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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

“Retratinho de Amílcar Cabral” estreia em Portugal 30 Outubro 2010

Escrita por Miguel Horta, um português com ligações afectivas a Cabo Verde, “Retratinho de Amílcar Cabral” será a primeira peça infanto-juvenil escrita em Portugal sobre o herói da Guiné e Cabo Verde. A estreia é este sábado, 30, em Sintra, e tem como actor principal o cabo-verdiano José Barros. O desejo é trazer este ‘retratinho’ ao arquipélago no próximo ano, para o Mindelact.

“Retratinho de Amílcar Cabral” estreia em Portugal

A estreia está marcada para a tarde deste sábado, 30, às 16 horas, no antigo cinema Floresta Center, em Mercês, Sintra. “Retratinho de Amílcar Cabral” foi uma encomenda do Teatro Mosca”, que já levou à cena outros ‘retratinhos’ como o de Bruce Lee, Guerra Junqueiro. A seguir ao de Amílcar Cabral teremos o de Helen Keller.

Miguel Horta revela que “há muito vinha falando às crianças” com quem trabalha “sobre a figura de Amílcar Cabral. E agora vê esta esta “encomenda” do Teatro Mosca como um presente dos Deuses. :Estou muito satisfeito”, confessa Horta, antes de nos contar a história desta paixão por Cabral. “Lembro-me de ainda criança ouvir falar deste homem, inclusive foi colega do meu tio José Filipe, em Agronomia. O meu tio contava que Amílcar era um aluno brilhante e muito dado ao desporto. E, numa família progressista como a minha, era natural ouvir falar da luta anti-colonial antes do 25 de Abril”, relata.

Mais, como colaborador do CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral) sempre conviveu com a “sombra desta figura tutelar”. “Mas só senti a importância plena de Amílcar em 1979, pela boca dos cabo-verdianos com quem falei nas ilhas”.

Os contributos para o ‘retratinho’

Este artista plástico revela ao asemanaonline que se inspirou nas crianças de origem guineense e cabo-verdiana com quem convive diariamente, enquanto mediador cultural. “Os ‘modelos’ estavam por perto, mas foi necessário reconstruir a infância em tempos de guerra na mata da Guiné. Na esquina de baixo da Rua S. Francisco Xavier, na Cova da Moura, há uma mercearia que pertence ao Sr. Mumini Djaló, um fula que foi educado na “escola da mata” do PAIGC. Revisitámos as suas memórias de infância e os tempos da guerra. Foi uma fonte preciosa”, desvenda o também pintor e contador de histórias.

Segundo ele, as conversas com Mumini ajudaram a “desenhar a história” e a dar o ambiente onde a acção se desenvolve, ou seja, a mata africana. Mas o fula não foi o único, “outros amigos contribuíram”, como é o caso de Luísa Teotónio Pereira, do CIDAC, ou mesmo Domingos de Morais que cedeu gravações originais da voz de Amílcar Cabral captadas na mata em tempos de guerra.

Galissa, músico mandinga de Kora, também ele educado na mata pelo PAIGC, é outra testemunha importante para a peça, ademais ele acaba por participar nela também com a execução do tema “Cabral nala dinbaia” - “uma canção de boas vindas à ‘família de Amílcar’ que os visitava lá na ‘escola da floresta’, como conta Miguel Horta.

Tudo o resto é investigação e trabalho do autor. “Eu acho que entro em África sempre que vou trabalhar no bairro da Cova da Moura, o que acontece todas as semanas. Isso foi decisivo para a criação da história. Há quem chame ao bairro a 11ª ilha de Cabo Verde”, conta.

Miguel Horta não esconde a ligação afectiva com as gentes crioulas, não só por colaborar com o CIDAC, também pelas suas visitas frequentes à associação cabo-verdiana em Portugal. Vivências que vem retemperar nas raízes, nas inúmeras vezes que já pisou o arquipélago.

Horta que em 2006 publicou um livro infanto-juvenil, “Pinok e baleote”, confessa que “gostaria de marcar presença na Feira do Livro Português para falar sobre esta obra” literária que se desenrola em Cabo Verde.

O ‘retratinho’ na pele de um cabo-verdiano

A personagem central é “Mika”, encarnada pelo actor José Barros, uma criança filha de mãe guineense e pai “rabeladu” de Santiago, que cresce em Lisboa, “no bairro”, e volta para a Guiné reencontrando-se com a sua origem, com a sua história e a história de Amílcar Cabral.

Uma produção do Teatro Mosca, com texto de Miguel Horta, sob a direcção de Suzana Branco, música de Galissa e interpretação de José Barros (Tozé Barros), um jovem cabo-verdiano.

“A Suzana, às vezes, fica atrapalhada nos ensaios, pois a língua falada entre nós os três, mesmo que por momentos, é o crioulo, depois lá voltamos para o português”, relata o actor que veste o papel de protagonista nesta história - o Amílcar Cabral. E talvez por isso, Tozé não perde um único ensaio.

Sobre Tozé Barros, Miguel Horta revela ser “uma espécie de herói”. “De dia trabalha na construção civil e à noite ensaia, com toda a humildade e força telúrica das ilhas; afinal é natural dos Órgãos, Santiago. Os ensaios também acabam por ganhar muito com a presença tranquila e sábia de Galissa que fazendo soar o seu kora marca o ritmo da peça e as ‘deixas’ para o actor”.

Tozé Barros nasceu em 1979, nos Órgãos, Santiago. Já participou em diversas peças de teatro no seu país natal, até chegou a frequentar um curso de iniciação teatral no Centro Cultural Português, aqui na Praia. Em Portugal participou no Festival Internacional do Teatro, em Lisboa, e no Festival Alkantara com um ensaio aberto no Auditório Carlos Parede. Fez parte do elenco da peça “A Mulher”, de Tiago Rodrigues, e hoje frequenta um curso em teatro na Associação Alkantara, em Santos, Lisboa.

Sinopse do “Retratinho de Amílcar Cabral”

A tarde vai caindo melancólica como sucede em África. O kora de mestre Galissá vai dando a atmosfera em cena, com as suas toadas e cantos ancestrais da tradição Mandinga.

Um jovem, junto à árvore do "Polon" ("Polão"), fala consigo mesmo sobre a sua origem, a história da sua família, a sua existência. E regressa à antiga aldeia onde os seus pais o ‘fizeram’, no meio da conturbada Guiné da guerra colonial. Sentado no chão, conversa com os ‘irmãos’ (corporizados no público), construindo, pouco a pouco, o seu referente cultural, focado na figura de Amílcar Cabral.

Amílcar, que ele chama de "Nhu", ficou gravado na sua memória de infância e continua a largar perguntas sobre o seu futuro. As suas interrogações e respostas, aos poucos vão desenhando a figura do lider do PAIGC, o construtor de utopias. Acorda a manhã de África com a esperança na construção de um país feito de longas madrugadas e desejos.

Isabel Marques Nogueira

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