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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

A CULTURA DO SUOR (I) 20 Mar�o 2019

Nem as milhares de mortes de quarenta, nem a escravatura das roças do Sul, lhes roubaram a força do querer ganhar o combate da renovação do chão para a sementeira e para a monda e para a remonda e para a colheita, seguindo e aperfeiçoando as técnicas ancestrais para a produção dos frutos da terra e a busca pela vida no mar. De geração em geração transmitiram o conhecimento do ciclo das duas estações, ‘c’um saber só de experiência feito’. (Luís de Camões). E assim prosseguia o ritual anual da recriação do verde a cobrir de esperança achadas, encostas, cutelos e vales ou do desânimo ante a terra seca, castanha, adubada pelo suor, pelo sangue e, nem sempre, regada pelas precipitações.

Por: Jaime Ben Hare Soifer Schofield

A CULTURA DO SUOR (I)

AS TRÊS ESTAÇÕES

E pur si muove - e no entanto ela (a Terra) move-se - Galileu Galilei

1. OS HOMENS E A TERRA

… E as estiagens já não nos metem medo – Ovídio Martins

Quais filhos pródigos andamos por aí a dilapidar heranças recebidas dos nossos maiores, como se se tratassem de bens menores ou de valores insignificantes. A chuva e a escassez dela perpassam toda a História do Arquipélago. Realidade enfrentada, desde sempre com a tenacidade das Filhas das Ilhas e dos Filhos do Mar Azul. Venceram com denodo as agruras do clima insular, seco, árido, lograram viver e sobreviver segundo o ciclo das duas estações contrastantes: a das águas, de julho a setembro e a da seca, de outubro a junho.

Aprenderam a ler o futuro próximo nos sinais da fartura ou da insuficiência da chuva. Na Lua e nas folhas e nas estrelas e nas aves viajantes e no mar. E as mãos calejadas e os braços-músculos adubavam a terra, com suor e lágrima e sangue. Conseguiram viver e sobreviver segundo o ciclo da natureza insular do Sahel.

Nem as milhares de mortes de quarenta, nem a escravatura das roças do Sul, lhes roubaram a força do querer ganhar o combate da renovação do chão para a sementeira e para a monda e para a remonda e para a colheita, seguindo e aperfeiçoando as técnicas ancestrais para a produção dos frutos da terra e a busca pela vida no mar. De geração em geração transmitiram o conhecimento do ciclo das duas estações, ‘c’um saber só de experiência feito’. (Luís de Camões). E assim prosseguia o ritual anual da recriação do verde a cobrir de esperança achadas, encostas, cutelos e vales ou do desânimo ante a terra seca, castanha, adubada pelo suor, pelo sangue e, nem sempre, regada pelas precipitações.

2 – OS PRIMÓRDIOS DA AVENTURA DO SABER

O aspecto mais triste da vida actual é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria - Isaac Asimov

Partindo da base que o clima é matéria do domínio da ciência, as Ilhas nascidas nos azuis do Atlântico, requerem uma explicação científica orientada para um entendimento do fenómeno climático insular integrado no sistema solar.

As pinturas rupestres, as interpretações religiosas e as invenções dos instrumentos da arte de cultivar a terra e as de bem navegar, entrecruzam-se relevando o esforço humano milenar para desvendar a origem e a compreensão do ciclo da renovação da vida.

E vieram os cérebros iluminados que catapultaram a humanidade para o universo da ciência e da técnica num processo cada vez mais acelerado do conhecimento dos fenómenos e das leis de um mundo em expansão.

Obviamente que o fenómeno climático acompanha a aventura do Homem no universo do conhecimento.

Aristóteles (384 a C.- 322 a C.), é um dos primeiros sábios renomados. Estabeleceu as bases da teoria Geocêntrica ou Antropocêntrica, ou seja, a Terra, como o centro do Sistema solar.

Modelo retomado por Ptolomeu (90 – 168) que expõe o seu modelo astronómico, na qual defende que a Terra se encontrava no centro do universo. E já se discutiam os métodos para a elaboração de mapas-múndi e vários tipos de projecção cartográfica
Copérnico (1473 – 1543), problematizou a questão da posição da Terra em relação ao sistema, protagonizando uma revolução científica ao elaborar o modelo cosmológico Heliocêntrico, segundo o qual, era a Terra a realizar a órbita à volta do Sol e, simultaneamente, o movimento de um dia, em torno do seu eixo, explicando a origem dos equinócios e a causa das estações.

Galileu (1564 – 1642), na fronteira entre o século XVI e XVII, personifica o pensamento científico. É um dos estudiosos do Renascimento. Já com o uso do telescópio por ele aperfeiçoado, reelaborou o modelo heliocêntrico. A ciência passou a existir intimamente conectada com a técnica.

