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O “Fundamentalismo Islâmico” e o “choque das civilizações” 20 Janeiro 2014

No contexto pós-Guerra-Fria, tem sido notável e de forma sistemático o aparecimento de uma nova ordem mundial caracterizadas como multipolar e multi-civilizacional, fazendo com que muitos pensadores tenham teorizados sobre uma provável “Guerra de Civilizações” que tornaria mais complexa os fenómenos de segurança e da ordem internacional e ao mesmo tempo a necessidade de se despender esforços adicionais para o controlo destes fenómenos, nomeadamente na área de “intelligence”, de modo a responder o desequilíbrio do sistema internacional, aliás, expresso nas pulverizações de novos atores (sustentadas por matrizes ideológicas e religiosas) nesta arena que é o «mundialismo».

Por: Giliardo Nascimento

O “Fundamentalismo Islâmico” e o “choque das civilizações”

Cumpre observar, ainda que teóricos como Samuel Huntington na sua obra "O Choque das Civilizações" tenha decretado o fim ou o esbatimento das ideologias, elegendo para este efeito o "choque das civilizações" como a grande batalha (ideológica) deste milénio, a verdade é que, ainda faz sentido a distinção entre as matrizes ideológicas que conquistam os seus espaços, criam conceitos, produzem estilos e formas diversificadas de pensamento, estabelecem novos paradigmas e valores, criando assim mecanismos que alteram a realidade e torna ainda mais complexo a “Guerra entre as Civilizações”. Mas, para além disso, e de forma assertiva, Samuel Huntington prevê um cenário que vem atribuindo uma maior complexidade à teia de análise dos fenómenos de matriz islâmica, dizendo que a luta passará a ser, não entre o capitalismo e o comunismo (as velhas batalhas ideológicas no mundo ocidental), mas sim entre o Ocidente (cristão e democrata) e o Oriente (islâmico e antidemocrata), num cenário de incertezas e de ameaças constantes.

Com a conferência Bíblica de Niagara Falls, e a partir de um número considerável de textos tornados públicos entre 1910 e 1915 nos Estados Unidos da América, com títulos tendenciosos a partida, como "Os fundamentos; Um testemunho da verdade", que surgem como uma ação reativa à um notável declínio sustentável na vivencia moral e espiritual no ceio do protestantismo, surge o termo "fundamentalismo". Defendendo assim uma necessidade lógica e urgente de uma releitura, desta feita literal, das escrituras sagradas, com a clara intenção de instaurar de novo a fé histórica, fundamentada em cinco premissas fundamentais para uma digna vivência religiosa que se pretendia, nomeadamente adotando um discurso que atribui às escrituras sagradas um caracter infalível; reavivar a natureza divina de Cristo; a obrigatoriedade da reparação dos pecados; a ressurreição como fundamento da fé; e a segunda vinda de Cristo como base sustentável desta mesma fé. Assim, o termo "fundamentalismo" surge numa logica que deve ser capaz de classificar certos movimentos, cuja identidade é amplamente usada e definida por comportamentos que demonstra uma adesão vincada a uma determinada crença religiosa, baseada numa leitura literal das escrituras sagradas. Dito isto, o "Fundamentalismo Islâmico" é um "termo utilizado pelo Ocidente para descrever grupos islâmicos, bem como os regimes de alguns países muçulmanos que fundam as suas atividades na prática islâmica e nas escrituras. Este, visa recriar uma sociedade islâmica pura, não impondo simplesmente o Sharia (lei canónica representando a vontade de Alá e a que todos os seus fiéis se submetem), mas estabelecendo um Estado islâmico através da ação politica".

Encara-se desta forma, o Fundamentalismo Islâmico não só como uma forma radicalista de interpretar os textos sagrados e de viver uma crença religiosa, mas também como um protótipo de um regime político que pretende "transformar a lei islâmica num programa sistemático de ideais políticos e convertê-los numa verdadeira Constituição ideológica do século XX" e posteriormente do seculo XXI (Silva, 2011, 63).

