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A CULTURA DO SUOR - IX : NO REINO DO ABSURDO- Cronista alerta que candidatura do ex-Campo de Concentração de Tarrafal a património da humanidade pode ser rejeitada pela UNESCO 04 Outubro 2020

O nosso colaborador Jaime Ben Hare Soifer Schofield conclui, nesta edição, a sua série «A Cultura do Suor-IX: No Reino do Absurdo». Ao analisar o dossiê relativo ao antigo «CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL/MUSEU DE RESISTÊNCIA», avisa que o processo para a sua candidatura a património da humanidade será rejeitado pela Unesco. «Em rigor o dossiê será, liminarmente, recusado, por não respeitar o critério básico pré-estabelecido pela UNESCO, qual seja, o da AUTENTICIDADE, relevado em crónicas anteriores deste Jornal, de 6 de maio de 2020 -: NO REINO DA MEDIOCRIDADE e, na edição de 12 de Julho de 2020 - UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES». É que, segundo o cronista, « é inadmissível e inaceitável e insustentável e imperdoável» que um titular da pasta da Cultura de Cabo-Verde (Abraão Vicente) e compatriota de Mário Alberto de Almeida Fonseca (Marzon), afirme: ‘’ … em Cabo-Verde, não obstante todas as tricas e problemas não tenham pensado pegar em armas para os resolver … ‘’.Jaime Ben Hare Soifer Schofield critica ainda que o atual ministro da Cultura de Cabo-Verde «insiste em erros primários e em juízos apriorísticos depreciativos das filhas das ilhas e dos filhos do mar azul». Veja mais detalhes desta crónica, com memórias sobre as revoltas históricas importantes ocorridas em Cabo Verde, que publicamos a seguir.

Por: Jaime Ben Hare Soifer Schofield*

A CULTURA DO SUOR - IX : NO REINO DO ABSURDO- Cronista alerta que  candidatura do ex-Campo de Concentração de Tarrafal a património da humanidade pode ser rejeitada pela UNESCO

Por: Jaime Ben Hare Soifer Schofield*

A CULTURA DO SUOR - IX

NO REINO DO ABSURDO – (Conclusão)

Às memórias de EDMUNDO PEDRO e de JUVÊNCIO VEIGA (DI SANTO)

Aprender na vida, aprender junto do nosso povo,
aprender nos livros e na experiência dos outros.
aprender sempre - Amílcar Cabral

6 – DO VALOR DA VERDADE

Encontra-se em preparação o dossiê sobre o CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL/MUSEU DE RESISTÊNCIA. com a finalidade de ser inscrito como PATRIMÓMIO MUNDIAL DA HUMANIDADE, pela UNESCO - ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA.

Em rigor o dossiê será, liminarmente, recusado, por não respeitar o citério básico pré-estabelecido pela UNESCO, qual seja, o da AUTENTICIDADE, relevado em crónicas anteriores deste Jornal, de 6 de maio de 2020 -: NO REINO DA MEDIOCRIDADE de maio de 2020 e, na edição de 12 de Julho de 2020 - UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES.
É inadmissível e inaceitável e insustentável e imperdoável que um titular da Pasta da Cultura de Cabo-Verde e compatriota de Mário Alberto de Almeida Fonseca (Marzon), afirme:

‘’ … em Cabo-Verde, não obstante todas as tricas e problemas não tenham pensado pegar em armas para os resolver … ‘’.

O Titular da Pasta da Cultura de Cabo-Verde insiste em erros primários e em juízos apriorísticos depreciativos das filhas das ilhas e dos filhos do mar azul. A História prova, também no capítulo vertente, que não assiste razão ao Ministro. Desde logo, pelas revoltas populares nas Ilhas de S. Tiago, Santo Antão e S. Vicente, dos séculos XIX e XX, como uma forma de luta contra a fome, a miséria, o desemprego e a opressão e exploração coloniais, das quais referir-nos-emos a sete:

  • a de Ribeira de Engenhos, S.Tiago (1822), com o levantamento de camponeses a não querer pagar impostos;
  • a de Achada Falcão, S. Tiago (1841), com a sublevação de trezentos rendeiros que, empunhando facas e cacetes, exortaram a população a se manifestarem contra o pagamento das rendas aos proprietários;
  • a de Paúl, Santo Antão (1894), em que mais de mil pessoas, marcharam sobre Ribeira Grande, tendo-a ocupado durante cinco dias;
  • a de Rubom Manel, S. Tiago (1910), contra o pagamento das rendas aos morgados;
  • a de Achada Portal, Tarrafal de S, Tiago (1920), como reacção à opressão tributária;
  • as de S. Vicente (1929 e 1934), contra a crise do emprego reunindo trabalhadores, estudantes e professores, em 1929;
  • e a manifestação de 1934, onde um grupo de insurrectos se manifestou liderado por Ambrósio Lopes, imortalizado pelo poeta Gabriel Mariano, Capitão Ambrósio:

‘’ … Chora fome/Chora fome/Chora fome nestas ruas./Nestas ruas grita fome/
/Grita fome do teu corpo./Morre morto e ressuscita/
/Ressuscita na bandeira/Ressuscita e luta povo/Nos ares solta bandeira
/Negra bandeira nos olhos/Clara bandeira da fome/Ressuscita e luta povo…’’