E é nessa cadeia dinâmica que aparece Newton (1643 – 1727). Físico e matemático, descreve na sua obra, os Princípios Matemáticos da Filosofia, a Lei da Gravitação Universal e as três Leis de Newton, que fundamentaram a mecânica clássica.
Os alicerces da ciência e da técnica dos nossos dias estavam lançados.

3. A EPOPEIA IBÉRICA

O livro é uma extensão da memória e da imaginação – Jorge Borges

Neste mundo novo proclamado. o livro é o instrumento privilegiado para a difusão do pensamento humanista e vai obrigar a uma renovação dos estudos da Geografia e da Astronomia.

Os ibéricos, marinheiros pela geografia e por vocação, empreendem a aventura de ‘dar novos mundos ao mundo’ - Luís de Camões - , que originam profundas alterações na imagem do Mundo. Não se podia esconder por muito mais tempo os erros e lacunas dos ilustres antecedentes, nomeadamente quanto ao cálculo das dimensões terrestres.

A viagem de Bartolomeu Dias em 1488, demonstra a comunicação entre o Atlântico e o Índico e prepara a viagem de Vasco da Gama à Índia. A de Colombo, em 1492, descobrindo um novo continente, põe em evidência a revolução científico-técnica em marcha na ciência náutica, então veiculada pelas edições do livro com novos registos cartográficos e dados geográficos actualizados.

Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano realizam a 1ª Viagem de Circum-navegação (1519 – 1522).

As novas edições do livro difundem os novos registos cartográficos e a ampliação dos conhecimentos geográficos pelos feitos dos marinheiros ibéricos.

Eis as bases sobre as quais os homens partiram para um entendimento cada vez mais preciso e acelerado do universo e, em consequência, um mundo representado em mapas, em hemisférios e em zonas climatéricas.

E aprendemos com as Filhas das Ilhas e os Filhos do Mar Azul que essas terras e o mar que as abraça são a nossa riqueza, o nosso pão, a nossa água, a beleza do pôr-sol, o esplendor das noites semi-iluminadas pelos diamantes celestes, o berço da Mulher-Fonte-da-Vida, o solo onde plantamos os nossos umbigos, o nosso cantinho amado e encantado, parte desse sistema universal tão complexo e tão contrastante e, para o nosso deleite, tão atractivo para a descoberta dos mil e um segredos que encerra.

É desse manancial que os nossos ancestrais aprenderam o quão importante era saber interpretar as diferenças climáticas em cada parte do planeta.

4. A ESCOLA E AS/OS MESTRES DO SABER

Tenho em mente que tudo que se aprende na escola é trabalho de muitas gerações. Receba essa herança, honre-a … e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos – Albert Einstein

E a aventura do saber e do conhecimento encontra na Escola o centro vocacionado para os receber, os apreender, os transmitir e os disseminar. Mais que magia, melhor que uma varinha de condão. Foi, é e será o espaço de fascínio pela captação do saber das gerações. Os pupilos aprendem as lições da aventura humana da ciência e da técnica, colocadas ao serviço do Homem e responsabilizam-se para as prosseguir, valoradas pela sua própria caminhada.

E as Mestres-Escola e os Professores, continuam Galileu e Newton e os estudantes, os herdeiros dessa riqueza a ser permanentemente enriquecida.

A partir das conquistas técnico-científicas, o génio humano logrou sistematizar e sintetizar a grandeza e a complexidade planetária em representações perceptíveis para os destinatários, estabelecendo as Coordenadas Geográficas, i. é., as linhas imaginárias que dividem o planeta Terra nos sentidos horizontal e vertical, servindo para a localização de qualquer ponto na superfície terrestre.

Dessa maneira, temos dois tipos de coordenadas geográficas:
Latitude: são as linhas que tracejam a Terra no sentido horizontal, também conhecidas como paralelas. O círculo máximo da esfera terrestre, na horizontal, é chamado de Equador, que divide o planeta em hemisférios: Norte e Sul.
A latitude, além de servir para localização geográfica, é uma variável importante para estudar os tipos de clima da Terra, pois a incidência de raios solares no planeta é maior nos lugares com latitudes menores, isto é, mais próximas à linha do Equador.
Longitude: São as coordenadas geográficas que dividem a Terra no sentido vertical, também conhecidas como Meridianos, nos sentidos Leste e Oeste. Como padronização internacional, adoptou-se o Meridiano de Greenwich como ponto de referência.

Tal meridiano divide a Terra em Ocidental e Oriental. A partir das longitudes criaram-se os fusos horários. Todos os meridianos se encontram e se cruzam nos polos Norte e Sul

Sendo um facto consabido pelo Homem que na Terra existem áreas muito frias, como as dos polos, e outras nas regiões próximas a linha do equador, onde a temperatura em geral é elevada todos os meses do ano.

