-verdiano, guineense ou português? Chegou a alguma conclusão no seu livro a este propósito?

Essa é uma questão em que tenho pensado muito. Mas é uma questão que nos ajudar a compreender muito a questão do multiculturalismo, de que se fala muito agora. A própria unidade que Cabral propõe entre Cabo Verde e Guiné Bissau é para transcender a questão da identidade. Porque ser cabo-verdiano ou guineense se és as duas coisas, não é? E é interessante como Cabral é presciente nisso. Ele fala disso nos anos 50, mas parece que está a falar dos problemas que temos em Portugal, onde há muitas pessoas com dupla nacionalidade.

Parece que está a falar dos descendentes de cabo-verdianos.

Sim, e é muito interessante que quem faz esta análise é uma pessoa cujos pais são de Cabo Verde e que nasceu na Guiné Bissau, portanto é guineense de naturalidade e cabo-verdiano de cultura porque cresce com cabo-verdianos e todas as questões que têm a ver com a diáspora cabo-verdiana no quadro do império colonial português. Mas, também, é importante dizer, Cabral tinha muitas referências portuguesas como têm os nossos pais, pois na altura que estudaram os manuais eram portugueses. E esse lado português era também muito forte, ele nunca escondeu a sua predilecção pela culinária portuguesa (gostava imenso do cozido à portuguesa e de um bom vinho). Isso coloca questões muito interessantes sobre os nossos tempos, não é? E o mundo é assim cada vez mais: pessoas que têm duas, três ou quatro pertenças. É uma questão interessante, ver o contributo de Cabral para resolver esta questão de bi-nacionalidade.

Como acha que Cabral se encaixaria em Cabo Verde e na Guiné Bissau de hoje? Será que, se ele estivesse vivo, o projecto de unidade Guiné-Cabo Verde estaria de pé?

Isso é uma pergunta muito, muito interessante e que nos remete para uma outra área da História e que tem sido agora muito explorada e que é a História Virtual. E, de facto, levanta questões muito interessantes. Eu acho que Cabral tinha uma grande força e tinha uma coisa que muito pouca gente tinha no PAIGC ou em qualquer outro movimento de libertação: ele era uma figura de consenso. Mas também poderíamos ver se a forma como foi morto não teria a ver com esse mesmo consenso que ele criou, é uma outra questão. Além disso, Cabral tinha um grande carisma e acho que, se ele não tivesse sido assassinado, era homem para construir a unidade Guiné - Cabo Verde. Seria um projecto originalíssimo.

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