Ajuízo ser pertinente reler dois aspectos peculiares, sobre a Revolta de Rubom Manel:
a) o de ser liderada por uma mulher, Nha Ana da Veiga (Nhanha Bumgolom). com a particularidade de ser factor decisivo na libertação das mulheres presas e amarradas, na Cadeia de Cruz Grande;
b) a homenagem à Heroína, paradoxalmente pelo Executivo de que faz parte, o Ministro da Cultura, pelo restauro do conjunto da Praça da Revolta, em Rubom Manel e o grito-programa que ressoa até aos dias de hoje:
‘’homi faca, mudjer madxadu, mininus tudu ta dá cu pedra’’
E o músico Orlando Pandera, conta e canta:
‘’ … Raboita di Rubon Manel/ Dja es leba nos mudjei, dja es prendi nha genti/ Pamo kel un dos gran di purga …’’

Essas sublevações e revoltas populares denotam o papel e a força da mulher e mostram o caminho pela independência. Na década de 1940, os movimentos emancipalistas começam a desenhar-se com precisão crescentes.

Em Cabo-Verde vem à luz do conhecimento geral os julgamentos dos anos sessenta/setenta do século passado, que revelam que, não obstante a feroz luta do regime da Estado Novo, contra qualquer indício de autonomia das Ilhas, os pioneiros da luta clandestina de resistência prosseguiam a sua marcha cada vez com mais vigor, alargando a sua actuação junto dos estudantes e dos trabalhadores.

Acções que, graças ao ‘trabalho’ dos informadores (bufos) cabo cabo-verdianos, chegaram ao conhecimento da PIDE e, consequentemente aos julgamentos de sessenta/setenta do século passado (já desenvolvido em crónicas neste jornal on line) e que transmitiram com uma dinâmica insuspeita, a chama da liberdade a todos os cantos e recantos das Ilhas do Atlântico Médio.

Dos julgamentos os cabo-verdianos das lutas clandestinas a partir de Santa Catarina e de S. Vicente e do grupo do Assalto ao Pérola do Oceano, em S. Tiago e os de Txã d’Arroz, em S. Antão, foram encarcerados no Campo de Concentração da Morte Lenta e Txom Bom do Tarrafal. De onde, num processo extraordinário, com a aliança das famílias e cumplicidade de alguns funcionários do complexo prisional, de REINVENÇÃO DA VIDA, já descrito em outras crónicas neste jornal on line e do filme de Diana Andringa, já citado.

Eis as razões que contrariam o juízo de valores do Titular da Pasta da Cultura de Cabo-Verde, na sua tentativa de transformar o Campo da Morte Lenta., num local de escala aprazível para os convívios de champanhe!

Com a vantagem temporal de ter descoberto a varinha de condão. Tem necessidade de ‘’apoios’’? de dinheiro? de projectos? Voa de Nelson Mandela a Humberto Delgado, que fica a uma distância de um contacto expedito! Belém tem a oferta única de Cabo-Verde, de ser co-autor, com a Praia, do dossier de candidatura, à UNESCO, do Museu de Resistência de Cabo-Verde, a Património Mundial da Humanidade, em maio de 2021.

É tão bom, tão fácil, tão confortável e tão agradável! Para quem só sabe da ‘insustentável leveza’’ da cosmética política.

E assim se homenageia e prossegue a política de Salazar com a cumplicidade desses toques de cosmética barulhentos e o indispensável champanhe.

Serão suficientes para se esconder a autenticidade das marcas do Campo da Morte Lenta. a Frigideira? e a do Cemitério? e a do Simpósio sobre o Campo da Morte Lenta? E a das ‘’tosas’’ aplicadas aos enclausurados? e dos patéticos castigos de 30 dias a ‘’pão e água’’ a quem das chamadas não respondesse com ‘presente’? e a das célebres dietas?

7. DA GESTÃO DO MUSEU DA RESISTÊNCIA

Sem a complexidade da gestão de um processo multinacional e pluri-territorial do núcleo UM MUSEU QUATRO NAÇÕES, acrescido de outros territórios inter ligados pela história.

O Museu de Resistência, em memória aos encarcerados, que mesmo em circunstâncias indignas a um ser humano, máxime as da Frigideira, jamais negaram o sonho de viver num espaço onde o Sol nasce sem as sombras das grades.
Embora tenha já partilhado, neste jornal e em vários outros meios de comunicação social, a minha visão do projecto do futuro Museu de Resistência, é ainda oportuno, relevar que o Museu da Resistência não deve jamais ser uma outra célula administrativa ao serviço do egocentrismo do Ministério da Cultura de Cabo-Verde e uma escala meramente turística de circunstância. Também não deve ser um museu apenas de Cabo-Verde e de Portugal E Angola? E Guiné-Bissau?
Que papel para Timor-Leste? E para Moçambique?

A futura gestão do Museu de Resistência há-de ser uma FUNDAÇÃO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL, inicialmente com quatro gestores, indicados pelos Presidentes de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, com um mandato temporário e missão pré-estabelecida.

Obviamente que voltarei a este assunto.

*Cidadão honorário do Tarrafal
benhare@cvtelecom.cv

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