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A CULTURA DO SUOR – OS INTOCÁVEIS: O CHARLATÃO-MOR E OS VENDILHÕES NO TEMPLO 07 Novembro 2021

O nosso colaborador Jaime Ben Hare Soifer Schofield retoma a série de «Cultura do Suor – Os intocáveis», concluindo com o capítulo «O charlatão–mor», numa referência indireta ao atual ministro da Cultura, Abraão Vicente. O cronista foca no histórico sítio «Frigideira» do antigo Campo de Morte Lenta do Tarrafal de Santiago, detendo-se ao mesmo tempo naquilo que considera ser «os vendilhões no templo» que estão a destruir o referido museu memorial internacional. «Em janeiro do ano em curso foi inaugurado o espaço que dá acesso ao Campo da Morte Lenta. Dito de outro modo: uma escala turística para o champanhe. Logo os vendilhões estão no Campo e formalmente autorizados a continuar a sua obra de destruir os alicerces sobre que foi edificado o MUSEU MEMORIAL INTERNACIONAL DO CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL. Aqui vos anuncio que continuarei a luta contra o oportunismos antigos e nascentes do sítio mais visitado em Cabo-Verde». Jaime Ben Hare Soifer Schofield acrescenta, no entanto, estar esperançoso com a juventude, conhecedora dos ensinamentos de Amílcar Cabral, que vai dizer às mentes adultas que é preciso não comer «as migalhas» que tombam das mesas obesas. «No entanto, a Juventude dos nossos dias, que conhece os ensinamentos de Cabral, vem dizer às mentes adultas que é preciso não ‘comer‘ as migalhas que tombam das obesas mesas das mentes que ora nos guiam. Mas que é preciso continuar a seguir o exemplo da tenacidade dos nossos avôs na luta pela vida e pela dignidade humana». Confira a seguir o capítulo final desta longa série de «A CULTURA DO SUOR – OS INTOCÁVEIS», publicada no Asemanaonline.

A CULTURA DO SUOR – OS INTOCÁVEIS: O CHARLATÃO-MOR E OS VENDILHÕES NO TEMPLO

A CULTURA DO SUOR – OS INTOCÁVEIS: O CHARLATÃO-MÓR (Conclusão)

Aos Reinventores da Vida do Campo da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal

... Você pode enganar uma pessoa por muito tempo. Algumas por algum tempo. Mas não consegue enganar todas por todo o tempo - Abraham Lincoln

1 A FRIGIDEIRA

A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros. (Confúcio)

Os primórdios da luta pela independência de Cabo-Verde têm lugar nas décadas 50/60, quando os ecos da guerrilha anti-colonial na Guiné-Bissau, dirigida por Amílcar, rompem a fronteira e da opressão, da fome, da ignomínia para tocar os jovens dos liceus e das Praças do Mindelo e da Praia. Em consequência houve as esporádicas prisões em S. Vicente, de Dante Mariano, Luís Fonseca, Bernardo (Beitz) Oliveira, Carlos Antóno Dantas Tavares e de Jaime Schofield e, na Praia, de Mário (Marzon) Fonseca, de Arménio Vieira e de David Lobo.

E na fronteira da década de sessenta do século passado, as prisões a subsequente julgamento de personalidades de relevo social, como foram Anastácio Filinto Correia e Silva, Manecas Chantre, Mário Alberto (Maron) Fonseca e Arménio Vieira.
Julgamento marcante pelo grande impacto na vida social da Praia e de Cabo-Verde.
Já, nas décadas de sessenta/setenta tiveram luar os julgamentos marcadamente políticos, ligados à luta armada e pela emancipação dos povos das colónias africanas, desde logo, de Angola, Cabo-Verde e Guiné-Bissau.

O grau de segurança e desenvoltura na narrativa dos acusados e, bem assim, a capacidade e saber jurídicos dos advogados foram de tal modo relevantes que se inscreveram nos anais da História da Libertação dos povos sob opressão.

De momento importa ressaltar que os Combatentes de Txã d`Arrox de Santo Antão e os de Pérola do Oceano, de Santa Catariana, de Santa Cruz, de Ribeireta, de S. Miguel se irmanaram de tal modo que nem músicos de uma orquestra sinfónica, altamente ensaiados. A História da Libertação de Cabo-Verde narra esse capítulo espantoso: uma das celas do CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL, trabalhadores de enxada e de remos, estudantes, um inspector do ensino, um gestor de administração e um missionário, sem qualquer voz de comando, os enclausurados provenientes de várias ladeiras e encostas e planuras e ribeiras, sob o sol tropical, organizaram-se de tal forma que a cela se transformou numa sala de aulas. E os ‘génios’ da culinária, Djon Divo e Lineu Miranda transformavam refeições insípidas em pratos aceitáveis! E temperados com o amor das famílias, traduzido pela camoca, pelo agrião, pela cenoura, pelo tomate, pela batata, pelas frutas da terra, papaia, banana, pêssego, morango e ananás ...
E para completar a dieta, o Dr. Santa Rita Vieira e a Enfermeira Shalola, receitavam-nos, astutamente, vitaminas e cálcio.

E ainda a lavandaria que acumulava as funções normais com as de ginásio coberto! E os espaços livres à volta dos edifícios, também foram adaptados para pistas e espaços para a prática de voleibol. E para pistas de ‘footing’.

