ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Cabo Verde no Wikileaks 05 Dezembro 2010

Cabo Verde esteve desde o ano passado sob apertada espionagem dos EUA, dizem os ficheiros secretos da diplomacia americana divulgados esta semana pelo site Wikileaks. Washington, de acordo com os documentos a que A Semana teve acesso, mandou agentes e diplomatas seus espionarem a propensão deste arquipélago para o terrorismo e o narcotráfico; e, nesse pressuposto, os mesmos deviam elaborar uma base de dados com informações biográficas, contas bancárias, cartão de crédito, viagens efectuadas, horário de trabalho, contactos telefónicos e e-mails de dirigentes e pessoas com ligações a Cabo Verde. A percepção que os cabo-verdianos têm do Millenium Challenge Account é outra preocupação da Casa Branca.

Cabo Verde no Wikileaks

Cabo Verde é um dos países sob espionagem dos serviços de inteligência estado‑unidenses soube‑se esta semana. A prova está no lote de 250 mil documentos secretos do Departamento de Estado dos EUA que o site Wikileaks anda a distribuir a vários jornais, provocando estrondoso abalo no seio diplomático mundial. A menção a Cabo Verde mostra que estes dez grãozinhos de terra, plantados no Atlântico, são alvo de uma atenção especial por parte das autoridades norte‑americanas. A tal ponto que os nossos dirigentes (governo e oposição) estão sob vigilância apertada.

Cabo Verde figura, com efeito, num grupo de oito países da região ocidental de África (com o Chade, Mauritânia, Níger, Burkina‑Faso, Gâmbia, Senegal e Mali) onde os EUA lançaram desde o ano passado uma abrangente operação de espionagem, envolvendo tanto os serviços governamentais quanto os dirigentes políticos, militares e da sociedade civil, bem como o sector da economia.

Na verdade, a investida norte‑americana vem desde a administração de George W. Bush, mas as novas directrizes, que incluem Cabo Verde e os restantes sete países da região saheliana, foram comunicadas às embaixadas dos EUA nesses estados oeste‑africanos a 16 de Abril de 2009, portanto, já durante a gestão de Barack Obama. Isso aconteceu através da secretária de Estado, Hillary Clinton. Melhor ainda, a ordem foi dada quatro meses antes de Hillary encetar um périplo pelo continente africano, tendo inclusive passado por Cabo Verde com o impacto que se sabe.

O telegrama que Hillary Clinton enviou às embaixadas americanas nos países sahelianos é claro: “O Departamento do Estado está desesperado por informações sobre o Burkina‑Faso, Cabo Verde, Chade, Gâmbia, Mali, Mauritânia, Niger e Senegal. Queremos saber tudo acerca de agitações sociais, tráfico de drogas, padrões de governação e detalhes sobre o sistema de telecomunicações”.

Os documentos da Wikileaks não mostram os resultados da espionagem feita (ou em curso) em Cabo Verde, mas apresenta o que a Casa Branca exigiu: “Os relatórios devem incluir, tanto quanto possível, informações sobre pessoas com ligações à região oeste‑africana (Sahel): organismos e cargos; nomes, posições e negócios; números de telefone, celulares e fax; lista de contactos, incluindo números de telefone e lista de contactos de e‑mail; cartões de crédito; viagens; horário de trabalho e outras informações biográficas adicionais”, lê‑se no despacho assinado por Hillary Clinton a que o jornal britânico The Guardian faz menção na sua edição de domingo, 28 de Novembro, na sequência do vazamento da Wikileaks.

Segurança, governação, economia e sistemas de telecomunicações foram os quatro eixos principais da espionagem desencadeada pelos serviços de inteligência norte‑americana em Cabo Verde. No capítulo da segurança, Washington insta os seus agentes e diplomatas a recolher, por exemplo, dados detalhados sobre eventuais presenças de grupos terroristas, os seus planos contra os EUA, as capacidades de resposta a ataques terroristas ou políticas de contenção de fundamentalismo islâmico na região.

A ordem assinada por Hillary Clinton era para que os agentes americanos em Cabo Verde averiguassem ainda o funcionamento das Forças Armadas e de Segurança, a possibilidade de cooperação com os EUA, a capacidade dessas forças para integrarem corpos de manutenção de paz... E, o mais importante, se há ou não condições para, em caso de crise, o Pentágono poder instalar em Cabo Verde uma base de apoio militar.

Nesse mesmo documento, a secretária de Estado pede também aos seus diplomatas e agentes que reúnam todas as informações sobre o narcotráfico na região, as ligações com os cartéis sul‑americanos e os dados dos principais suspeitos.

Washington demanda ainda informações sobre a percepção que os cabo‑verdianos têm do Millenium Challenge Account (MCA) e manda sondar a posição do governo e de cada dirigente, em particular, sobre o apoio de Cabo Verde aos EUA nos fóruns internacionais. Portanto, a eventualidade de uma “contrapartida” política ou diplomática não é de todo posta de lado face aos 110 milhões de dólares já disponibilizados a Cabo Verde. Tanto mais que, após o primeiro compacto, está já na forja um segundo compacto em montantes ainda por definir.

No capítulo da governação, a ordem era para que os agentes averiguassem os níveis de liderança no país, a actuação dos partidos da oposição, além de dados biográficos e recursos financeiros dos principais actores políticos e sua opinião sobre as políticas americanas a nível global. Em suma, um “Who’s who” (quem é quem) para melhor facilitar as abordagens políticas dos EUA em Cabo Verde. Estabilidade governativa e democrática, corrupção, direitos humanos, saúde, segurança alimentar, as actividades da banca e do mercado negro, as políticas ambientais e as relações externas são outros itens que deveriam ser apurados. Na verdade, atestam os documentos, o interesse americano por Cabo Verde é vasto. Num dos “cables”, a Casa Branca solicita uma investigação aprimorada sobre as migrações e os indicadores potenciais de instalação de campos de refugiados no arquipélago, atendendo ao fluxo migratório entre os países da sub‑região africana.

A ordem de serviço de Washington termina apelando aos agentes ao serviço da Inteligência americana para informarem sobre o sistema de telecomunicações existente em Cabo Verde, as suas qualidades e vulnerabilidades. E lembra que são fundamentais informações detalhadas sobre as frequências de rádio, sistema de emissão de passaportes e credenciais do governo e a agenda de contactos dos principais líderes civis e militares. Numa palavra: quem diria, hein!

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade


Newsletter