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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

“Quem vai decidir as eleições são os jovens” 23 Janeiro 2011

As próximas eleições legislativas são particularmente dramáticas para o PAICV e o MpD, enquanto partidos do arco do poder em Cabo Verde. Se perder, o MpD corre o “risco da divisão”; se derrotado, o PAICV terá de realizar a “sucessão etária”, numa altura em que estará afastado tanto do poder central como autárquico. O resultado de 6 de Fevereiro, esse, vai ser decidido pelos jovens, “e essa gente não tem referências históricas. Tanto pode votar numa mudança, como achar que o que está, para já, pode ficar”. A análise é de Marcelo Rebelo de Sousa, convidado do MpD ao colóquio “Cabo Verde e os desafios do futuro”, no passado fim-de-semana. Neste exclusivo ao A Semana o jurista e analista aborda outros aspectos de Cabo Verde; um deles é a regionalização, com os seus desafios e riscos.

“Quem vai decidir as eleições são os jovens”

Em dois/três meses esta é a segunda vez que cá aparece. A que se deve este interesse por Cabo Verde?

Da primeira vez foi a convite da Associação dos Juízes Portugueses, que organizou um colóquio, a propósito da criação de uma associação de juízes da Lusofonia, com sede em Cabo Verde; e, estando cá, o Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais, de Jorge Carlos Fonseca, ele convidou‑me para fazer uma palestra no domínio do direito. Desta feita, venho a convite do MpD, para participar num colóquio sobre desafios estratégicos relativos a Cabo Verde e, sabendo da minha presença, a Piaget convidou‑me para uma palestra sobre direito constitucional.

O seu tema no colóquio do MpD – a importância da alternância para a consolidação da democracia em Cabo Verde – está a ser visto como uma ingerência nos nossos assuntos internos.

Na conferência evitei pronunciar‑me sobre Cabo Verde, por ser deselegante fazê‑lo num período pré‑eleitoral. Em vez disso, achei mais sensato e prudente dizer a minha visão acerca da evolução da democracia no mundo, na Europa, e o máximo que disse depois é que considerava que Cabo Verde tem uma vantagem comparativa muito grande em relação a outras realidades africanas, pela sua posição geográfica, cultural, jurídica, económica, financeira, de plataforma entre África, Europa e América.

Além de ser muito interessante do ponto de vista de estudo, a possibilidade de alternância em regimes democráticos é, em si mesmo, culturalmente importante porque, tratando‑se hoje da qualidade da democracia, ela é maior nos casos em que o regime político reconhece, mais amplamente, os direitos políticos, pessoais, económicos, sociais e culturais, assegura mais abertamente o pluralismo de expressão de pensamento e organização e as condições para a alternância. Foi esta a minha mensagem. Ou seja, fugi intencionalmente sobre o que se passa em Cabo Verde.

José Maria Neves considerou a sua participação e a dos seus acompanhantes uma interferência, um apoio ao MpD. Quer comentar isso?

Prefiro não fazê‑lo, não vale a pena.

Cabo Verde e o mundo

Olhando para Cabo Verde, o que lhe ocorre dizer?

Conhecendo bem Cabo Verde – já aqui vim muitas vezes, ao longo de muitas décadas, com governos e presidentes diferentes – sempre considerei o vosso país um caso diferente, singular, quer na lusofonia, quer no continente africano. Na lusofonia porque possui uma riqueza que lhe é dada, desde sempre, pela diáspora, que começou muito mais cedo que as outras diásporas africanas. A vossa diáspora está espalhada por vários continentes e isso dá a Cabo Verde uma riqueza única.

Há nos cabo‑verdianos uma grande capacidade de adaptação e de ajustamento, e ao mesmo tempo uma grande capacidade cultural. Isso sente‑se no plano cultural, político e também do Direito. No continente africano, essa singularidade ainda é maior, não há muitos casos de uma capacidade de se dar com outras culturas, outras civilizações e outras experiências comunitárias sem perder a sua personalidade, mas dando ou incorporando elementos muito ricos – o que vos torna ainda mais ricos.

