OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Cabo Verde: A Metanoia da Política 16 Abril 2013

A política em Cabo Verde precisa de ser estudada, num incontornável contributo para que o país e a sociedade se agarrem a um processo de mudança de rumo na transformação orientada da psique colectiva. O cabo-verdiano precisa de ser percebido, com funda categoria científica, à luz das mais diversas áreas das Ciências Sociais. Sobretudo da Psico-história para, daí, haver um clareado caminho de reconstrução psicológica positiva, ou de “cura” face aos distúrbios provocados logo no acto procriador do cabo-verdiano entre o ´homem branco e a negra/preta africana`.

Cabo Verde: A Metanoia da Política

Entretanto, pode-se indicar, embora escassas, já algumas riquíssimas buscas nos caminhos de se ter um pensamento explicativo holístico sobre a natureza do cabo-verdiano, dos mais diversos pontos de vistas e nas suas mais diversas dimensões – científica humana e social.

Relembre-se, de passagem, importantes pensadores e obras que pendem sobre o assunto como: Almerindo Lessa e Jacques Ruffié, ´Seroantropologia das ilhas de Cabo Verde`, para os quais o mestiço terá acabado “por dominar o espaço físico e intelectual do Arquipélago”; tornando-o “um dos mais extraordinários fenómenos humanos de que reza a história nacional”. Cabo Verde visto por Gilberto Freyre. Gabriel Mariano, ´Cultura Cabo-verdiana. Manuel Ferreira, ´A aventura crioula`. António Carreira e o estudo, em que dá lugar a novas categorias de análise (classes sociais). Pois, no referido estudo sobre aspectos sociais, secas e fomes no século XX, ao analisar a organização da sociedade cabo-verdiana, afirma que, já a partir dos anos trinta do século XIX, teria emergido uma nova burguesia, proveniente da emigração, que viria substituir os “brancos da terra”. Leila Hernandez, ´Os filhos da terra do sol: a formação do estado-nação em Cabo Verde. António Correia e Silva com´Histórias de um sahel insular`. Manuel Brito-Semedo e ´A construção da identidade nacional: análise da imprensa entre 1877 e 1975`. Maria Manuela Afonso, sobre ´Educação e classes sociais em Cabo Verde`. Elias Alfama V. Moniz com ´Africanidades versus Europeísmos`.

Merecem igual realce trabalhos teórico-analíticos de cientistas como Gabriel Fernandes, Cláudio Furtado, José Carlos dos Anjos, entre outros não aqui referenciados, com sólidos contributos para a luminária da dimensão de subjectividade humana que esquadrinha a autonomização identitária do cabo-verdiano. Mostrando, com coerente positivismo, o ambiente proporcionador e a natureza das cruzadas sínteses do mestiço - este, ainda sem uma acabada identidade étnica definida, pelo complexo confronto entre as diferenças culturais dos fundantes progenitores: a europeia do pai, e a africana da mãe.

Se quisermos inflectir esta análise um pouco para a atitude científica do etólogo e sociólogo francês Georges Balandier (1920); é possível deparar-se com a potencial emergência duma antropologia crítica sobre a formação sopro-seff do cabo-verdiano, em que se tornará possível - dentro do estrito espírito especulativo desta nossa análise - isolar a pura ´tripla complexidade`, que insiste em ser compreendida: a complexidade europeia + a complexidade africana é = à tripla complexidade crioula.

Apesar de, ao pé da técnica histórica, não haver colonização em Cabo Verde, a linha interpretativa da tripla complexidade potencia considerações autênticas e coerentes no campo de certo tipo de antropologia fundamental. Por exemplo, retomando a atitude de Georges Balandier, de revisão e intersecção entre antropologia e outras ciências e saberes, a fundamentação aponta para a clara apetência duma sugestiva antropologia cabo-verdiana que decorre com o traumatizante encontro, no despovoado chão do arquipélago, no século xv (1460), entre criaturas humanas duma sociedade histórica-moderna europeia e duma outra sociedade arcaica-tradicional africana.

Porém, esse emergente conceito reformulado da antropologia, contém, desde logo, a ideia de que as sociedades tradicionais e aquelas chamadas de históricas, não são como até então haviam sido interpretadas, contrárias, sendo uma o negativo da outra. Aliás, neste ponto de vista, Balandier preocupa-se com a questão da colonização, na qual se efectivam os contactos entre as sociedades tradicionais e as modernas, pois por eles se consolidaram os dinamismos e os movimentos históricos que transformaram os sistemas de instituições das sociedades, dos quais a Antropologia Política deve, em si, encarregar-se de interpretar. Aos olhos do antropólogo, é pelo contacto entre as sociedades tradicionais e modernas, que ambas se transformarão, sem necessariamente se esfacelar, mas criando algo novo, sendo dessas transformações que o antropólogo deve, como é óbvio, se responsabilizar.

