OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Postal de Lisboa 29 Julho 2010

Ao concluir a leitura do livro “A morte do ouvidor” de Germano Almeida, veio-me à memória algo que li de que um dia será possível captar as imagens da vida de Jesus Cristo através das fotografias da calçada por onde este caminhou, porque tudo existe no espaço, nada morre. Num pressuposto de que a ciência tecnológica caminhará nesse sentido, posso ficcionar a possibilidade de uma incursão à cidade da Ribeira Grande, de Santiago, à época (século XVIII). De Otília Leitão

Postal de Lisboa

O escritor descreve com tal minúcia que nos transporta à ambiência onde um veredicto coloca as cabeças degoladas em Lisboa e regressadas a Cabo Verde, do Coronel Bezerra de Oliveira e outros nove cúmplices, espetadas em paus, perante o olhar cavérico servido em bandeja de prata, do ouvidor João Vieira de Andrade, alegadamente por aqueles assassinado.

Germano Almeida, que desta vez nos traz um romance pegando num facto histórico ocorrido em 1764, relata-nos com pormenor toda uma vivência da cidade da Ribeira Grande, ou Cidade Velha actual património da Humanidade, num intrincado de relações, entre o poder instituído a partir de Lisboa ao tempo do Marquês de Pombal e o seu relacionamento com outros poderes na então colónia portuguesa. Aqui coabitam a escravatura e os jogos de poder, privilegiando familiares, status sociais duvidosos, justiça ao sabor de interesses.

O autor leva-nos, através dos personagens que cria, alguns que já o acompanharam no seu romance Eva, ao passado e ao presente. Conduz-nos a uma reflexão crítica sobre a sociedade cabo-verdiana actual.

Tal como a envolvência a que nos habituou em “Dois Irmãos” ou em “O Testamento do Sr Napomuceno...” (os meus livros preferidos), Germano Almeida desafia-nos a um recuo na mente até 1764, para o centro de uma ilha de disputa de poderes, ouvindo os discursos dos senhores da época, assistindo aos casamentos de conveniência, escutando os juízos mesquinhos de quem ouve as conversas dos outros, ou sentindo a revolta dos injustiçados, perante as prepotências de quem pensa actuar sob o cumprimento da lei considerando-se acima dela porque emanente do rei. Fica-nos a dúvida de uma condenação que pode ter sido injusta, baseada no depoimento de uma mulher, sem contraditório, mas aplaudida como sempre acontece ainda nos dias de hoje quanto se incute de forma convicta a ideia de um crime.

“A Morte do Ouvidor” é uma obra a ler deste escritor que bem pode ser também um Nobel da Literatura. Por isso o juntei ao outro, José Saramago, na minha mala rumo a um curso de Verão na Universidade de Tianjin, China. Disseram-me que os professores que vão ensinar a língua Han aos bolseiros, muito apreciariam uma obra em português. Assim decidi mostrar-lhes a diversidade da literatura na língua comum com “O testamento de Napumoceno...” que já virou filme e uma das obras marcantes de Germano Almeida e o “Memorial do Convento”, obra igualmente consagrada de José Saramago.

Otilia.leitao@gmail.com

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