OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

A ideia de Cultura Caboverdiana: Identidade, Imigração e os Significados da Etnicidade 05 Setembro 2010

Resumo: No contexto da identidade cultural cabo-verdiana, em 1936, surgiram alguns intelectuais denominados claridosos, atentos à reconstrução da caboverdianidade, equiparando o mestiço ao europeu. O movimento prosperou até à geração de 50, quando intelectuais considerados nativistas procuraram valorizar contribuições de origem africana. Nesse artigo, analisamos o papel exercido pela cultura cabo-verdiana, que combina os princípios de “morabeza”, “cordialidade” e “hibridez” com a diferenciação étnica.

Por: Artur Monteiro Bento

A ideia de Cultura Caboverdiana: Identidade, Imigração e os Significados da Etnicidade

Palavras-chave: etnicidade, caboverdianidade, cultura, identidade, mestiçagem.

Significados da Etnicidade na Cultura Caboverdiana

Cabo Verde foi descoberta em 1460, por navegadores a serviço de Portugal, sob o patrocínio do Infante dom Henrique e a colonização teve início, em 1462, com europeus provenientes em sua maioria de Portugal e, posteriormente, mão-de-obra de escravos africanos. Nesta direcção, Artur Bento (2005) explica que, inicialmente, não havia caboverdiano em si, mas uma miríade de caboverdianos que foram tomando forma, à medida que europeus e africanos foram abandonando as diferenças etno-raciais, em prol de uma identidade mestiça, que se deu através do entrecruzamento de factores e tendências. Ainda segundo Bento (2005), os escravos apesar de pertencerem a tribos distintas, não colocaram suas culturas em oposição, já que a maioria convivia com crenças diferentes das suas próprias. Todavia, o colonizador não pôde transmitir a cultura portuguesa na sua integridade, ainda que os padres encarregados da conversão dos escravos ao catolicismo não encontrassem resistência de crenças que dificultassem a incorporação de valores ocidentais, já que chegavam misturados e dominados nos navios negreiros. Outro aspecto fundamental é a de que as condições geográficas, climáticas, o isolamento dos grupos de origem, tudo isso, associado à decadência da economia e, em consequência, o abandono colonial, acelerou o entendimento dos diversos grupos, ainda que os valores Ocidentais tenham prevalecido na constituição da sociedade. Isso justifica, em parte, o estreitamento de vínculos com a Europa, e, em consequência, o enfraquecimento de laços com a África.

Nesse entendimento, a identidade cabo-verdiana é produto de reelaborações das diversas identidades em contacto e, por isso, não há entre os caboverdianos a reivindicação de uma raiz étnica, mas sim, a afirmação de valores considerados colectivos. Porém, o termo “étnico” pode ser equiparado à noção “caboverdianidade”, indicando que a mestiçagem extirpou as raízes étnicas, incluindo a todos numa identidade singular. Portanto, a caboverdianidade está atrelada à identidade cultural compartilhada na “nova pátria”, à qual a geração de caboverdianos (pretos, brancos e mulatos) deve lealdade. A mestiçagem procurou cessar os vínculos etno-raciais com as terras distantes.

Cabo Verde deixa de ser prisão de escravos e brancos degredados para se constituir a “nova pátria”, à qual as gerações de caboverdianos devem lealdade. O processo de reconstrução das identidades étnicas, associada à intensa assimilação da cultura portuguesa, fez desabrochar expressões novas de culturas mestiças, tendo “o negro e o mulato se apropriado de elementos da civilização europeia e senti-los como seus próprios, interiorizando-os e despojando-se das suas particularidades contingentes ou meramente específicos do europeu”. Porém, os elementos transportados pelos afro-negros foram também assimilados pelo europeu, tornando-se “irremediavelmente comuns aos dois grupos”. (Mariano, 1991: 34).