Cabo-verdiano. Crioulo, cria de criada, procriado no quintal / pátio / vestíbulo do senhor feudal, deste modo a complexidão, de si só, em ser mulato, filho de uma mulher tida como asna / mula - dito de modo mais erudito: cumeeira. Eis, pois, a raiz da construída dependência cultural do cabo-verdiano do seu pai fundador europeu. Assim o sopro-self (de si-mesmo) do ego e da mente insulares.

Percorrendo uma simbólica parte do epistemológico pensamento explicativo do notável Georges Balandier, no tocante ao profundo estudo feito sobre fenómenos do processo da antropologia política na África negra; somos concitados a observar, de superficial modo empírico-experimental, o resultado da osmose de egos e mentes europeia e africana fundantes daquilo que é a política e seus agentes, hoje, em Cabo Verde. Vejamos então, e em rápida síntese, entre outras tantas, algumas alíneas apetecíveis de trabalho científico, conforme o interesse do observador:

a) A desnaturação das unidades políticas tradicionais que vieram da África, no encontro incubador, em 1460.

b) As degradações pelo esvaziamento político completo (perspectiva aristotélica de que ´todo o homem é um animal político`) da criatura africana subjugada em condição de escravo. Desde logo, o homem europeu impõe forçosamente a existência de seus tipos de relação de poder e subordinação, o que compulsa à racionalização, entendida na perspectiva de Max Weber, como ´o modo de governar em regime colonial-tradicional`, mesmo não havendo colonização. c) A dominação europeia conduz os decorrentes problemas políticos em problemas técnicos, dependente da força/competência administrativa; estando aqui, a presença dominante do Estado feudal português.

d) A cria (o crioulo/o mulato resultado do chocante encontro multiracial/multicultural), no quintal do senhor, facilmente terá dado conta de não ter emergido do ´sonho amoroso` do género humano. Mas terá levado tempo à consciencialização do seu papel na fundação do genuíno espírito insular face à defesa da ´alma-e-coisa terratenentes`. Das tensões raciais na fecundação fica, no registo do ADN da tripla complexidade, a propensão para imitar e reproduzir (por excesso) o pai-fundador. Sendo, desde logo, um agente social-político com agressividade activo-discursiva, com instinto de conjuração e estocada, de suspeição e raiva para com os seus próprios congéneres crioulos/ de cobiça para todo aquele com possível sucesso na vida. Nisso, por exemplo, o poder português sempre explorou essa intrigante propensão, dividindo os cabo-verdianos para melhor poder reinar, com o seu instinto supremo.

Com bastante força, a cabo-verdianidade é repositária da europeidade, aparente, hoje, por exemplo, na intensidade e potência do discurso de defesa do poder e, por outro lado, da impiedosa busca de domínio e sobreposição. Disso não se pode desligar duma derivante leitura de António Carreira, ao analisar a formação da sociedade cabo-verdiana, tentando determinar os aportes psicossociais e culturais dos povos que concorreram para o seu povoamento. Definidor, daí, o psico-histórico do mulato insular.

d) No fervilhante caldeirão do encontro, a ruptura dos sistemas europeu e africano fabrica e projecta, no oculto dos processos sociais, o primitivo etos do instinto político e do poder em cena do cabo-verdiano. E daí decorre, em transformação contínua-descontínua, pelos séculos de desenvolvimento psico-histórico do cabo-verdiano (essa tripla complexidade), até os nossos dias.

No espaço constituído e ordenado pelo homem insular segundo a sua razão de vida com as mais diversas desgraças e formas possíveis de combatividade, se formou o intrínseco do político cabo-verdiano. Criatura acolhedora natural do especulado sentido do jogo oculto e declarado da/na política, do processo sacralizador - dessacralizador do poder, das relações de subjugação na cadeia social e ante o papel mobilizador-desmobilizador da religião, da construção do espaço público e de suas redes de interesse e dependência, da consciência de manifestação libertária da opinião pública, entre outros. Sendo, sumativamente, perturbante a origem da actividade política em Cabo Verde. Neste processo se pode integrar, como factor preponderante, a lenta modificação no tempo as estratificações sociais aberto no momento da implantação da lógica do poder pelo intrínseco sentido de gerar dependência e não da lógica de servir, com autenticidade, as massas/o povo das ilhas. Pois, essa intrusão de hostil instinto colonial, influi indirectamente na acção como se desenrola a política e como ideologicamente estão formatadas as organizações para funcionarem, de que o herdeiro Estado é corpo-mater. Sempre na ideia implícita de funcionar os geradores de caciques sociais/régulos/tutus/manda-chuvas constituídos fora do quadro estreito da relação de interdependência e valores de condução sem força alienadora de consciências.

