Preta, uma menina de jeito irrequieto que sobe e desce incansavelmente as ruas da Cidade Velha, diz que sabe perfeitamente o que é ser Património Mundial da Humanidade. Explica que aprendeu na escola que agora “temos que conservar os nossos monumentos para que a nossa cidade seja mais bonita e mais limpa”. “Gosi nôs ê patrimonio!”, exclama, rodeada pelo sítio histórico ontem destacado pela UNESCO e doutamente estudado por entendidos nacionais e estrangeiros, mas que para ela é o cenário das brincadeiras da sua infância.
É no quiosque de Marli, no Largo do Pelourinho, que as pessoas, enquanto tomam um grogue, comentam o acontecimento do dia. Para essa comerciante, que vive do outro lado da praça – numa das casinhas “património” também –, esta é uma oportunidade para a Ribeira Grande de Santiago crescer. “Pode trazer mais turismo, mais negócio, e há que dar oportunidades às pessoas para crescerem juntamente com a Cidade”, avisa.
Nas conversas com os locais, o discurso parece decalcado das acções de sensibilização feita pelos responsáveis da candidatura. Na realidade, a distância entre a declaração de Património Mundial da Humanidade anunciada ontem e as pessoas entenderem quais os efeitos práticos desse facto no seu dia-a-dia é grande.
“Para pôr um prego numa porta, vamos ter que pedir o prego à UNESCO”
Há ainda quem não veja com muito bons olhos este estatuto. O Padre Campos dedicou uma vida à Cidade Velha e olha com dúvida para o futuro do município. “Agora, para pôr um prego numa porta vamos ter que pedir o prego à UNESCO”, observa o pároco que prevê tempos muito “intrincados”.

Para o Padre Campos, há o problema do Ministério da Cultura e autarquia não falarem a uma só voz. Da varanda da sua casa, sobranceira a todo o sítio histórico, vai apontando casas e construções que foram recusadas a uns, mas que o “compadrio” deu a outros. “Não entendo porque não permitem certas obras a umas pessoas, argumentando que não se coaduna com o património, e deixam que outras as façam…”. “Enfim, não há igualdade de circunstâncias”, conclui.
Rosalinda, uma enciclopédia viva sobre a Cidade Velha, foi quem tocou os sinos, cedo de manhã, para anunciar a boa-nova. Ao repique juntaram-se os foguetes e o buzinão que tomou conta da cidade. As pessoas perguntavam por quê o rebuliço. Era o estatuto de Património Mundial a chegar.

“Hoje não é um dia igual aos outros. É um dia grande para Cabo Verde, para o mundo e para quem está lá fora”, comenta emocionada D. Rosalinda. Hoje, a guardiã da Igreja de Nossa Senhora do Rosário faz parte do Comité de Gestão do Património – que une governo, autarquia e cidadãos. Para ela, ainda é preciso muita sensibilização para fazer com que as pessoas entendam, e entranhem no espírito, a importância de ser Património Mundial da Humanidade.
Por: Catarina Abreu
Fotos: Eneias Rodrigues
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