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A CULTURA DO SUOR - VIII NO REINO DO ABSURDO: Processo de candidatura do ex-Campo de concentração a património mundial e alerta de crimes de colarinhos brancos 13 Setembro 2020

O nosoo colaborador Jaime Ben Hare Soifer Schofield retoma a sua série «A Cultura do Suor -VIII no Reino do Absurdo», prossegunido com a sua reflexão sobre o ex-Campo de Concentração do Tarrafal, com destaque para a condução do processo para a sua candidatura a património mundial pelo atual minisitro da Cultura, Abraão Vicente. O cronista traz também à ribalta os suspostos crimes de colarinhos brancos com a alegada máfia de venda de terrenos na Praia. «Ocorre que Cabo-Verde enfrenta uma situação político-social complexa e coloca aos decisores dos poderes, desafios momentosos, agravados pela pandemia do covid-19 e no meio do período eleitoral de 2920/21, ou seja, das autárquicas, legislativas e presidenciais, adensados pelo Mega Processo Judicial em curso, i. é., a Máfia dos Terrenos da Praia, denunciada pelo ilustre Advogado e Jurista, Dr. Vieira Lopes, ora recolhido nos braços de Abraão, comprovada com documentos que fazem fé e ora prosseguida pelo igualmente ilustre Advogado e Jurista, Dr. Rui Araújo, também com documentos que fazem fé, através dos PRAIA LEAKS, publicada em preimeira-mão no Asemanaonline», salienta o cronista. Mais detalhes no apontamento que se segue.

Por: Jaime Ben Hare Soifer Schofield*

A CULTURA DO SUOR - VIII   NO REINO DO ABSURDO: Processo  de candidatura do ex-Campo de concentração a património mundial e alerta de crimes de colarinhos brancos

A CULTURA DO SUOR - VIII NO REINO DO ABSURDO – (1ª parte)

Às memórias de EDMUNDO PEDRO e de JUVÊNCIO VEIGA (DI SANTO)

… O homem prudente construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, tans- bordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. O homem insensato construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbor- daram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda. Jesus Cristo, in S. Mateus

1 - A CASA NA ROCHA VS A CASA NA AREIA

O dossier do Museu de Resistência de Cabo-Verde começa de facto a 1 de maio de 1974, quando o Povo libertou o Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal, tornando-se significamente o primeiro txom libertado de Cabo-Verde.

Por dever cidadão, insisto na defesa da verdade histórica sobre o CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL, a ser presente à UNESCO - ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, com a finalidade de ser inscrito como Património Mundial da Humaniidade, porquanto o dossier se encontra num processo a-histórico, em razão do oportunismo político-partidáriio do Governo de Cabo-Verde, personificado pelo Ministro da Cultura.

E a história volta atrás: naquele dia, no Parlamento, falou-se fugazmente sobre o Campo de Concentração, os encarcerados e os sobreviventes. O jovem deputado da Nação, Abraão Vicente, mostrou-se agastado pela referência. Mudam-se os tempos e consolidam-se as tendências ideológicas. Ora sob as vestes ministeriais, Abraão Vicente revela o verdadeiro sentimento que nutria e nutre em relação a um dos símbolos de referência da ditadura fascista do regime colonial de Salazar e empreende uma estratégia de intervenção, incompaginável, com o legado acumulado.

Porque é que o Executivo só actualmente se decide por um assunto que vinha, de facto, desde 1 de Maio de 1974?
E porque não deu andamento institucional em tempo útil, ao legado recebido?
E porque essa tentativa absurda de lançar na lixeira da História, o expressivo acervo intelectual e material existente?
E porque esse desprezo ostensivo pelo trabalho abnegado, de tantas organizações e personalidades nacionais e internacionais, em defesa do contínuo esforço de aprender e reforçar, o valor da vida e da dignidade humana?
Porque o que os outros pensaram, projectaram e realizaram é coisa alguma perante a grandeza dos feitos do agora e do porvir?

E no entanto, a História do Campo da Morte lenta, regista marcos significantes que traduzem o tempo, a energia e o esforço para enriquecerem o legado recbido, nomeadamente:
(I) A comemoração, sob a direcção do então carismático Presidente da Assembia Nacional Popular, Abílio Duarte, a 1 de maio de 1984, dos dez anos da libertação pelas Filhas das Ilhas e pelos Filhos do Mar Azul, dos prisioneiros do Campo de Concentraçâo de Txom Bom do Tarrafal, assinalada com uma placa à entrada do complexo prisional e um reencontro entre os sobreviventes.