Para uma melhor compreensão do caso do "Fundamentalismo Islâmico" é imprescindível enumerar determinadas características inerentes, que nos possibilitarão um vasto conhecimento relativamente ao fenómeno em epígrafe como também uma vertente analítica mais aprofundada desse mesmo fenómeno (Lara 2011: 570): 1) Um caracter Totalitário no seio do fundamentalismo islâmico, visto que pretende uma regulação ativa e permanente de todos os aspetos que dizem respeito tanto a vida social publica, como também da privada; 2) Existência de um claro literalismo na interpretação e na aplicação do Sharia, pois existe uma certa rigorosidade no que toca à aplicação das lei alcorânicas (principalmente no que toca à proibição do uso de álcool, de determinadas comidas como a carne de porco, os jogos e criminalização de orientações sexuais que não sejam heterossexuais). Estes literalismos, pelos seus aspetos intrínsecos constituem uma vulgata; 3) E por fim, um carater sistemático de coerção e repressão, enquadrado numa lógica de imposição mediante meios repressivos (medos e castigos físicos, onde as mulheres são as principais vítimas) ou seja, não constitui uma alternativa mas sim uma obrigatoriedade, sob pena da coerção.

Neste contexto, parece oportuno salientar que, por um lado o fracasso da tentativa de "ocidentalização" do mundo muçulmano através da “imposição” de sistemas políticos deste constitui uma das principais causas que motivou o surgimento do fundamentalismo islâmico. Por outro lado, também, o fracasso da busca desenfreada dos Estados muçulmanos por modelos que representassem uma alternativa ao modelo Ocidental, tem revelado grande importância quando se trata das causas do fundamentalismo islâmico. O que sem dúvida nos leva a concluir que "a nova ideologia fundamentalista islâmica representa sobretudo uma reação novíssima contra o laicismo, contra a ocidentalização e as oligarquias delas decorrentes, contra o reformismo e o compromisso entre o Alcorão e os progressos do Ocidente".

Aliadas as causas do surgimento do fundamentalismo islâmico, podemos ainda identificar outras que, segundo teóricos de ciência politica, se revelam significativas e nos permitirão entender os atuais trâmites do fundamentalismo islâmico: explica-se também pela existência de uma crise identitária do próprio mundo árabe; Uma clara recusa sistemática do colonialismo, do neocolonialismo e recusa também dos ideais do socialismo marxista; Uma atração pelo pan-arabismo; Uma reação ao laicismo, ao reformismo e à secularização (como são os casos do Irão, da Turquia e da Argélia); Uma reação etnocêntrica e xenófoba contra tudo o que é estrangeiro; Um sentimento de humilhação pela subordinação militar, económica e social do mundo árabe relativamente às grandes potências, que desencadeou um processo de vitimização; E por último, uma crise económica e social provocada pelo êxodo rural e pela urbanização explosiva (Lara 2011; 570).

Conclui-se desta forma, que o fundamentalismo islâmico é um fenómeno impulsionado por movimentos muçulmanos radicais e conservadores no mundo árabe, que direcionam as suas atividades em prol de um assumido endurecimento de posições relativamente ao Ocidente, como comportamentos que visam sobrevalorizar o Corão (Sharia) e a tradição (Hadite), com a finalidade de os transformar em modelos de organização, modulando assim para este efeito, as sociedade e os Estados.

Neste contexto, o fundamentalismo islâmico transforma-se num elo que une posições antiocidentais, numa logica xenófoba, rejeitando tudo o que é Ocidental. Adotando posturas radicais de rotura que traduzem em comportamentos extremistas e violentas por parte de facões radicais como por exemplo a Al-Qaeda. Com manobras que representam novas formas de terrorismo internacional, na medida em que promovem a transferência das problemáticas domésticas para o plano internacional, o que faz com que estes grupos surgem no sistema internacional como Atores das Relações Internacionais, embora definidos como Atores erráticos, que influenciam os cenários internacionais, condicionando ações dos Estados e ameaçando suas soberanias, a estabilidade e a paz mundial através de práticas extremistas e violentas.

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