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25 anos depois de Srebrenica, as tensões persistem na Bósnia 11 Julho 2020

Os restos mortais de nove vítimas do massacre de Srebrenica(ver foto de valas comuns), identificadas ao longo do último ano, vão ser enterrados neste sábado, dia que marca 25 anos do início de uma das páginas mais horríveis da segunda metade do século XX.

25 anos depois de Srebrenica, as tensões persistem na Bósnia

Fazila Efendic vai estar no funeral coletivo no cemitério de Potocari, aldeia junto a Srebrenica, a testemunhar familiares em luto a enterrar um punhado de ossos, como ela fez em tempos. O seu marido, Hamed, e o seu único filho, Fejzo, foram mortos no massacre.

Durante anos, sempre que uma nova vala comum era encontrada, Fazila corria para o local na esperança de ver algo que reconheceria como tendo pertencido aos seus familiares. "Não há palavras para descrever a tristeza que se sente quando se procura (os seus entes queridos) osso a osso", disse à AP. "Visitei cada nova vala comum; vi o interior de cada uma delas".

A partir de 11 de julho de 1995 e em poucos dias as forças sérvias bósnias mataram entre 7 mil e 8 mil homens e rapazes muçulmanos após a captura da cidade, a qual estava sob proteção de militares holandeses ao serviço das Nações Unidas.

Denominado genocídio por dois tribunais internacionais, a matança ocorreu no final de uma guerra fratricida de três anos entre croatas, muçulmanos e sérvios da Bósnia que ceifou cerca de 100 mil vidas, das quais pelo menos um quarto civis.

Os carrascos do massacre tentaram garantir que as vítimas nunca receberiam o tipo de homenagem que Srebrenica realiza todos os anos. Os corpos foram amontoados em valas comuns e mais tarde escavados com bulldozers e espalhados entre outros locais de enterro para esconder as provas do crime.

Desde 1996, cientistas bósnios e da comunidade internacional têm trabalhado a desvendar o que foi descrito como o "maior puzzle forense em qualquer parte do mundo". Até agora, foram encontrados e identificados os restos mortais de cerca de 6.900 vítimas em mais de 80 valas comuns.

Os restos do marido de Fazila, Hamed, foram encontrados em dois sítios diferentes, em 1998 e 2000, enquanto os do filho Fejzo, dois ossos, foram encontrados noutra vala, anos mais tarde.

Cultura da negação do genocídio

Este ano, devido à pandemia, alguns dos oradores da cerimónia irão participar à distância, informou o diretor do centro memorial de Srebrenica, Emir Suljagic. O antigo jornalista, ministro e professor universitário trocou Sarajevo pela localidade com um projeto muito claro: combater "a cultura da negação do genocídio.

Para os muçulmanos bósnios o reconhecimento da atrocidade é condição essencial para a reconciliação e uma paz duradoura. Mas para a maioria dos sérvios, tanto na Bósnia como na Sérvia, a palavra genocídio continua a ser inaceitável.

"Algo de que não nos devemos nem podemos orgulhar", foi como o presidente da Sérvia Aleksandar Vucic descreveu Srebrenica, mas nunca pronunciou publicamente a palavra "genocídio". O mais longe foi quando, em julho de 2017, reconheceu ter sido um "crime horrível", para de seguida esclarecer que o seu comentário era minoritário: "Entre 80 e 90% dos sérvios não pensam que tenha sido cometido um crime grave."

"Apesar das provas forenses e das sentenças dos tribunais internacionais, a negação do genocídio de Srebrenica intensificou-se", diz Emir Suljacic à AFP, o que pode ter como consequência a falta de responsabilização entre as mais altas esferas, o que levar a futuras atrocidades.

"Como podemos combater isso? A minha posição é que não podemos concentrar-nos em indivíduos ou grupos que negam o genocídio, mas temos de trabalhar na construção de uma contracultura que seja inclusiva e envolva todos e se baseie nos factos sobre o que aconteceu aqui entre maio de 1992 e junho de 1995", disse o diretor do memorial ao Balkan Insight.

"Não é fácil viver aqui ao lado daqueles que 25 anos depois negam que foi cometido um genocídio", desabafa Hamdija Fejzic, vice-presidente da câmara municipal de Srebrenica. Fejzic diz que a negação do genocídio foi como a "última fase" da atrocidade em si, dizendo à AFP: " Encaramos isso todos os dias." E nos lugares de topo da autarquia. O presidente da câmara é o sérvio Mladen Grujicic, e foi eleito em 2016 após uma campanha baseada na negação do genocídio. Chegou a afirmar que o número de vítimas não era "válido".

"Mito fabricado"

Não é só o autarca quem desrespeita a memória dos mortos. O atual presidente do triunvirato que dirige a federação bósnia (em conjunto com um muçulmano e um croata), o nacionalista sérvio Milorad Dodik, afirmou num comício de apoio a Grujicic que não houve genocídio.

No ano passado, este homem pró-Moscovo declarou numa conferência que visava "estabelecer a verdade" sobre Srebrenica, que o sucedido em 1995 foi um "mito fabricado". "Todo o povo precisa de um mito. Os muçulmanos não o tinham e tentam construir um mito em torno de Srebrenica", acusou Dodik.

Em 2018 as autoridades sérvias da Bósnia retiraram um relatório de 2004 dos antecessores, que reconhecia o genocídio, e criaram um painel para rever o número de vítimas. O primeiro-ministro sérvio bósnio Radovan Viskovic anunciou que um novo relatório deverá ser concluído dentro de um ou dois meses.

"Desta forma, o governo da República Sérvia quer aproximar a verdade sobre o sofrimento dos sérvios da comunidade internacional e dos historiadores, que quando um dia escreverem sobre estes acontecimentos, terão provas claras de que a verdade não é apenas o que um dos lados afirma", disse Viskovic.

Também os deputados sérvios no parlamento bósnio têm rejeitado projetos de lei que proibiriam a negação do genocídio. C/DN PT; Foto roda pé desta peça: Os dois criminosos de guerra em prisão perpétua;

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