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A CULTURA DO SUOR VII - UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES: CELA FRIGIDEIRA COMO MARCA DE MORTE LENTA NO EXTINTO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL 12 Julho 2020

O nosso colaborardor Jaime Ben Hare Soifer Schofield retoma, nesta edição, a série «A Cultura do Suor -VII, focando, desta vez, sobre «Um museu maior para gestores menores». De entre outras memórias sobre o extinto Campo de Concentração da Morte Lenta de Tchombom do Tarrafal de Santiago, o articulista lembra da «Fragideira», uma das celas difícies em que o regime fascista de Salazar encarcerava presos políticos. «Ah! e a frigideira! Era a marca por excelência da Morte Lenta. Consistia numa pequena construção, completamente fechada, com teto e chão de cimento e um pesado portão de ferro. Completamente exposta ao sol, pelo que no seu interior a temperatura era sempre muito elevada, nos limites do humanamente suportável. Era a arma para se manter a ‘disciplina’ do terror. Para se aquilatar da natureza da Colónia Penal, o médico contratado, alardeava: “não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito!». Confira outros relatos históricos importantes na crónica que publicamos a sguir.

A CULTURA DO SUOR VII - UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES: CELA FRIGIDEIRA COMO MARCA DE MORTE LENTA NO EXTINTO CAMPO  DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL

A CULTURA DO SUOR – VII UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES

À memória de Carlos Lineu Soares Miranda

DA GRANDEZA E DA MISÉRIA HUMANA

Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes – Leonardo da Vinci

Estava escrito algures no livro da Vida e do Saber da Humanidade que o CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL acolheria duas dimensões contrastantes da existência das Filhas e dos Filhos dos 4 033 Km2 das ilhas e dos ilhéus spaiod na mei d’mar azul.

Sobre o assunto supra-refencido, António Oliveira Salazar personifica o lado da pequenês e da indignidade humana. Em contra-posição, os Angolanos, os Bissau-Guinenses, os Cabo-Verdianos e os Portugueses que, à sombra das casernas partilharam sonhos de liberdade, reinventaram a vida e ergueram a dignidade humana riba lá, representam o paradigma da grandeza humana. A Grandeza Humana de Txom Bom extravasa os muros da imensa mastaba inacabada. As mães e os pais, as irmãs e os irmãos, as esposas e as namoradas, as amigas e os amigos foram solidários no processo da reinvenção da vida, ora com camoca, ora com mel de cana, ora com cuscus, ora com ovos, ora com banana, ora com batata doce assada, ora com laranja, mas sempre embrulhados em amor. E houve pessoas também que já se encontravam comprometidas pela causa da liberdade e partilharam com os encarcerados o sonho comum de romper as amarras do aviltamento humano. Tarrafal-Txom Bom de 1936, enquadrava-se perfeitamente como local para, segundo o modelo nazi, se construir uma prisão passível de receber os presos políticos. Isolada pela natureza, com o imponente e belo maciço da Serra de Malagueta, cujas encostas, desfiladeiros e ravinas desciam em direcção à costa azul do Tarrafal e de Txom Bom e pela beleza da escultura magnífica e serena do Monte Graciosa, sobre os alicerces do basalto e do azul setentrional da praia mítica. Entre esses dois monumentos naturais e o mar, estende-se a planura de Txom Bom-Tarrafal que, nos meados da década dos anos trinta do século XX, era uma zona sem vias de acesso, com problemas de fornecimento de água, agravada pelas secas cíclicas e pela fome, sem energia eléctrica e desprovida dos recursos humanos e técnicos tendentes à exploração dos recursos aquíferos existentes.
Sob o sol tropical seco, o Campo Penal recebeu os primeiros condenados Portugueses a pena de desterro pela prática de crimes políticos.

A morte lenta continuava palas imstalações, inicialmente de lona, sem energia eléctrica e sem água para os encarcerados e por refeições impróprias para seres humanos e uma assistência médica e medicamentosa praticamente inexistente e, para complementar o quadro, os condenados ficavam entregues aos carrascos mosquitos.

A FRIGIDEIRA

Ah! e a frigideira!
Era a marca por excelência da Morte Lenta. Consistia numa pequena construção, completamente fechada, com teto e chão de cimento e um pesado portão de ferro. Completamente exposta ao sol, pelo que no seu interior a temperatura era sempre muito elevada, nos limites do humanamente suportável. Era a arma para se manter a ‘disciplina’ do terror. Para se aquilatar da natureza da Colónia Penal, o médico contratado, alardeava: “não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito”!