Nas áreas equatoriais, esses raios alcançam a terra mais diretamente, graças à inclinação dos raios solares. Já nas zonas polares, são muito inclinados. É por isso que próximo do equador a temperatura é elevada e próximo dos polos é baixa.
Como resultado do aquecimento maior que ocorre na região equatorial, e do menor aquecimento na região dos polos, a superfície terrestre foi dividida em zonas climáticas, que os estudiosos classificaram em cinco, quais sejam:

1. Zona Tropical: localizada entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio.
2. Zona Temperada do Norte: entre o Trópico de Câncer e o Círculo Polar Árctico.
3. Zona Temperada do Sul: entre o Trópico de Capricórnio e o Círculo Polar Antárctico.
4. Zona Polar do Sul: abrange as áreas localizadas dentro do Círculo Polar Antárctico.
5. Zona Polar do Norte: abrange as áreas situadas dentro do Círculo Polar Árctico.

5 - AS ESTAÇÕES DO ANO

Um dia faz declaração a outro dia e uma noite mostra sabedoria a outra noite - Salomão

A dinâmica do planeta Terra no espaço permite as mudanças naturais importantes. O movimento de rotação com duração de 24 horas, proporciona a variação entre dias e noites. Associado à rotação terrestre, há o movimento de translação, no qual a Terra gira ao redor do sol, em 365 dias aproximadamente. Este movimento está relacionado diretamente com as mudanças das estações do ano, uma vez que permite que a radiação solar atinja a superfície dos hemisférios com intensidades diferentes ao longo do ano.

A data de início do verão e do inverno recebe o nome de solstício, ou seja, quando os dias e as noites possuem durações diferentes. O solstício de 21 de dezembro marca o início do verão no hemisfério sul e do inverno no hemisfério norte. O solstício de 21 de junho determina o início do inverno no hemisfério sul e do verão no hemisfério norte.

Nas zonas temperadas encontram-se as quatro estações:

Verão é a estação mais quente do ano, na qual as temperaturas permanecem elevadas e os dias são mais longos que as noites. O verão começa logo após a primavera (em 21 de dezembro no hemisfério sul e 21 de junho no norte).
Outono é a estação de transição entre verão e inverno. Nela, os dias deixam de ter maior duração que as noites. Gradualmente as temperaturas diminuem e as folhas das árvores caem, como forma de adaptação ao frio que se anuncia. O outono começa logo após o verão (21/22 de março no hemisfério sul e 22/23 de setembro no norte).

Inverno é a estação mais fria do ano. Tem como característica principal a queda de temperaturas, podendo chegar a graus negativos em muitas regiões do mundo. O inverno começa logo após o outono (21 de junho no hemisfério sul e 21 de dezembro no norte).

Primavera é a estação das flores, pois é nela que se inicia o renascimento da flora terrestre e também da fauna no Planeta. É a estação das flores. A primavera é uma estação de transição entre o inverno e o verão - 21/22 de março no hemisfério norte e 22/23 de setembro no hemisfério sul.

6. E CABO-VERDE NA MEI D’MUND

Destroços de que continente,/de que cataclismos, de que sismos,/de que mistérios/Ilhas perdidas/no meio do mar,/esquecidas/num canto do mundo – Jorge Barbosa

O Arquipélago de Cabo- Verde está situado na zona tropical do Atlântico Médio e integra-se na extensa zona do Sahel. Possui, ipso facto, um clima quente, árido e semiárido.

Não tem grande amplitude térmica. As temperaturas máximas situam-se, grosso modo, entre 25º e 30ºC, enquanto que as mínimas variam entre 19º e 25ºC, sendo que os meses mais quentes são julho. agosto, setembro e outubro. Logo os de temperatura menos quentes vão de novembro a junho. Entretanto, como nas regiões de micro clima, nas de maior elevação, o clima é relativamente moderado.

Como toda a Zona do Sahel, o arquipélago apresenta:

DUAS ESTAÇÕES:

i. DAZÁGUAS (de julho a setembro) e a
ii. DA SECA (de outubro a junho)

Mesmo durante o tempo da chuva, ela é irregular pelo que as secas são relativamente cíclicas. A precipitação média anual não ultrapassa os 300 mm nas zonas de baixa altitude e 700 mm nas zonas mais altas.

Uma das características definidora do clima em Cabo-Verde advem no chamado Harmattan. É um vento seco e poeirento, de direcção Nordeste a Este, proveniente do Saará. Sopra, geralmente, de dezembro a março em toda a África Ocidental, no Sahel. Em Cabo-Verde é conhecido por Lestada ou Bruma Seca. Carregado de poeiras e de areias é muito seco e fresco. Por vezes cobre o Sol durante vários dias, podendo limitar fortemente a visibilidade com consequências na navegação aérea, obrigando a desvios de rotas, e dificultando também a navegação marítima, principalmente para as pequenas embarcações de pesca.

(Continua na Edição do dia seguinte: 21/03,quinta-feira)

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