Com o propósito analítico de desconstruir o discurso legitimador dos partidos políticos e o seu fraco enraizamento na sociedade civil, concentrar-nos-emos, por agora, sobre o espectro, a acção, a estrutura organizativa e as orientações estratégicas das juventudes partidárias, percepcionadas como um microcosmo político-partidário.
Um olhar holístico, matizado e transversal, remete-nos indubitavelmente a um universo multifacetado de interrogações, também elas teleológicas admito, não comummente analisadas por uma abordagem que se quer isenta, imparcial e descomprometida com a cegueira partidária que pulula o imaginário e os mapas mentais de parte significativa dos nossos opinion-makers. Senão vejamos...
Serão as juventudes partidárias meros instrumentos de doutrinação política e formação ideológica dos partidos? Constituem instâncias privilegiadas de socialização política? Ou se afiguram como autênticos mecanismos de instrumentalização pessoal e alavanca propulsora de um carreirismo político futuro? Representarão o reservatório do ideário político-ideológico dos partidos, sua fonte de legitimação ideológica a menor escala ou plataforma de "domesticação política" dos que professam do oportunismo carreirístico como mecanismo de mobilidade social ascendente? Continuarão, ainda hoje, a veicular o discurso panfletário das supra-estruturas partidárias que politicamente as suportam?
Num país onde a participação cívica e política se circunscreve única e exclusivamente aos momentos eleitorais, não constituiria labor das juventudes partidárias ocupar esse vazio através da mobilização de estruturas intermédias de participação e socialização política, consciencializar a juventude para a tarefa de empreenderem um debate crítico, emancipador e mobilizador sobre questões estruturantes, e quiçá fracturantes, do país? Revela-se tarefa hercúlea cumprir na íntegra todos estes pressupostos dada a carência de recursos e estruturas disponíveis para o efeito, mas a experiência prática evidencia comportamentos pouco abonatórios e incongruentes com os propósitos que deveriam presidir a orientação estratégica das jotas partidárias.
Ao invés de uma crítica intersubjectiva, aberta e consequente sobre as questões centrais da governação política, económica, social e cultural da nação, as jotas partidárias têm reproduzido, em jeito de seguidismo político, o ideário que preside as lutas políticas e disputas ideológicas, sempre inócuas e estéreis, dos respectivos partidos políticos, num arquipélago em que a orientação ideológica não constitui um móbil político-eleitoral.
Outrossim, as juventudes partidárias têm constituído terreno fértil/espaço privilegiado para actualizar e intensificar disputas políticas das diferentes facções intra-partidárias: os alinhamentos políticos que se estruturam durante os pleitos eleitorais que elegem a liderança das jotas partidárias são sintomáticos do facto supracitado e reflectem lógicas clientelares e de cooptação política, consubstanciado o apoio deste ou daquele membro do partido-mor, a esta ou aquela candidatura jota, isto é, velhas disputas políticas e ideológicas perfilam-se sob a égide de um novo respaldo institucional (jotas).
Convenhamos, e admitamos, sem pseudo retóricas políticas, o seguinte: as juventudes partidárias representam autênticas fileiras de recrutamento político e viveiros para o carreirismo político. São sobejamente conhecidos entre nós casos de instrumentalização deliberada do movimento associativo, sindicatos e ordens socioprofissionais para fins de dirigismo político-partidário, promiscuidade política e prostituição intelectual. No entanto, a trajectória política da esmagadora maioria dos indivíduos que trilharam por esse ignóbil percurso tem sido semelhante (um autêntico déjà vu), e em muito dos casos ela tem sido efémera e inglória, apanágio de um trajecto em si mesmo titubeante e edificado sobre bases fragilizadas.