Eu lembro‑me, sempre, que tive aqui uma experiência muito interessante, como membro de uma delegação do Instituto Nacional de Administração, nos anos 80, que veio dar um curso de como fazer leis. Nessa ocasião pude contactar gente que estava no poder (o actual presidente da República era o primeiro‑ministro), pude contactar com jovens promissores – um deles o Renato Cardoso, que teve uma morte infausta, com quem me dei muito bem – e depois com uma série de juristas que eu conhecia porque tinham sido formados em Lisboa, e um ou outro em Coimbra, mas que eu conhecia também, gente que, se quiser, hoje está repartida por diferentes partidos. E foi muito impressionante na altura porque eu tinha tido oportunidade de participar num curso igual em Portugal e o curso aqui em Cabo Verde, em muitos aspectos, teve um nível bem mais elevado do que em Portugal. Algumas dessas pessoas que participaram como prelectores ou alunos vieram a ter funções importantes – estou a lembrar‑me do presidente Mascarenhas Monteiro, o Carlos Veiga, o Jorge Carlos Fonseca, etc.

Ou seja, estamos num momento em que em Portugal começa a despertar interesse para a qualidade na feitura das leis, que é uma coisa nova, e em Cabo Verde essa preocupação é antiga, vim a verificá‑la depois, anos mais tarde, noutras sociedades lusófonas. Cabo Verde chega em primeiro lugar a uma série de desafios no domínio do Direito, que eu conheço bem, como na política, economia, finanças…

Estou a lembrar‑me da união de facto que em Cabo Verde existe há vários anos e só agora chega a Portugal...

É verdade. Aliás, Cabo Verde teve sempre um direito no domínio da família distinto do regime que vigorava no quadro geral colonial português. Isto porque a realidade era o que era e pesava como pesava. Um outro exemplo é a paridade cambial, que começou em Cabo Verde. Coisas que são hoje discutidas no quadro das relações entre alguns estados lusófonos e que aconteceram mais cedo aqui.

Estou a ver: a nível do poder local, Cabo Verde permite listas de independentes desde 1991 e só agora Portugal adoptou isso.

Sim. Ou seja, consta‑me que, mesmo no período colonial, quando foi criado o primeiro liceu em Portugal, foi criado simultaneamente em Cabo Verde, ainda no século XIX. Há de facto, do ponto de vista educativo e cultural, passos que são dados em Cabo Verde muito mais cedo do que na Europa ou no continente sul‑americano. Há aqui um lado vanguardista muito importante.

Não há alguma condescendência sua em relação a nós?

Não, não há. Eu se tivesse que escolher, em termos de simpatia, escolheria Moçambique, por razões familiares. Mas é a realidade. Posso, aliás, testemunhar esse facto através de muitos alunos meus de licenciatura, como de mestrado ou doutoramento, cabo‑verdianos têm um universo cultural que eu não encontro em alunos portugueses e noutros alunos estrangeiros. Eu até admito que haja nisso também, como disse, uma componente insular. Nós em Portugal reconhecemos nos açorianos uma profundidade ou densidade filosófica que os continentais não têm. No caso dos açorianos há nostalgia, uma saudade, um lado depressivo, que eu não encontro nos cabo‑verdianos.

Nós temos mais sol.

Têm sol, música, alegria de viver, têm uma doçura muito grande.

Qual é a imagem que Cabo Verde projecta para um indivíduo como você?

Cabo Verde se fizer as escolhas certas – económica, financeira, sociais, culturais –, na devida altura, poderá ser uma plataforma multicontinental. No tempo dos grandes espaços da globalização, Cabo Verde é fascinante para os europeus. Estes têm aqui oportunidades muito interessantes de projecção.

Mas Cabo Verde começa também a interessar os americanos, mesmo em termos geoestratégicos. Viu que foram os americanos os grandes entusiastas da expansão da NATO em direcção ao Atlântico Sul, no sentido de um relacionamento geoestratégico com Cabo Verde.

Mas Cabo Verde também interessa aos orientais – caso dos chineses, por exemplo – porque eles têm uma noção exacta do que pode ser uma forma de implantação que lhes permita estar perto da Europa e do continente americano, mas obviamente também do continente africano.

Ademais, através da diáspora, Cabo Verde tem em cada cabo‑verdiano um embaixador. Esses embaixadores estão a ganhar peso progressivo na segunda e terceira geração, na vida cultural, económica, e até na vida política, dos países onde estão inseridos. Isso permite que seja hoje muito frequente já não falar de uma artista como Cesária Évora mas de vários outros artistas e expressões culturais. Isto depois tem valor, não só cultural, mas financeiro, económico, etc.

Mas há aqui um desafio muito grande que se coloca, e nisso há dois problemas, penso eu, quando visto à distância. Um é a demografia. O crescimento populacional coloca desafios grandes a Cabo Verde.