CAMPO DE TRABALHO e HOLANDINHA

A pressão internacional obrigou Salazar a encerrar a Colónia Penal em 1954.
Foi reaberto em 1961, com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom. Nesta 2ª fase do Campo a frigideira foi substituída pela holandinha. Trata-se de uma cela com tamanho muito reduzido, localizada no interior de uma outra estrutura. Era entregue aos castigados um balde, destinado à higiene e às demais necessidades.

AUSCHWITZ

Por razões óbvias, convém lançar um muito breve olhar sobre o Campo de Concentração nazi, na Polónia, enquanto a maior estrutura de destruição massiva de seres humanos. No complexo de Auschwitz, onde foram executados mais de 1 milhão e 300 mil seres humanos, maioritariamente, Judeus.

Em 27 de janeiro de 1945 os campos foram libertados pelas tropas soviéticas, dia este que é comemorado mundialmente como o Dia da Lembrança do Holocaustro (Assembleia Geral das Naçóes Unidas, em 1 de novembro de 2005). Em 1947 a Polónia criou o museu no local de Auschwitz I e II. Em 2002, a UNESCO reconheceu oficialmente as ruínas de Auschwitz-Birkenau como Património da Humanidade. Denote-se bem: um percurso longo e complexo e denso.

SIMPÓSIO SOBRE O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL

Em homenagem à libertação dos derradeiros condenados desse complexo prisional, Angolanos e Cabo-Verdianos, a Fundação Amílcar Cabral organizou, com a participaçao da Fundação Mário Soares, de 28 de abril a 1 de maio de 2009, um Simpósio Internacional sobre esse complexo prisional.

No decurso do evento a Fundação Amílcar Cabral recolheu testemunhos e documentos relativos à existência e ao funcionamento dessa prisão, com vista a organizar um projecto museológico transnacional para o futuro deste monumento histórico comum dos países africanos de língua oficial portuguesa.

O Simpósio recolheu igualmente o resultado das reflexões e debates em torno do legado histórico, de valores e ideais humanistas e inspiradores para as gerações vindouras, nomeadamene "A Geração da Utopia e o Dever da Memória", "Os Ideais, Princípios e Cidadania" e "Os Direitos Humanos nas Novas Sociedades Democráticas em África".

À Fundação Amílcar Cabral cabe a responabilidade de sensibilizar os governos de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bisssau e Portugal, no sentido de cumprirem o desígnio histórico, de dar à Humanidade, um dos Museu de referência na Luta de Libertação dos povos oprimidos. O Simpósio foi uma oportunidade única para o primeiro encontro entre os Angolanos, os Bissau-Guinenses, os Cabo-Verdianos e o único Resistente Portuguès sobrevivo, Edmundo Pedro.

SUSTENTABILIDADE DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE TXOM BOM DO TARRAFAL

Ocorre que o Campo de Txom Bom reune todas as condições para a sua sutentabilidade, assente sobre duas actividades geradoras de postos de trabalho, i. é, CULTURA e a ECONOMIA
Até agora o Museu da Resistència tem sido o mais visitado em CaboVerde, Tratando-se de um museu transnacional, convém perspectiválo, desde logo, como

UM MUSEU

QUATRO NAÇÕES

E respeitando a História a gestão do Museu de Resistência, será através de uma Fundação, i. é., FUNDAÇÃO DO CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL

Os indigitados de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Portugal, terão como missão primeira, a construção de uma estrutura organizativa e respectivos titulares, para concretizar o projecto.

Entretanto há tarefas urgentes a realizar, nomeadamente:
- A reconstituição da frigideira, no mesmo local e a mesma estrutura; - A restauraçáo da bibioteca e à volta um complexo de espaços para a informática, formação, leitura, cinema, teatro, vídeo, música, xadrez, etc..
- Recuperação dos espaços dedicados ao futebol, voleybol, corrida, etc..

DA ECONOMIA

Com base numa planificação e distribuição de terrenos para construções sociais e de habitação de família e avenidas segundo a boa prátiaca ibérica levada a cabo nas regiões tropicais : o mar será território colectvo. Entretando desenhar-se-ão avenidas, ruas, esplanadas, edifícios públicos (escolas e outros dependentes do que s a futura comunida de Txom Bom).

Da agricultura (um espaço como o do antigo colunato de Txom Bom), pela busca incessamte de água.
Da pesca e dos desportos náuticos – aproveitamnto dos recursos existentes – com barcos adequados e equipamentos modernos, pesca submarina, desportos para onda e vento, etc..
Do comércio - por conta da iniciativa privada

RECOMENDAÇÃO

Promover um encontro muito urgente entre a Fundação Amílcar Cabral e o Governo, visando a eliminação de erros, lacunas e insuficiências e para a criaçáo de sinergias e sintonia e relançar um projecto verdadeiramente transnacional.

Jaime Ben Hare Soifer Schofield

Cidadão Honorário do Tarrafal

email :benhare@cvtelecom.cv

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