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220 juízes afegãs que criminosos condenados perseguem 29 Setembro 2021

O que se passa no Afeganistão, reportado pelos mass-media ocidentais, espanta-nos e faz-nos duvidar. Mas observadas a deontologia e ética de quem produz informação, o recetor interessado constata mais um insólito neste mundo-aldeia global: duzentas e vinte juízes, dum grupo de 270 formado nos últimos vinte anos, que são reconhecidas figuras públicas e alvo fácil.

220 juízes afegãs que criminosos condenados  perseguem

O noticiário da BBC radio relata hoje (terça-feira, 28) que "mais de duzentas juízes do Afeganistão estão escondidas", porque estão ameaçadas pela nova "justiça", a dos talibãs desde 15 de agosto no poder, que as destituiu dos cargos e lhes congelou as contas bancárias.

De entre mais de duas centenas de magistradas destituídas, a BBC na sua investigação falou com seis. Todas referiram que estão em movimento, obrigadas a mudar constantemente de casa. Em fuga e em risco de vida por cumprirem o seu dever em prol da justiça.

Todos esses testemunhos das últimas cinco semanas coincidem, depreende-se da reportagem da BBC. As seis magistradas entrevistadas, que representam diferentes províncias/Estados, receberam ameaças de morte vindas de "membros dos talibãs que elas condenaram à prisão". Quatro das juízes, do grupo das seis, deram à BBC os nomes de criminosos por elas sentenciados após assassinarem a esposa.

A sua fala é pessoal mas também em nome da classe das magistradas que estão a esconder-se em "diversos lugares no Afeganistão", que por motivos de segurança "não podem revelar".

A situação é ainda mais aflitiva por se tratar de pessoas que perderam os seus meios de subsistência. Como figuras públicas de topo, as juízes nos últimos vinte anos gozaram de um estatuto social e remuneratório que fez delas o principal provedor da sua família, segundo apurou a BBC.

Condenou centenas por feminicídio e outros crimes VBG

"À meia-noite disseram-nos que os talibãs tinham libertado todos os prisioneiros", narra "Masooma", uma dessas juízes em fuga. "Não perdemos nem um minuto, fugimos. Para trás deixámos a nossa casa e tudo o que tínhamos".

Milhares de criminosos a serem libertados das cadeias. Entre eles, centenas dos que Masooma em sede de justiça condenou por crimes contra mulheres: agressão, violação sexual, tortura, homicídio.

Só lhe restou pois fugir da sua cidade, relata a juiz, que começara a receber ameaças de morte por SMS, gráficos e de voz, poucos dias após a entrada dos talibãs no palácio que o presidente desertou.

Em fuga, recebeu mensagens de vizinhos a avisá-la de que a casa foi cercada. Reconheceu na descrição dos homens que lhe invadiram a (já ex-)casa, que um deles era o homem que matou a jovem esposa: um "brutal assassinato" pelo qual a juiz o sentenciou a vinte anos de prisão. Ao ouvir a sua condenação, o acusado aproximou-se-lhe para a ameaçar: "Quando eu sair da cadeia, faço-lhe o mesmo que fiz com a minha mulher".

Masooma assume que só levou a ameaça a sério quando em agosto começou a receber chamadas dele a dizer que já tinha todas as informações sobre ela, e que as recebera dos serviços do tribunal.

Burqa que talibãs impõem à mulher... protegeu-a. Contradição? "A burka que eu agora trazia tornou-me irreconhecível. Pudemos passar todas as barreiras dos talibãs sem problemas", rematou Masooma na entrevista à BBC.

270 mulheres juízes em 20 anos, reconhecidas figuras públicas

Sanaa, a magistrada que está em fuga com doze membros da família. "Quando o meu irmão voltou lá à casa, entraram os talibãs. Perguntaram-lhe por mim. Ele disse que não sabia e bateram-lhe, deram-lhe coronhadas, deixaram-no como morto. Felizmente conseguiu chegar ao hospital".

Asma, a juiz do tribunal de família que teve um míssil talibã a acertar no seu espaço institucional, porque aceitou julgar pedidos de divórcio de mulheres contra os maridos talibãs. Evoca a colega juiz que "desapareceu no percurso tribunal-casa. O seu cadáver foi encontrado semanas depois", mas "o inquérito manipulado pelo poder talibã regional nunca chegou ao culpado".

Fugitivas, com filhos pequenos. "O meu filho está traumatizado, não consigo explicar-lhe por que razão não pode sair para ir brincar no pátio onde estão outras crianças a brincar".

Sair do país não é possível sem dinheiro, com as contas bancárias congeladas. Elas e a família vivem o dia a dia com o que outros familiares lhes conseguem dar.

Marketing dos talibãs junto do Ocidente

A manifesta tentativa de mitigação do que "o Ocidente" tem dito sobre a perseguição à mulher no atual Afeganistão (talibã) pode ser depreendida desta frase "Todo o homem que cometa adultério será morto". É a fala do porta-voz ministerial, citação que acompanha o título neste online ontem (Afeganistão: Talibãs reinstituem ’Ministério do Vício e da Virtude’ —). O ministério desta designação foi criado em 1996 para enquadrar a mulher no âmbito da sharia. Nesses seis anos, a sua atuação foi objeto de relatórios sobre a perseguição às afegãs — sem direitos no seu país.

Outra vem através do porta-voz da presidência talibã, Bilal Karimi: "As mulheres juízes devem viver em paz, como qualquer outra família, sem medo. Ninguém deve pensar que as pode ameaçar. E os nossos militares têm a obrigação de investigar as queixas e atuar sempre que houver infração".

Mas na comunicação, em resposta à interpelação sobre a proteção às mulheres juízes, porta-voz talibã apenas refere que "no caso de narcotraficantes, membros da máfia, a nossa missão é destruí-los. A nossa atuação para com eles será levada muito a sério".

Nem uma palavra, pois, do porta-voz da presidência e governo sobre as duzentas e vinte juízes, acima de 80% do total nacional, que atuaram em outras matérias da justiça, como os direitos humanos, a criminalidade comum, o direito de família.

A presidência e governo também nada diz sobre o facto de que só homens estão no poder e as pastas sobre a família e direitos das mulheres e crianças desapareceram, que o ministro da Educação abriu as escolas apenas para a população masculina, sem uma palavra sobre as professoras e alunas.

As campanhas de marketing — que incluem uma de certo modo ambígua "amnistia geral, que é sincera, a todos os funcionários e dirigentes do anterior governo" — estão a surgir mais ou menos explicitadas em contraponto aos relatos pelos mass-media ocidentais sobre as perseguições às mulheres, obrigadas a deixar o mundo laboral, a desertar o espaço público. A justificação é: "porque os nossos soldados ainda não aprenderam a respeitar-vos", dizem as chefias militares.

Fontes: BBC/... Fotos (AFP): Manifestação de mulheres em 21 de setembro contra a perda de direitos. A burqa/burka torna-se obrigatória no espaço público.

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