Neste sítio da análise política, de se reconhecer que o homem não é apenas a soma dos rácios com a vontade. É também imaginação, simbólico, poesia mais verdadeira do que a história. História que se vai escrevendo sem saber que história vai sendo efectivamente escrito, onde, de modo consciente, em cada momento e época, as acções devem superar sempre as intenções.

Veja-se que Cabo Verde deu um extraordinário pulo nas infraestruturas educacionais se se quiser, nessas décadas do pós-independência. Infelizmente, a criatura cabo-verdiana não tem sido suficientemente iluminada de forças para quebrar a subordinação cultural de Portugal. Há quem considere, com autoridade científica, que, pelo contrário, a educação pós-independência aprofundou de uma maneira sofisticada a dependência do exterior, com realce de Portugal. E as elites políticas que decorrem da independência em 1975 a esta parte, sobretudo a partir de 1990, não têm sabido gerar um verdadeiro novo tempo para modificar a essência psico-social da política em Cabo Verde. Quando a metanóia poderia ser um processo potencialmente produtivo da autêntica lógica de serviço, na sobreposição à lógica de poder, pelo poder.

Assim, aceita-se a disponibilidade natural do cabo-verdiano em estar na política/em fazer política, sempre com a alma vertida de desejo de desferir pancadas e deslealdades, porque a intriga/o trama/a maquinação/a conspiração/o desprezo para os outros supostamente mais fracos estão sempre plasmados no surto psicótico. Nesta linha, cada vez que se se avança para o futuro, maior se torna a notoriedade de Amílcar Cabral, pelo alto engenho estratégico em juntar os cabo-verdianos para a maior causa insular que foi a luta para a independência. Ainda mais, na complicada unidade estratégica com os guineenses. Que visão, que coragem, que construção! Pois, a reafricanização dos espíritos era para fazer convergir tudo isto.

Deste modo tem decorrido a progressiva complexidade da sociedade cabo-verdiana. O que impõe hoje, com urgência, e antes de se ultrapassar o transitado presente ciclo de transição sociológica, um repensar das actividades políticas e, concomitantemente, estabelecer uma nova visão, um novo compromisso no reposicionamento dos actores políticos e dos partidos ao serviço da vida pública nacional.

Tudo aponta para a necessidade de libertação duma nova política, capaz de mobilizar os cidadãos para a diferença republicana, e repousada numa outra estruturação dos comportamentos sociais e políticos, isto numa depuradora relação “Política - Sociedade” e “Participação - Desenvolvimento”.

Ter-se, pois, em conveniente consideração, a tendência à definitiva instalação da tipologia de sociedade do “homem-light” / da anomia social marcada pelo homem ocioso, indigente de valores positivos, apático, sem projecto e iniciativa de vida, dependente de terceiros, de baixa auto-estima, desobrigado dos direitos e deveres, etc. Esta é já uma parte localizada na sociedade cabo-verdiana, e sendo um pouco por todo o canto do país notório o tipo de indivíduos - cidadãos - uns entregues a práticas de comportamentos desviantes, outros em autêntico estado de amnésia ante questões de participação - produção - desenvolvimento - que se agrupam numa crescente camada de pessoas desapaixonadas pela política/ou então entregues a crescentes dinâmicas de desintegração da cultura do voto.

Olhe, caro leitor, para o título lançado acima e pergunte-se, sobre si: Não estará a faltar arte de fazer sonhar colectivamente, em redor dum verdadeiro projecto comum para o longo prazo?

E o desenvolvimento moral e humano dos cabo-verdianos da actual geração, face à degradante crise de riqueza material e de filosofia actual? Bom, é preciso, como pão para a boca, um Novo Paradigma Social, para uma estratégica orientação dos estilos de vida das pessoas nas suas diversas instituições. Nesse capítulo, torna-se premente conduzir Cabo Verde para uma reforma da sociedade, dos valores e das instituições responsáveis pela formação e controlo sociais, sobre os quais assenta a verdadeira dimensão do desenvolvimento, enquanto mecanismo propulsor da felicidade e do bem-estar.

Tudo isto ganha uma dimensão distinta quando se chama para a idiossincrasia do cabo-verdiano a ideia de eterna esperança duma emergência que revolva convergências e divergências, para que nova ordem espontânea o faça crescer para cima e crescer para dentro. Para que tudo possa continuar com a liberdade de outras convergências e outras divergências. Assim, a postura vaga-mundo e emigrante para andar sempre a partir, da encruzilhada de Cabo Verde a outros sítios sem lugar certo. É deste modo que a matéria encerra a abertura do cabo-verdiano à liberdade do espírito.

Ei-lo, o cabo-verdiano, vivamente político, republicano e democrático, sem abandonar as essenciais do maquiavelismo na sua orientação.

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