E, no entento, a saga popular de libertação dos últimos encarcerados angolanos e cabo-verdianos, do Campo no dia 1 de maio de 1974, permanece praticamente apagada na memória colectiva da comunidade nacional e internacioal. (Vide as crónicas do A: um Museu Maior para Gestores Menores (in a SEMANA on line de 12 de julho de 2020 e Do Campo de Concentralão da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal, ao Primeiro Txom Libertado de Cabo Verde, in A SEMANA on line e impresso de julho de 2016, no Diário de Notícias, no Google e em vários órgãos de comunicação social internacional).

(ii) O descerramento, em Dezembro de 2000, da placa que assinala a 1,ª fase do Museu de Resistência, pelo então Primeiro-Ministro, Gualberto do Rosário e a concessão da titularidade de Cidadãos Honorários do Tarrafal aos enclausurados cabo-verdianos;

(iii) A Universidade do Mindelo que entendeu distinguir com o título de Doutor Honoris Causa, ao Professor Doutor Adriano Moreira, signatário, enquanto Ministro do Ultramar do Estado Novo, da Portaria n.º 18.539 de 17/06/1961, que manda reabrir o Campo, perante a indignação generalizada, mormente da Associação Cabo-Verdiana de ex-Presos Políticos (ACEP) e da realizadora e produtora do filme “Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, Diana Andringa.

(iv) De 28 de Abril a 1 de Maio de 2009, com o alto patrocínio do Presidente da República e do Ministério da Cultura de Cabo Verde, de Angola e Governo de Timor-Leste, organizado pela Fundação Amílcar Cabral e Fundação Mário Soares, e co-patrocínio da Fundação Agostinho Neto, Fundação Eduardo dos Santos, Fundação Sagrada Esperança, Liga dos Antigos Combatentes de Angola e Council for Development of Social Science Research in Africa (CODESRIA), realizou-se o Simpósio Internacional sobre o Campo da Morte Lenta, sem dúvida, o mais relevante evento sobre essa prisão, durante o qual, se prestou uma sentida homenagem aos ex-presos sobreviventes, Angolamos, Cabo-Verdianos, Bisau-Guinenses e Portugueses. O simpósio foi ainda marcado pelo enconro com o carismático, Edmundo Pedro, o único português sobrevivente. Igualmente foi ensejp para apresentação de painéis por reconhecidos especialistas dos caminhos da Liberdade e, bem assim, de testemunhos de sobreviventes.

Do evento saíram recomendações e que, não obstante consideradas pertinentes e adequadas para o Museu de Resistência, têm permanecido, incompreensivelmente, nas profundezas das gavetas do esquecimento. De assinalar ainda que o simpósio determinou então uma reparação total do espaço físico do complexo prisional e, numa das celas, reorganizou-se o Museu da Resistência com uma exposição permanente de documentos e fotografias dos lutadores pela Liberdade, tornando-se mais úteis, pedagógicas e aprazíveis às visitas ao Campo de Concentração, sendo o sítio mais visitado de Cabo- Verde.

(v) A Resolução n.º 64/2014 que cria o Sítio Campo de Concentração do Tarrafal, Património Histórico e Cultural Nacional e a consequente posse (09.03.2015) da equipa técnica da Curadoria, pelo Ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa. Factos que não vêm senão comprovar que ainda não apreendemos a verdadeira dimensão histórico-espacial, multi-nacional e económico-social do Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal. Concluir-se-á, uma vez mais, que se segue a senda de ignorar que o complexo é, pelo seu histórico, um monumento e um museu. Parte-se, pois, de premissas de gestão conservadoras e ideias vagas e genéricas e repetitivas e, sobretudo, considera-se esse património nacional e internacional de facto, de propriedade exclusiva de Cabo Verde. É de todo incompreensível que as bases pré-existentes, algumas das quais de grande solidez e inquestionável valor, maxime as do Simpósio de Abril/Maio de 2009, permaneçam esquecidas e abandonadas;
(vi) A História regista que o Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal integra-se, de facto, nessa ignóbil rede de campos de extermínio humano.
O horror da crueldade inimaginável da aniquilação em massa ou a exposição a métodos brandos de assassinar dia a dia são, de igual modo, atentados inqualificáveis ao valor supremo da vida e da dignidade humana.