No sentido de que a população está a crescer mais do que a nossa capacidade de produzir riqueza?

Eu não diria tanto. O problema é sobretudo de ocupação de espaço. Se o crescimento projectar a comunidade ocupa espaço e exige novas formas de geração de riqueza. Essa é uma questão.

E a outra?

A outra foi debatida na conferência do MpD pelos economistas e é também debatida na Europa, que é a dimensão do Estado. No caso de Cabo Verde, qual é a dimensão possível que deve ter o Estado. Por um lado, há necessidades sociais que o Estado é chamado a satisfazer; e, por outro, há hoje uma grande limitação, a de saber até onde podem ir os Estados no seu endividamento. Há aqui um equilíbrio a fazer. Não pode haver o recuo do Estado, por um lado, mas, por outro, a partir de um certo grau de endividamento, os mercados internacionais começam a reagir negativamente. Isto é coisa que não acontecia há uns anos. E isto significa o quê? Por um lado, que há que encontrar novas formas de criar riqueza, para além daquelas que já existem; e por outro, há que encontrar formas de canalização de poupança. Isto é, além da poupança interna, provavelmente insuficiente para uma comunidade em crescimento, é preciso atrair e canalizar o investimento externo, sempre no sentido de satisfazer os interesses de Cabo Verde. Isto é que é fundamental.

Regionalização

Falou‑me do Estado. Um dos debates em curso em Cabo Verde é a regionalização. Como vê esse desafio, no caso cabo‑verdiano?

Este é um assunto que foi colocado por mim, em abstracto, na minha conferência. Não sei como vai ser em Cabo Verde. A regionalização política tem uma vantagem, que é a possibilidade de cada ilha poder fazer as suas leis, mas tem um grave inconveniente: o conflito potencial com os poderes do Estado.

O Estado centra

Sim. Temos isso em Portugal, ainda que limitadamente, em relação aos Açores e à Madeira. Isso com o tempo foi sendo resolvido, sobretudo, através do Tribunal Constitucional. Cada vez que havia dúvidas, e no início havia muitas dúvidas, foi preciso ver se as leis regionais não ultrapassavam os limites do que era o interesse específico de cada ilha e se não colidiam com o que era o interesse geral, nacional. Aqui em Cabo Verde, multiplicado por nove, é naturalmente um problema mais complicado.

Outra coisa é a regionalização administrativa, que não dá tanta autonomia como uma regionalização política, mas também não dá tantos conflitos. É evidente que mesmo a regionalização administrativa implica duas coisas. Isto para que as pessoas saibam do que se está a tratar.

Uma das coisas é transferir poderes do Estado para as regiões, outra é transferir poderes dos municípios para as regiões. Muitas vezes, os municípios defendem a regionalização porque acham que é uma maneira de ir buscar poderes ao Estado.

Em Cabo Verde é o que se verifica. Os municípios querem mais poderes do Estado mas recusam‑se a fazer a infra‑municipalização.

Ora, aí está! Os municípios, num quadro de reforma profunda da administração pública, têm de fazer duas coisas: perder poderes para as regiões e perder poderes para realidades infra‑municipais, as freguesias. Nesse quadro, uma regionalização, mesmo administrativa, implica mudanças muito sensíveis na reforma do Estado, na reforma dos municípios, na reforma das freguesias, portanto, é um processo longo e lento.

Aqui em Cabo Verde, há uma corrente a favor da regionalização administrativa e outra a favor da regionalização política.

Confesso que no vosso caso ainda não percebi bem.

Entre os defensores da regionalização política, há quem defenda um parlamento com duas câmaras – alta e baixa.

Isso é quase uma federalização de Cabo Verde. O problema que este tipo de regionalização coloca é que, no mundo de hoje, há um grande controlo dos gastos públicos e da dimensão da administração pública, a multiplicação de poderes. Se estes forem todos legislativos, para além de ser um certo limite, a regionalização política pode ser mais complicativa do que simplificadora.

É um aviso à navegação cabo‑verdiana?

Não, necessariamente. Cada caso é um caso. Mas digo que no caso da regionalização política, sobretudo se quiser aproximar‑se de uma federação, pode acarretar tantos ou mais, problemas do que trazer vantagens.

No contexto de Cabo Verde, com os meios ao nosso dispor, é aconselhável partir para uma regionalização política?

Eu não quero dar opinião, porque isso era intrometer‑me nos assuntos de Cabo Verde. O que posso dizer é que isso aplicar‑se‑á a Portugal, se se defender a regionalização política do continente, ou dos estados europeus. Esta é uma realidade hoje bem mais complicada do que há uns tempos.