A caboverdianidade busca conciliar a diversidade de elementos etno-culturais aparentemente conflitantes numa única categoria – a cultura caboverdiana. Nessa óptica, a “morabeza” assume a feição de “cordialidade”, “amigo” saudando de braços abertos aqueles que escolhem Cabo Verde como terra de acolhida. A morabeza refere-se a lar e território que, conjugados, são a nova pátria. A morabeza começa pela integração cultural, e termina no respeito aos fundamentos que embasam a sociedade. Desse modo, a etnicidade se resume a caboverdianidade – o singular da identidade cultural. A imagem de caboverdiano como homem “honesto”, “trabalhador”, “solidário” e “cordial”, claramente definida na memória histórica, apela também que os imigrantes sigam os costumes da terra.

Barth (1969) evidencia que as relações interétnicas se baseiam na interacção social entre os grupos, afirmando que a identidade étnica é um processo identitário e não como algo imutável. Ela está em permanente negociação, e daí sua ênfase na fronteira intergrupal e na interacção dos actores sociais através dela. No caso caboverdiano, a fronteira está presente na identidade cultural, construída numa versão sobre a mestiçagem, concernente à identificação europeia. Para Seyferth (2004), o compartilhamento de uma cultura é essencial na concepção de etnicidade, enfatizando que é na produção da diferença que se estrutura a fronteira simbólica do grupo. O conteúdo cultural – as “características diacríticas” que delimitam a identidade e as “orientações valorativas básicas” do grupo, nos termos de Barth (1969: 14) – é um aspecto importante a ser considerado, pois permite distinguir a etnicidade de outras categorias de pertença comunitária.

A identidade caboverdiana, assim como toda a identidade, revela a tensão em jogo na configuração de uma identidade específica, unívoca, frente a outros grupos étnicos. Etnicidade é uma das “características socialmente relevantes dos seres humanos”, afirma Rex (1996: 282). Ela deve ser distinta da compreensão de raça, de classe, entre outros. A etnicidade se define pelas características culturais: língua, religião, costumes, tradição, sentimento de lugar, que são partilhados por uma comunidade. Ela ocorre no campo das diferenças culturais, na constituição de laços sociais entre os que partilham uma cultura. Para Stuart Hall (2003: 69), a comunidade étnica reflecte o forte senso de identidade grupal que existe entre esses grupos, considerando que possuem “fortes laços internos de união e fronteiras bem estabelecidas”. Esses grupos possuem elos de continuidade, muito embora não estejam engessados em uma tradição imutável, mas, em um processo de (re) construção social, que vincula seus membros aos lugares de referência.

A Cultura Caboverdiana e a Assimilação de Imigrantes A cultura caboverdiana afirma o princípio da mestiçagem, numa tentativa de superar certos limites dos conceitos de assimilação e aculturação, então vigentes nas análises de processos migratórios. A mestiçagem contém o pressuposto da duplicidade, resultante do entrecruzamento das raças que fundamentam a origem da formação da sociedade caboverdiana. Essa mestiçagem resulta da ambivalente entre duas culturas (africana e europeia), dando origem a uma terceira – a cultura caboverdiana. Se pensarmos a “caboverdianidade” como demarcação de fronteira simbólica, ou, sinónimo de etnicidade, o indivíduo que deixa seu país para se estabelecer em Cabo Verde, não obstante, deve integrar a cultura do país. A fronteira simbólica, portanto, é a saga da identidade cultural, que pode assumir contornos imprevisíveis com relação aos grupos “não integrados”, à medida que cria os estigmatizados por serem de culturas diferentes, mas, principalmente, se forem percebidos como resistentes à assimilação.

As implicações da identidade cultural são claras na memória colectiva. Os caboverdianos guardam com lealdade os valores que fundamentam a sociedade. E, não é de estranhar que todos permaneçam caboverdianos em culinária, músicas, danças; catolicismo e outras denominações cristãs, sincretismo; crendices e superstições. A caboverdianidade aponta para uma característica fundamental – o que está no “sangue” é a cultura caboverdiana – e, esse princípio deve estar presente na identidade do imigrante (estrangeiro) residente em Cabo Verde. A metáfora de sangue, emprestada da pesquisadora brasileira Giralda Seyferth (2004) sobre a “imigração alemã no Brasil”, é usada para definir a identidade cultural como algo constitutivo do povo, à qual acrescenta o dado mais concreto da linguagem, conclamando todos a identificar-se com a cultura caboverdiana, como sinal distintivo que marca a diferença entre ser “africano” e ser “europeu”.