(vii) Em Cabo Verde, a anteceder Txom Bom, encontra-se o Campo de Concentração de Tarrafal da Ilha de S. Nicolau, considerado justamente a antecâmara do Campo da Baía de Txom Bom e, ipso facto, o primeiro a integrar-se na rede dos campos de concentração construídos pelo Estado Novo, ou seja, conjuntamente com os de Angola (São Nicolau, Missombo e Bié), Guiné-Bissau (ilha das Galinhas), Moçambique (Machava, São Machilde e Mabalana) e Timor-Leste (Viqueque e Ataúro) e, em Portugal, Aljube, Peniche, Caxias e Açores. A futura instituição gestora deTxom Bom deve ter, pois, a ambição de o incorporar também nas redes de todos os campos de concentração hitlerianos e mussolinianos, numa ampla cadeia para que jamais se esqueça o valor e o preço da Vida e da Liberdade.

2. DOS CRIMES DE COLARINHO BRANCO

E regressemos aos dias de hoje, plenos de perplexidades.

Ocorre que Cabo-Verde enfrenta uma situação político-social complexa e coloca aos decisores dos poderes, desafios momentosos, agravados pela pandemia do covid 19 e no meio do período eleitoral de 2920/21, ou seja, das autárquicas, legislativas e presidenciais, adensados pelo Mega Processo Judicial em curso, i. é., a Máfia dos Terrenos da Praia, denunciada pelo ilustre Advogado e Jurista, Dr. Vieira Lopes, ora recolhido nos braços de Abraão, comprovada com documentos que fazem fé e ora prosseguida pelo igualmente ilusstre Advogado e Jurista, Dr. Rui Araújo, também com documentos que fazem fé, através dos PRAIA LEAKS.

Tal período é também propício para os corruptos continuarem, consolidarem e aperfeiçoarem os mecanismos dos crimes de «colarinho branco».

Nesta complexidade, o País tem de acompanhar o processo de candidatura do Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal a património Mundial da Humanidade, pela UNESCO.

Sendo um processo, passível, de dar benefícios e vantagens, os oportunistas e ‘mantenhos’ políticos, ocupam e ocuparão os espaços deixados livres, pela incoerência, pela lassidão, pela preguiça, pelo conformismo, pelo comodismo,
pelo ‘laissez faire laissez passer’ generalizados, das forças políticas e da sociedade civil.
Daí a necessidade de contribuir, em tempo útil, para o processo a ser presente à UNESCO, seja irrepreensível.
Porém, o Sr. Ministro da Cultura tem pressa. O Partido ora no poder sente-se ameaçado pelo ‘tsumani’ judicial em curso e, consequentemente, luta contra o tempo, para preservar o Movimento para a Democracia (MpD) por algum tempo mais no poder e, concomitantemente, o seu cargo de ministro e respectivos benefícios.
É portador da ‘varinha de condão’ que lhe abre todas as portas e ‘quebra todos os galhos’ para edificar um processo totalmente novo, desde os alicerces ao tecto. Destrói e liquida e enterra o legado existente da casa da rocha e parte para a ‘insustentável leveza’ da construção da ‘casa na areia’.

3. DOS APAGÃOS MINISTERIAIS

O poder corrompe. E o poder absoluto corrompe absolutamente – Lorde Acton

É liquido que o Titular da Pasta da Cultura não terá aprendido a lição da dimensão tempo num processo histórico. Quando, frenético, interpretou a recepção do dossier de candidatura da Morna à património universal, como se se tratasse da sua aclamação a Património Imaterial e Cultural da Humanidade, tendo a UNESCO avisado o Governo de Cabo-Verde que a aceitação da Morna como património cultural e imaterial da humanidade tinha apenas uma indicação positiva prévia, remetendo a decisão final para o Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural e Imaterail, tendo sido, efctivamente, proclamada como património, pela UNESCO, na 14ª. sessão de 14 de dezembro de 2019, pelo referido Comité. E, apesar do sentimento que nutria e nutre, polo Campo da Morte Lenta, agarra-se-lhe qual náufrago a uma bóia de salvação, enquanto lhe confessa amor oportunista. É que sabe que o ‘maldito’ campo pode render muitos mais benefícios pessoais e políticos, pela via da sua candidatura a património mundial.