A inoperância das juventudes partidárias tem explicações históricas porque os partidos políticos estão fracamente enraizados na sociedade cabo-verdiana, e não emergiram de clivagens sociais, políticas, económicas e religiosas relevantes e/ou potencialmente fracturantes. Este facto incontornável do espectro político-ideológico nacional explica a enorme volatilidade eleitoral e a acentuada dificuldade em traçar o perfil tradicional do eleitor cabo-verdiano, ele também e como sempre, com as suas especificidades. Afinal de contas somos especiais, como se tornou corriqueiro dizer pelas paragens tropicais, sempre quando não se vislumbram explicações científicas e empiricamente validáveis perante factos sociais que desafiam a análise política dos opinion-leaders da praça.
O porquê da opção por uma carreira político-partidária? Vários argumentos podem ser coligidos como factores explicativos do móbil político individual, mas a verdade é que ultimamente um segmento considerável de jovens tem-se identificado partidariamente porque se consciencializaram que esta constitui a única possibilidade de alargarem a sua estrutura de oportunidades profissionais, num país em que a administração pública e os cargos de topo da hierarquia funcional das instituições públicas são, na sua maioria, completamente partidarizados.
Em abono da confiança política (compreensível), e sob artifícios retóricos de ocasião, os dois principais partidos políticos que até então sustentaram o governo têm professado religiosamente essa prática de partidarização generalizada da administração pública. Consequências? As alternâncias políticas e as alterações de governo provocam, como é natural diriam, a substituição em cascata de toda a máquina administrativa começando pelos directores dos liceus, também eles politizados, passando pelos directores gerais, assessores e respectivas secretárias, etc....e, em muitos casos, a despromoção daqueles que estão na base da pirâmide societária (motoristas, empregadas de limpeza, guardas nocturnos, porteiros etc.).
Todos vão para a prateleira, com todas as consequências pessoais e de sustentabilidade do orçamento familiar que isso acarreta, para não falar do ritmo de trabalho que a administração pública perde porquanto os newcomers terão, como é natural diriam, o seu tradicional tempo de engrenagem no sistema, juntando a tudo isto os atrasos, as intermináveis conversas de corredor, o sol abrasador, a amena cavaqueira de que o ilhéu não prescinde e o célebre manusear da revista Maria/Ana/Mariana da senhora da recepção, geralmente com mau feitio, que se entretém com a leitura da secção eles & elas onde uns, através de cartas endereçadas ao psicólogo de serviço, debitam os seus desejos, fantasias e frustrações sexuais.
E, o que dizer da apatia cívica, do absentismo e do desinteresse político generalizado? O manifesto de protesto de cidadãos apartidários que não se revêem na oferta pública eleitoral existe, pulula por aí e veicula subrepticiamente entre nós, mesmo quando a cegueira e o ’carneirismo’ partidário insiste categoricamente em ignorá-lo, ostracizá-lo e desprezá-lo, quando tais sinais de descontentamento poderiam constituir uma janela de oportunidades sem precedentes para que os partidos e as suas jotas melhorassem a sua performance política e a relação com os cidadãos...cada vez mais alienados.
O desinteresse generalizado pela actividade política paira, a qualidade da democracia enfraquece e os partidos políticos são o que são; a participação política ortodoxa, quando ela evidencia, circunscreve-se aos momentos eleitorais, e muita dela é orientada por lógicas clientelares e de patronagem política. E a participação política heterodoxa ou não convencional? Submerge em contextos de fraca participação cívica. E o que dizer do terceiro sector e daqueles que se orgulham da frequência das greves como apanágio da robustez da sociedade civil? A sociedade civil cabo-verdiana é ainda apática, amorfa e complexada. As greves, convenhamos, a maioria delas é mobilizada por interesses outros, obscuros, primários e activada pelos partidos políticos.
Enfim, esta é uma, entre várias posições existentes sobre as juventudes partidárias em Cabo Verde, todas elas legítimas e plausíveis à luz das lentes com que o articulista e os leitores constroem a sua visão do mundo...Esta é a minha e o texto apenas engaja o seu autor.
* Politólogo/suzanocosta@yahoo.com.br
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