E a cela era um espaço polivalente, de salas de aula, do primário, do secundário passando para a Matemática e pelo Inglês, pela Filosofia e pelo Artesanato...

E nos momentos quando mais doía a solidão, aparecia o sábio lavrador Di Santo para me transmitir a solidariedade humana, mormente as relações entre homem e mudjer. E ensinou-me: «kuzas entre mudjer e homi, é kuza fno ! ...», de tal forma transmitia a força e a delicadeza das relações entre um casal, que a lição era acompanhada pelo gesto expressivo do esfregar a um tempo, o indicador e do polegar. Grande companheiro o Di Santo!

E quando as visitas nos traziam o aconchego de um abraço de partilha da vida ‘lá fora’ também recebiam a reinvenção da vida ‘cá dentro’.
E perguntavam-nos estupefactos: vocês vivem num inferno ou num paraíso?
E respondia-lhes: APENAS REINVENTAMOS A VIDA! Então e a FRIGIDEIRA?

A narrativa do Governo, pela mediação, do Ministro da Cultura, é totalmente omissa sobre a frigideira. Aliás convém desde já esclarecer que S. Excia. tem o feio hábito de fugir às questões reais sobre o CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL.

E quando se lhe pedia um juízo de valor sobre determinada matéria, ele não respondia. Antes divagava, num discurso à ponta da língua ... Exemplifiquemos com a seguinte transcrição:’ «... Em declarações à agência Lusa, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, explicou que está prevista a entrega da obra de reabilitação pelo empreiteiro na "primeira quinzena de janeiro".

Trata-se do museu mais visitado em Cabo Verde, mas que está encerrado desde 09 de março para obras de reabilitação que deveriam levar oito meses a concluir, ...inseridas no plano do Governo para candidatar o espaço a Património da Humanidade.

Contudo, explicou Abraão Vicente, que na quarta-feira visitou o espaço, devido à pandemia de covid-19, nomeadamente na logística e "chegada dos materiais importados", a obra acabou por parar e só começou a ser retomada em "finais de julho".

A assinatura da consignação da empreitada no antigo campo de concentração, pelo Ministério da Cultura e Indústrias Criativas à construtora Vilacelos, empresa com sede em Barcelos, Portugal, através da sucursal em Cabo Verde, aconteceu no final de fevereiro, sendo a obra realizada no quadro do Programa de Requalificação, Reabilitação e Acessibilidade (PRRA), através do Ministério das Infraestruturas, do Ordenamento do Território e Habitação.

O ministro da Cultura explicou anteriormente que a obra, de 29,5 milhões de escudos (265 mil euros) visa um dos requisitos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês) para a candidatura a Património da Humanidade que o Governo cabo-verdiano pretende apresentar em 2021.

O investimento implica a substituição de telhados das antigas celas comuns e pavilhões, e a criação de um percurso pelo interior do antigo campo de concentração, levando ao reforço da componente de museu, entre outros trabalhos.

Abraão Vicente disse que o objetivo da obra de reabilitação e da candidatura à UNESCO passa por "transformar um espaço que era triste e que devia envergonhar" num local de "orgulho", desde logo para a população do Tarrafal.

O ministro afirmou também que é necessário "ficar em paz" com aquele local, por exemplo na tarefa de, com as famílias, decidir sobre os restos mortais dos então prisioneiros que ficaram no Tarrafal.

O governante disse à Lusa, aquando do lançamento desta empreitada, que o Governo cabo-verdiano pretende construir no espaço um memorial aos que estiveram ali encarcerados durante o Estado Novo e vai fazer um levantamento para apurar se ainda há restos mortais de antigos prisioneiros por trasladar.
Património Mundial: Candidatura do ex-Campo de Concentração do Tarrafal até final do mandato – anuncia Governo.

Destaques e sublinhados do Abraáo que termina com uma lusa lição: MAIS DEPRESSA SE APANHA UM MENTIROSO QUE UM COXO.

E a propósito da pretendida homenagem aos mortos eventualmente esquecidos no cemitério do Tarrafal, uma pergunta: para que servem os arquivos de um museu?
E por que a matéria exige um tratamento mais circunstanciado, entendo tentar fazê-lo, em edições seguintes.

2. OS VENDILHÕES NO TEMPLO

Em janeiro do ano em curso foi inaugurado o espaço que dá acesso ao Campo da Morte Lenta. Dito de outro modo: uma escala turística para o champanhe. Logo os vendilhões estão no Campo e formalmente autorizados a continuar a sua obra de destruir os alicerces sobre que foi edificado o MUSEU MEMORIAL INTERNACIONAL DO CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL.
Aqui vos anuncio que continuarei a luta contra o oportunismos antigos e nascentes do sítio mais visitado em Cabo-Verde.

3. A JUVENTUDE

E, no entanto, a Juventude dos nossos dias, que conhece os ensinamentos de Cabral, vem dizer às mentes adultas que é preciso não ‘comer‘ as migalhas que tombam das obesas mesas das mentes que ora nos guiam. Mas que é preciso continuar a seguir o exemplo da tenacidade dos nossos avôs na luta pela vida e pela dignidade humana.

A felicidade ganha-se! Com a Cultura do Suor!

....

*Cidadão honorário do Tarrafal

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