E perguntarão, com legitimidade:

Porque o apagão relativo à aclamação da Cidade Velha a Património Mundial da Humanidade, ao não conceder nenhuma relevância ao primeiro dossier apresesentado por Cabo-Vesde à UNESCO, quando o bom senso aconselharia mais proximidade, entre os processos da Cidade Velha e do Campo? Inclinando-se para o da Morna por razões que têm a ver com a ideia egocêntrica de não querer partilhar o protagonismo com outros?

E é por isso que é preciso repôr a verdade histórica a respeito dos obreiros do efifício cultural de Cabo-Verde, colocados no ostracismo pelo actual Governo.

De David Hoppfer Almada, passando por Corsino Fortes, por António Jorge Delgado, por Jorge Tolentino, por Manuel Veiga e até chegar a Mário Lúcio Sousa.
E quanto ao dossier da Morna, porque nenhuma referência ao imortai autor do ‘Na Tempo de Caniquinha’, Sérgio Frusoni?

Os esquecimentos ministeriais ficam mais claros com os processos de candidatura a património mundial.

Denotem bem: em 2000, sob a coordenação do arquitecto Álvaro Siza, foi iniciado um trabalho de preparação do dossier de candidatura da Cidade Velha. a Patrimônio Mundial da UNESCO que foi o primeiro dossier apresentado por Cabo-Verde à UNESCO, em 31 de janeiro de 2008 e declarada Património Mundial da Humanidade, a 26 de junho de 2009.

O dossier de candidatura, foi liderado pelos técnicos do Instituto do Património Cultural, Carlos Carvalho e Charles Akibodé.

O Ministro da Tutela da Cultura, tem um grave problema relativo ao valor cronológico das realizações históricas no âmbito das competências que são atribuídas ao MC.

Exemplifiquemos: fica provado em ‘marcos significantes’ desta crónica que o museu não nasceu ‘do reconhecimento da Fortaleza de Peniche’.
Ademais, e de uma vez por todas, esclarece-se que todas as declarções do Sr. Ministro, referindo-se ao/s pimeiro/s e à/s primeira/s é/são falsa/os, (v. g.: « … as reportagens, as pinturas, as fotografias e os testemunhos hão de ser os materiais por excelência a «contar» o primeiro capítulo a constar no acervo do Museu».

5. DA FRIGIDEIRA

«Pelos seus frutos os conhecereis. Acaso se colhem uvas de espinheiros, ou figos de urtigas? Assim, toda a árvore boa produz frutos bons».
Jesus Cristo in S. Mateus

Esta cela foi considerada justamente como a marca por excelência da Morte Lenta. Consistia numa pequena construção, completamente fechada, com tecto e chão de cimento e um pesado portão de ferro. Completamente exposta ao sol, pelo que no seu interior a temperatura era sempre muito elevada, nos limites do humanamente suportável. Era a arma para se manter a ‘disciplina’ do terror aos enclausurados.

Excluindo-a da propalada reabilitação do Campo da Norte Lenta, o dossier a ser presente à UNESCO para ser inscrito como património mundial, o governo de Cabo-Verde não cumprirá, o primeiro critério para que o Campo de Concentração possa vir a ser Património da Humanidade da UNESCO, qual seja, o da autenticidade do espaço.

Excluído o critério primeiro, qual seja, o da autenticidade, a referência mais notórias, a candidatura permacerá iremediavelmente, reprovada.

Com isso fazendo, o Ministro da Cultura de Cabo-Verde e quanta/os CaboVerdiana/os, o Presidente e a Ministra da Cultura de Portugal, se revelarem indiferentes à essa situação, tornar-se-ão cúmplices da política de Salazar no que diz respeito à sua política contra o valor supremo da vida e da dignidade humana.

E dir-se-á com propriedade que a chamada reabilitação do Campo outra coisa não é senão uma operação de cosmética do Campo, tendente a tapar (gatxá) a dura realidade da vida dos enclaurusados. E assim o Sr, Ministro ficará na História como o maquilhador-mór do Campo de Concntração da Morete Lenta de Txom Bom do Tarrafal.

Imaginemos Auschwitz, o Campo de Concentração nazi, na Polónia, enquanto sem a maior estrutura de destruição massiva de seres humanos. No complexo de Auschwitz, onde foram executados mais de 1 milhão e 300 mil seres humanos, maioritariamente, Judeus.
Foi Patimónio Mundial da Humanidade, sem qualquer operação de cosmética.
Termino, citando um dos maiores vultos do saber e da vida:
«O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis» – Fernando Pessoa

*Cidadão honorário do Tarrafal

(Continua)

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