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45 anos depois, filha ajuda a prender pai por violação da mãe — "Autoridades queriam varrer tudo para debaixo do tapete" 05 Outubro 2021

Este setembro, quarenta e cinco anos depois do seu crime, Carvel Bennett foi condenado a 11 anos de prisão pela violação da menina de 13 anos que entrou em sua casa para tomar conta dos filhos dele. O ADN da filha assim concebida, e que desde os 18 anos buscou justiça, foi determinante para a condenação — que juristas classificam como "histórica".

45 anos depois, filha ajuda a prender pai por violação da mãe —

Adotada aos sete meses "por um casal branco", Daisy ao atingir a maioridade teve direito a ser informada sobre as circunstâncias do seu nascimento. A mãe tinha 14 anos, o pai trinta, a conceção resultara alegadamente de violação, segundo os registos dos serviços sociais de 1976.

"Desde que me lembro pensava todos os dias na minha mãe", disse Daisy. Aos dezoito anos contactou a mulher que lhe deu a vida e dois anos depois encontraram-se pela primeira vez. Mas a mãe só queria esquecer. "Esse crime destruiu totalmente a possibilidade de uma relação entre mãe e filha".

Foi a partir dessa impossibilidade de construir a relação mãe-filha que Daisy começou a pensar nesse pai que era um violador e saíra impune. Começou a lutar para fazer justiça, mas não sabia como — até o dia em que rebentou o escândalo Saville, em 2012, um ano após o seu falecimento. Vítimas durante quatro décadas de crimes de pedofilia começaram a denunciar ’Sir’ James Saville, popular apresentador televisivo (tal como Carlos Cruz do escândalo Casa Pia, denunciado em 2004).

Mas durante anos não conseguiu apresentar queixa. "As autoridades disseram-me que só a vítima podia apresentar queixa", "queriam varrer tudo para debaixo do tapete". Em reação a polícia de Birmingham comunicou à BBC que "foi a mãe, por nós contactada em agosto (de 2020?), que afirmou que não quer ressuscitar o caso".

Daisy em 2014 contactou "os serviços sociais, o município de Birmingham", que " simplesmente não estavam interessados". «O choque maior foi ver que ninguém fazia nada. Sempre que batia a uma porta, telefonava, enviava um email aos especialistas de proteção à infância, advogados, deputados, ou me ignoravam ou diziam-me que eu não era vítima"». "Como é que eu não sou vítima?".

"Tiraram-me a minha cultura, a minha identidade e história. O impacto está em mim, na minha saúde mental, no meu sentido de pertença. Como é que eu não sou vítima?", argumentou em tribunal.

Foi só em 2019 quando a BBC a entrevistou é que a polícia decidiu aceitar a queixa de Daisy. O processo judicial avançou e a mãe biológica aceitou depor, sob anonimato. Os resultados dos exames de ADN — apresentados em tribunal desde junho — indicaram que o acusado, hoje com 74 anos, "tem 22 milhões de vezes mais probabilidades de ser o pai" que qualquer outro.

O julgamento decorreu entre junho e setembro. Em tribunal, Daisy confrontou o agressor da mãe, violada quando foi fazer baby-sitting na casa dele que alegadamente estaria fora. Ela leu o seu depoimento: "Carvel Bennett, provocaste muito sofrimento. O teu crime destruiu totalmente a possibilidade de uma relação entre mãe e filha, porque decidiste violar uma criança".

"Durante 45 anos fugiste à justiça. Tu tiveste todas as oportunidades na vida: tiveste uma família, casaste, tiveste filhos que viste crescer. Mas eu só tive sete dias na maternidade com a minha mãe de sangue".

"Porque decidiste violar uma criança, nós as duas estamos ainda a pagar o preço". "Soube que a minha avó nos visitou e disse que eu parecia contigo. Imagina o mal que isso fez à minha mãe de 14 anos: olhar para mim e ver rosto do homem que a violou!".

"Autoridades têm de ser responsabilizadas"

Segundo o juiz que leu a sentença, o crime de Bennett "destruiu vidas e a filha é inquestionavelmente tão vítima como a mãe".

Daisy sente-se aliviada com o reconhecimento de que foi vítima e com a condenação de Bennett. Fortalecida pela luta e vitória, disse à BBC que agora vai ajudar vítimas como ela.

O Birmingham Children’s Trust/Instituto da Criança de Birmingham, responsável pelos serviços sociais, disse à BBC que está disponível para falar com a Daisy para discutir o caso. "O modo como nós tratamos os casos de abuso infantil, sem dúvida que está bem longe do que era o caso nos anos de 1970".

Fontes: BBC.

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