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A CULTURA DO SUOR: DATA VÉNIA DO ENCONTRO EMOCIONANTE ENTRE EX-PRISIONEIROS 13 Abril 2022

O nosso colaborador Jaime Ben Hare Soifer Schofield, cidadão honorário de Tarrafal de Santiago, prossegue com a sua série sobre a «Cultura do Suor», criticando a postura do ministro da Cultura Abraão Vicente pela ausência do chefe de estado Português na apresentação do Museu de Txom Bom, um projeto conjunto de Cabo Verde-Portugal. Mas o cronista foca, desta vez, naquilo que considera ser, por ocasião do simpósio internacional de 28 de abril a 1 de Maio de 2009, o histórico e emocionante dia de encontro entre os antigos prisioneiros do Campo da Morte Lenta. «Data vénia, avalio o encontro entre os prisioneiros como o evento mais relevante, o mais emotivo, o mais significante dos então realizados ao longo dos dias que marcaram o Simpósio. Imaginem: angolanos, bissau-guineenses, cabo-verdianos e um único português sobrevivem. Imaginem: homens em pleno vigor da vida, sem nenhuma atividade profissional e sem companheiras para compartilhar a vida e as grades de ferro a fazerem de janelas, o que é o mesmo que dizer: em total isolamento do mundo exterior. E quando, inopinadamente, se viram envolvidos pelo multidão e pelos pais e pelas irmãs e pelos irmãos e pelas amigas e pelos amigos naquele abraço de alegria solidária contagiante e logo se integraram na alegria colectiva e em uníssono gritaram: Txom Bom prison nunca mais! E retomaram as lições de Txom Bom e de Cabral e de Sérgio Frusoni, jamais esquecidas e cantaram-nas e gritaram Liberdade!». Para mais detalhes, acompanhe o apontamento que se segue.

A CULTURA DO SUOR: DATA VÉNIA DO ENCONTRO EMOCIONANTE ENTRE EX-PRISIONEIROS

Às memórias dos meus pais
Ana José da Rocha Schofield e
Zalma Soifer Simon Schofield

CULTURA DO SUOR

..Você pode enganar uma pessoa por muito tempo. Algumas por algum tempo. Mas não consegue enganar todas por todo o tempo - Abraham Lincol

O ENCONTRO

O Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração de Txom Bom do Tarrafal que teve lugar nas instalações desse mesmo presídio, de 28 de Abril a 1 de Maio de 2009, para assinalar os 35 anos em que o Campo da Morte Lenta abriu os seus portões garantindo em definitivo a liberdade aos enclausurados.

Data vénia, avalio o encontro entre os prisioneiros como o evento mais relevante, o mais emotivo, o mais significante dos então realizados ao longo dos dias que marcaram o Simpósio. Imaginem: angolanos, bissau-guineenses, cabo-verdianos e um único português sobrevivem. Imaginem: homens em pleno vigor da vida, sem nenhuma atividade profissional e sem companheiras para compartilhar a vida e as grades de ferro a fazerem de janelas, o que é o mesmo que dizer: em total isolamento do mundo exterior. E quando, inopinadamente, se viram envolvidos pelo multidão e pelos pais e pelas irmãs e pelos irmãos e pelas amigas e pelos amigos naquele abraço de alegria solidária contagiante e logo se integraram na alegria colectiva e em uníssono gritaram: Txom Bom prison nunca mais! E retomaram as lições de Txom Bom e de Cabral e de Sérgio Frusoni, jamais esquecidas e cantaram-nas e gritaram Liberdade!

E retornemos a história: ocorre que a data de 26 de março 2021, tantas vezes divulgada pelo Sr. Ministro da Cultura e Representante de Cabo-Verde na UNESCO, que a apresentação conjunta Cabo Verde-Portugal, do projecto Museu da Memória de Txom Bom, criou imensa expectativa! Não era para menos, por várias razões, mormente pelo ineditismo da cerimónia. É que, no mínimo, não foram convidadas as individualidades espectáveis, quais sejam, Sua Excia, o Homólogo Cabo-Verdiano, Sua Excia, o Sr. Presidente da República Portuguesa e dos Srs. Presidentes da Assembleia e da Câmara Municipal do Tarrafal, a Sra, Ministra da Cultura de Portugal, aos dois últimos Presidentes da Assembleia e da Câmara Municipal do Tarrafal, aos Cidadãos Honorários do Concelho do Tarrafal, aos Combatentes da Liberdade da Pátria e, bem assim, ao Povo de Cabo-Verde e aos Munícipes do Tarrafal.

O Sr. Ministro da Cultura de Cabo-Verde tem sido, no que tange ao Museu da Memória, seja quanto às datas, seja em relação aos eventos, um charlatão acabado. A cerimónia seria representada pelo ministro local e este pelo mais alto Magistrado da Lusa Nação.

O Sr. Ministro da Cultura, ultrapassando o bom senso que deve presidir nas relações entre os estados e transformou o Sr. Presidente português num vulgar interlocutor, exibindo-o como se se tratasse de um mero comparsa, tendo transferido o teatro das operações do palácio da Várzea para o de S. Bento!

E chegou o grande dia “nem fumo nem mandado” do presidente convidado. Todo o encenamento caiu fragorosamente, que nem uma dessas casinhas de pobreza construídas numa dessas ladeiras das ilhas.

E eis o «aturdido e baratinado» ministro pela ausência do supremo magistrado da lusa nação para a participar na amplamente divulgada data de 26 de março 2021, para a apresentação conjunta do processo do Museu da Liberdade e da memória de Txom Bom, pelo mais elevado magistrado da Lusa Nação e por ele ministro em representação das Ilhas do Atlântico Médio. Dia esse que marca em definitivo a ruptura entre o velho poder e o novo e os novos foram escrever e contar e cantar e dançar um funaná da escola de Nácia Gomes!

E o Sr, Ministro da Cultura aturdido e atordoado por esse velho novo hino refez-se do choque e deixou o banco dos pedintes e ei-lo na companhia dos cantores com quem aprendeu a entoar os cânticos novos de Mário Lúcio ora sob o novo céu de abril e com os consagrados sons do renovado Zeca d’Nha Reinalda e então entendeu que se impunha adaptar a narrativa aos tempos que correm e do adivinhável porvir, mormente o do Museu da Memória de Txom Bom.

Jaime Ben Hare Soifer Schofield

(Cidadão honorário do Tarrafal de Santiago)
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