Eu dou um exemplo: o Partido Socialista voltou a defender há pouco tempo a regionalização administrativa, que é menos do que a política, como vimos, e mesmo assim, o actual primeiro‑ministro já travou por causa dos problemas financeiros do Estado em geral. Isto significa que mesmo a regionalização administrativa, no caso português, está adiada. Por uns tempos deixa de ser uma prioridade, na opinião dos grandes defensores, por razões pragmáticas. E eu não estou a falar da regionalização política, por maioria de razão.

No seu caso pessoal qual é a regionalização que prefere, isto se for um regionalista.

Depende de país para país.

Eu sei, mas em relação a Portugal, qual é a sua posição?

A regionalização política está completamente fora de causa. E a regionalização administrativa, lá, tem de ser vista no seguinte quadro: primeiro tem de se ultrapassar este período de crise. Em período de crise, não é fácil, nem é aconselhável.

Pelos gastos públicos que isso acarreta?

Sim, é inevitável. E em segundo lugar pela imagem que dá para o exterior, a de multiplicação de poderes administrativos, no momento em que a pressão é para simplificar a administração, extinguir autarquias, institutos e empresas públicas. Por isso, estar a criar novas autarquias é um bocado difícil de explicar, da mesma forma que é muito complicado, num quadro de racionalização do nosso ordenamento do território, explicar às populações por que razão se está a extinguir esta ou aquela autarquia. As pessoas não aceitam isso de ânimo leve.

Legislativas e presidenciais

Ao fim de 20 anos de experiência democrática, vamos entrar num novo ciclo eleitoral que se prolonga até às presidenciais. A propósito, sempre que se refere a Carlos Veiga fá‑lo como candidato presidencial. Isso é ‘lapsus linguae’ ou é outra coisa?

Eu sou suspeito porque sou amigo dele e, além disso, os nossos partidos são da mesma família política. Ressalvado isso, eu acho que ele foi um daqueles casos de alguém que não era preciso ser‑se astrólogo para adivinhar que ele iria ter futuro político. Pelo seu percurso fez uma formação sólida que poderia levá‑lo a desempenhar cargos políticos. Depois poderia chegar lá ou não. Muita gente prepara‑se para isso e só chegam poucos. É a natureza das coisas.

Carlos Veiga teve a sua oportunidade e exerceu‑a, naturalmente. Depois, a certa altura, pressentiu que podia ser mais útil – e esta é a minha percepção, porque ele não me perguntou nada – servindo Cabo Verde como PR do que como PM. Demitiu‑se para ser candidato presidencial. Fez bem. Por duas vezes, ele fez a aposta presidencial. Desta feita, ele faz uma opção diferente, candidatando‑se outra vez ao governo.

Como você disse, este é um ano que tem duas eleições, e o eleitorado fica diante de uma escolha complexa quando é assim. Sobretudo quando primeiro tem‑se a eleição presidencial e depois as legislativas.

Aqui foi sempre o contrário.

Em Portugal ora foi uma coisa, ora outra. Aqui é mais melindrosa a opção porque, no fundo, hoje as eleições parlamentares são cada vez mais a escolha de primeiros‑ministros. Os eleitores são levados, na prática, a escolher entre duas pessoas o PM – sem saber quem são os candidatos presidenciais. Para quem está de fora, há a sensação da lógica do balanço ou de trampolim. Quem ganha as legislativas fica bem colocado para ter uma nova vitória nas presidenciais. A dúvida com que se fica, desta feita, é se o vencedor das legislativas vai mesmo ser PM ou se admite a hipótese de ser PR.

Quer percam quer ganhem?

Sim, quer percam quer ganhem. Eles têm esse direito. Só que isso coloca o eleitorado numa situação ‘sui generis’: escolhe alguém para ser PM, só que esse alguém pode passar a bola a outro e concorre às presidenciais.

Aqui em Cabo Verde, apesar das declarações quer de Veiga quer de Neves, muita gente acredita que eles primeiro querem resolver o problema das legislativas para depois avançarem para as presidenciais.

Por isso é que acho crucial que nos debates lhes seja perguntado isso ou que assumam o compromisso público de que concorrem realmente para serem PM.

Mas já fizeram isso.

Só que devem fazê‑lo dizendo que “em caso algum” se candidatarão a PR. Poderá perguntar‑me: Visto de fora, o que terá levado Carlos Veiga a se candidatar ao governo...

