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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Carlos Tavares, emigrante na Guiné-Equatorial: “Este país tem um futuro importante” 01 Janeiro 2013

Em um ano e sete meses de trabalho na Guiné-Equatorial, Carlos Tavares, um dos cerca de 120 cabo-verdianos contratados pela brasileira A.R.G. para modernizar a terra de Teodoro Obiang, já foi cinco vezes infectado pela malária. Ainda assim, este crioulo que deixou esposa e filhos em Cabo Verde, diz que não se arrepende de ter partido em busca de sustento na África profunda. Apesar da pouca liberdade para circular pelo país que ainda vive sob regime ditatorial, das muitas horas de trabalho e das dificuldades para contactar a família que aqui ficou, Carlitos está disposto a fazer da Guiné-Equatorial o seu El Dorado.

Carlos Tavares, emigrante na Guiné-Equatorial: “Este país tem um futuro importante”

Foi a 8 de Março de 2010 que Carlos Tavares deixou a sua querida Achadinha, um dos muitos bairros da capital, Praia, rumo à Guiné-Equatorial. Esperava-o uma longa viagem. Primeiro as mais de sete horas de avião, com escalas em São Tomé e Gabão, até Malabo, capital da Guiné-Equatorial, depois nova viagem aérea até à cidade portuária de Bata, a mais populosa do país.

De lá, seguindo numa estrada asfaltada ainda inacabada, Carlitos, como é conhecido na Praia, e demais conterrâneos, entre eles alguns guineenses naturalizados cabo-verdianos, encetaram uma outra viagem. Quatro horas de carro até o “Pátio”, onde fica o estaleiro de obras e as casas dos operários.

Além da luxuriante vegetação e do calor abrasador, “impressionou-me o número de barreiras policiais por que passámos, quatro ou cinco até o nosso destino”, conta o carpinteiro-marceneiro, cuja primeira missão foi construir estacas que seriam depois usadas para sinalizar os locais por onde passaria a estrada em construção.

Os postos de controlo policial são apenas uma das muitas medidas de segurança que todos, principalmente os estrangeiros, têm de respeitar escrupulosamente, afirma Carlitos. “Não temos total liberdade para circular pelo país, tão pouco podemos sair sozinhos e os documentos têm de estar sempre connosco. E quando saímos tem que ser no carro da empresa para que trabalhamos, a multinacional brasileira ARG”.

Diante de tantas restrições, só ao fim de cinco meses Carlitos decidiu ir à vila mais próxima fazer compras. E descobriu “um povo humilde e reservado, talvez porque não falam outras línguas a não ser o espanhol e a língua nativa, e que leva uma vida simples. Muitos vivem em pequenas casas de madeira, material que abunda na Guiné-Equatorial”, relata o cabo-verdiano.

As portas e janelas de algumas dessas casas construiu-as Carlitos. “É uma das contrapartidas que o governo da Guiné-Equatorial exigiu à ARG: a construção de casas para os mais pobres”. O mesmo tipo de habitação em que moram alguns dos operários. Outros, como Carlitos, vivem em contentores que, garante o cabo-verdiano, nada ficam a dever às casas ditas normais. Até têm ar condicionado. “Num primeiro momento, vivíamos seis num só contentor, um pouquinho apertados, mas desenrascávamo-nos bem”, diz Carlitos.

Mas “aí outros”, declara Carlitos, “que não gostaram da experiência regressaram a Cabo Verde após o fim do contrato”. É que, além de uma longa jornada de trabalho – são 10 horas de trabalho por dia e apenas dois domingos de folga por mês –, há que suportar a distância e as saudades da família e “alguma” discriminação dos locais. “Dizem-nos que estamos lá para roubar o que é seu, nomeadamente postos de trabalho e riquezas”, confessa o emigrante cabo-verdiano.

Contudo, Carlitos acredita que a opinião dos equato-guineenses sobre os imigrantes que agora “invadem” o seu país já começou a mudar, tal como aconteceu com outros povos. “Antes não eram confrontados com a presença de estrangeiros, nem mesmo turistas, daí ficarem admirados com a chegada de tantos estranhos”, diz complacente o carpinteiro-marceneiro.

Do contingente estrangeiro contratado pela ARG para trabalhar na Guiné-Equatorial fazem parte, bolivianos, paraguaios, colombianos, brasileiros, cabo-verdianos, bissau-guineenses, entre outras nacionalidades. Mas há também ganenses, malianos e camaroneses que, mesmo sem contrato, deixaram o seu país para tentar fazer o seu pé-de-meia no novo El Dorado africano do petróleo.

“Dou-me bem com todos. No que depender de mim, tudo farei para ficar mais tempo. A não ser para férias, não penso por ora regressar a Cabo Verde”, afirma Carlitos convicto. Nem mesmo a malária, que, ao que parece é a principal inimiga dos cabo-verdianos pouco imunes à doença, faz Carlitos arrepiar caminho. “Já fui infectado cinco vezes. Fui medicado e recebi três dias de folga para repouso”, conta este emigrante com espantosa naturalidade.

O sacrifício vale bem a pena, declara Carlitos. Porque “o salário é bom, por cada seis meses de trabalho gozamos 21 dias de férias. Ademais, temos disponíveis todos os cuidados de saúde, inclusive estomatologistas, além de um ginásio, onde podemos manter a forma física”. Mas além dos benefícios pessoais, outro motivo mantém Carlitos na Guiné-Equatorial: “Este é um país rico, que tem um futuro importante. Quero participar neste processo de transformação, rumo ao desenvolvimento”.

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