Robert E. Park (1928) denominou o imigrante “não assimilado”, teoricamente pela concepção de “homem marginal”. Para Seyferth (2004), esse conceito supõe a coexistência de atitudes e valores provenientes de duas culturas distintas, com a consequente possibilidade de conflitos e desajustamentos comportamentais de natureza psicológica, daí o uso da expressão “marginalidade cultural”. A dualidade cultural seria a principal característica da marginalidade em contextos migratórios, onde “padrões de comportamento, oriundos de culturas diversas, chocam-se através de dois ou mais grupos em contato” (Willems, 1980: 120). Segundo Seyferth (2004), no Brasil, em meados da década de 1940, a “cultura marginal” indicava a cultura de imigrantes alemães e seus descendentes, que se distanciavam da sociedade nacional, passando a se denominar de “alemão-novo”. Essa situação suscitou a “campanha de nacionalização” do Estado Novo, em 1939, proibindo publicações em idioma estrangeiro e forçando a assimilação dos imigrantes, tendo em vista a unidade da nação numa configuração luso-brasileira, tudo isso, para evitar a divisão do país em etnias.

Em Cabo Verde, o significado é simples, imigrantes devem se adaptar à cultura caboverdiana. Não chega a ser uma visão dicotómica, pois a cultura diferenciada faz parte de um território culturalmente diferenciado. Assim, a noção de imigrante como “homem dualista” não nos parece suficiente, apesar de percebermos que esse produto de dois sistemas culturais distintos produz um terceiro – imigrante caboverdianizado, aculturado, híbrido. O imigrante é um indivíduo dividido entre duas culturas, explicação que não se revela no discurso étnico subjacente à produção literária em Cabo Verde. Estudos sobre “caboverdianidade’, “identidade”, “nação”, “memória”, “raça”, “etnicidade” exigem um estudo detalhado sobre a Antropologia do Pensamento Social de Cabo Verde. Pois, a politização e/ou a repetição de teorias sociológicas, sem levar em conta a constituição histórica das ilhas, conduz o pesquisador iniciante a uma linguagem coloquial, nem sempre atenta aos cânones literários e, por isso, considerados de baixa qualidade estética e com excesso de neologismos.

Referências

BARTH, Fredrik. (Ed.). Ethnic Groups and Boundaries. Bergen/Oslo: Universitetsforlaget; London: George Allen and Unwin, 1969.

BENTO, Artur Monteiro. Memória híbrida, identidade e diferença: uma visão múltipla da comunidade caboverdiana no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UNIRIO, 2005.

BENTO, Artur Monteiro. Memória, espaço e identidade: a experiência de imigrantes caboverdianos no Rio de Janeiro (1950-1973) (Tese Doutorado). Rio de Janeiro: UNIRIO, 2009.

HALL, Stuart. Da Diáspora e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

MARIANO, Gabriel. Cultura caboverdiana: ensaios. Lisboa: Vega, 1991. PARK, Robert. Human migration and the marginal man. American Journal of Sociology, 1928.

SEYFERTH, Giralda. As identidades dos imigrantes e o melting-pot nacional. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 6, nº. 14, p. 143-176, 2000. SEYFERTH, Giralda. A idéia de cultura teuto-brasileira: literatura, identidade e os significados da etnicidade. In: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 22, p. 149-197, jul./dez. 2004.

WILLEMS, Emílio. Assimilação de populações marginais no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.

REX, John. Etnicidade. In: Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 284 a 286.

NOTA. O Artigo pode ser usado em trabalho académico, desde que citada à fonte: BENTO, Artur Monteiro. A ideia de cultura caboverdiana: identidade, imigração e os significados da etnicidade. In: Jornal ASemana, dia, mês, 2010.

Faz parte do trabalho pós-doutoral “Antropologia social caboverdiana”, em fase de redacção, e, por isso, deve ser usado somente como fonte bibliográfica.

Prof. Dr. Artur Monteiro Bento (Pesquisador Pós-Doutoral em Antropologia Social, Museu Nacional; Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ).

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