Quando toda a gente sabe que a verdadeira ambição dele é ser PR.

Porque se candidatou duas vezes, a ideia com que se fica é essa, realmente. Há várias explicações que ditaram a sua mudança de ideia. A primeira e a mais importante é a seguinte: um mandato parlamentar aqui é muito longo: cinco anos. Mais longo do que a generalidade das democracias, que é quatro anos. Cinco anos hoje, em termos políticos, é uma eternidade. As crises aparecem num ritmo assustador. Se o PAICV vence significa mais cinco anos de governo. Seria um tempo recorde de 15 anos. Isso – tenho de admiti‑lo – colocou ao MpD, como partido alternante de poder, uma questão de fundo: buscar o seu dirigente que considerava o mais forte possível para combater essa hipótese. Ainda que com sacrifício de eventuais ambições presidenciais.

Hoje na Europa o normal é haver governo de duas legislaturas, para além disso é muito raro. Aqui pode ser diferente. Logo, eu admito que o MpD terá pensado assim: este ano eleitoral é crucial, não nos resta outra saída senão recorrer a Carlos Veiga. Ele é de todos os potenciais candidatos do MpD a PM, de longe, o melhor. Já foi PM, tem experiência de Estado, conhece a vida internacional...

Esta é, a meu ver, a explicação essencial que justifica esta aposta. Além disso, quem foi PM, no quadro de uma Constituição como a cabo‑verdiana, sabe que ser PR é exercer um mandato muito importante em termos simbólicos mas não muito efectivo em termos de governação. O PR não governa, o PM sim. E os próximos anos são muito importantes, em termos de opção governativa, para qualquer país do mundo, mas também para Cabo Verde. Portanto, o somatório disto tudo terá sido a razão da mudança do pensamento de Carlos Veiga. Ele sentiu que este é um momento decisivo para a área que representa e sentiu que ele é mais importante no governo e não na PR.

Para ele, este é um “ou tudo ou nada”?

Eu tenho sempre receio de dizer que as pessoas, em termos políticos, estão definitivamente acabadas. Eu já vi muita gente considerada acabada e de repente regressar em força. Cavaco Silva perdeu umas presidenciais e anos depois voltou e venceu.

É o caso de Pedro Pires que saiu particularmente maltratado, simbolicamente enterrado e tudo.

Nem mais. Em política ninguém está definitivamente morto. O sistema cabo‑verdiano tendeu a evoluir no sentido de dois partidos de poder. Para um partido de poder, estar duradouramente fora do poder é muito complicado. Eu vejo isso pelo PSD, que agora está de novo próximo do poder. Mas antes disso esteve mais de seis anos fora do poder e tirando aqueles três anos (Durão Barroso e Santana Lopes) são uma dúzia de anos. Às tantas, o PSD acabou por ficar um partido autárquico. O mesmo aconteceu com o PS durante o governo de Cavaco Silva. Por maioria de razão em Cabo Verde, onde o Estado tem um peso maior, o partido acaba por estar muito dependente do exercício do poder.

Pós‑legislativas

Uma perda desta eleição será dramática para o MpD?

Para qualquer dos dois partidos – MpD ou PAICV – é muito complicado. Para o PAICV, porque perde o poder nacional e não tem o poder autárquico. Fica até às próximas eleições autárquicas num vazio de poder. Para o MpD, isso vai acentuar o seu lado de partido autárquico, o que não é a mesma coisa para um partido que exerce um poder nacional.

Disse, há pouco, que a disputa das legislativas acaba por ser uma disputa entre duas pessoas. Como vê os dois principais concorrentes, Carlos Veiga e José Maria Neves?

Um eu conheço muito bem e o outro não. Qual é a imagem que JMN lhe projecta?

A sensação que eu tenho, em Portugal, é que o governo português gosta muito dele. A embaixadora cá (Graça Guimarães) também gosta muito dele. Temos de ter em conta que a área do PS, que é afim ao PAICV, gosta muito dele. Às vezes, tenho a sensação – mas sou capaz de estar a ser injusto – de que há aspectos da maneira de ser do actual PM português que eu encontro no vosso PM.

Mas, como disse, não o conheço bem e posso estar a ser injusto. De todas as formas, as referências elogiosas que eu oiço dele, em Portugal, é de gente da área política dele, que apoiou muito o governo cabo‑verdiano, em especial este PM. Admito até que essa proximidade possa ter levado a uma convergência de estilos de governação entre os dois.

O JMN também deu‑se muito bem com Durão Barroso e Santana Lopes, quando estes estiveram no governo.

Essa fase foi muito curta e o governo do PSD/CDS não tinha muitos meios como este, de José Sócrates.

Mas do ponto de vista histórico, foram os governos do PSD que conseguiram normalizar as relações com os PALOP.

Sempre, sempre. O PSD, quer com Sá Carneiro, primeiro, em relação a Samora Machel (Moçambique), quer sobretudo com Cavaco Silva, e na sequência dele Durão Barroso, manteve sempre muito boas relações com os governos de estados africanos, independentemente dos partidos políticos no poder. Isto é um facto indiscutível. Só que o tempo de duração do governo Sócrates coincidiu com a parte mais longa dos mandatos do actual PM cabo‑verdiano. Por isso eu admito que haja aí uma confluência maior.

O que espera no nosso dia 6 de Fevereiro? Vai torcer por Carlos Veiga, suponho.

Eu torço pelos amigos, como é natural. Independentemente disso, os resultados vão depender do debate de terça‑feira entre ele e JMN. O debate acontece numa altura decisiva. Hoje eles estão iguais nas sondagens, aproximadamente. Há uma diferença de 1,5 pontos a favor do PAICV.

Isto na sondagem do MpD.

Sim, mas que eu acho fiável, porque feita pela Eurosondagem, a empresa que em Portugal normalmente mais acerta.

O PAICV também diz ter sondagens que lhe dão vitória folgada.

Por isso é que este segundo debate entre os dois líderes vai ser fundamental. Um debate tem efeitos nos dias seguintes – acontece no dia 18, será nos dias 19, 20, que os seus efeitos começarão a ser sentidos. Hoje, nas sociedades maduras (e a cabo‑verdiana é madura), o sentido de voto fica fixado 10 dias antes das eleições. Não há surpresas de última hora. Em Portugal, por exemplo, o sentido de voto já está fixado. Aconteça o que acontecer, Cavaco Silva vai ser reeleito.

No caso de Cabo Verde, este debate acontece no momento em que se fixa o sentido de voto. Portanto, 48, 72 horas depois fica fixado o sentido de voto. Há no entanto, aqui, factores imprevisíveis. O primeiro é a emigração, que jogou sempre a favor do PAICV. Nas últimas eleições foi 5‑1. Basta haver uma ligeira correcção para os dois partidos ficarem próximos um do outro. Segundo factor é o peso do terceiro partido, UCID. Desaparece ou não desaparece. Quarto é o peso do quarto partido em S.Vicente, PTS. Tira votos ao MpD ou não tira. O quinto factor é o peso do voto jovem. Quem vai decidir estas eleições são os jovens. Há muita gente jovem a votar pela primeira vez e essa gente não tem referências históricas. Tanto pode votar numa mudança, como achar que o que está, para já, pode ficar.

Até porque entre Veiga e Neves, Neves é mais jovem.

Sim. No pós‑eleições o desafio maior vai ser para o MpD. Se o MpD não ganhar, tem de se manter coeso, manter‑se nas autarquias, e aproveitar um mandato que vai ser terrível do PAICV e retomar a sua caminhada para o governo. Os terceiros mandatos são sempre terríveis.

Mas também é complicado para o MpD: caso perder será preciso que não se parta, que não se divida. Já o PAICV, se perder, o problema será diferente. O PAICV tem uma estrutura mais rígida e mais resistente, portanto, o risco de divisão, de crise profunda, é algo que não se coloca, ao contrário do MpD. Mesmo assim, se perder, o PAICV terá um problema de sucessão etária, terá que conquistar as autarquias com gente completamente nova.

Ou seja, em qualquer dos cenários, nenhum desses dois partidos continuará na mesma no dia seguinte. Será o fim de um ciclo político.

E Cabo Verde, sobreviverá ou não?

Se há coisa que Cabo Verde tem, é esta virtude: antes de o ser já o era. É algo impressionante porque Cabo Verde é um Estado natural, não é artificial, não depende de vicissitudes eleitorais. Pode tirar melhor ou pior proveito das circunstâncias, mas, enquanto país e nação, está acima dessas contingências. É intemporal e universal. É a sua grande virtude. Não tem os problemas dramáticos de fronteiras que têm os estados continentais, nada disso. Essa capacidade dá uma densidade rara e é um importante trunfo para Cabo Verde.

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