OPINIÃO

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A IMPORTÂNCIA DA CULTURA PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA 20 Junho 2018

A história das civilizações mostra que a cidadania representa uma etapa do desenvolvimento humano e o resultado da modificação dos hábitos culturais dos homens. Por isso, parte-se de uma perspetiva de análise dos fatores históricos, por meio da leitura e interpretação dos textos constitucionais para conhecer a problemática que se coloca nos dias hodiernos, e ver a má qualidade da educação como o principal problema enfrentado por muitos países pode parecer muito óbvio, mas nem sempre se consegue identificá-lo, muito menos compreendê-lo.

Por: *Adrião Simões Ferreira da Cunha

A IMPORTÂNCIA DA CULTURA PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

Cidadania é o conjunto de direitos e deveres a que um indivíduo está sujeito na Sociedade em que vive, cujo conceito esteve sempre fortemente ligado à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando direta ou indiretamente na formação do Governo, sendo um direito de se ter uma ideia e poder expressá-la livremente.

Ninguém nasce cidadão, mas torna-se cidadão pela educação, que atualiza a inclinação potencial e natural dos homens para a vida comunitária ou social. A cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la livremente, de poder votar em quem quiser, sendo nesse sentido um processo.

A história das civilizações mostra que a cidadania representa uma etapa do desenvolvimento humano e o resultado da modificação dos hábitos culturais dos homens. Por isso, parte-se de uma perspetiva de análise dos fatores históricos, por meio da leitura e interpretação dos textos constitucionais para conhecer a problemática que se coloca nos dias hodiernos, e ver a má qualidade da educação como o principal problema enfrentado por muitos países pode parecer muito óbvio, mas nem sempre se consegue identificá-lo, muito menos compreendê-lo.

É importante compreender o que é Cultura para saber como podemos adquiri-la, sendo um conceito usado de forma genérica para falar de valores e práticas humanas ou de conhecimento e experiências adquiridas sendo o conceito mais corrente o conjunto de conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes e os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da Sociedade.

Por ter sido muito associada ao conceito de Civilização no século XVIII, a Cultura muitas vezes confunde-se com desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de elite, confusão que foi comum nos séculos XVIII e XIX, onde Cultura se referia a um ideal de elite, que possibilitou surgir a hierarquização entre cultura erudita e cultura popular, ainda presente no imaginário das Sociedades Ocidentais.

A leitura é crucial para a aprendizagem do ser humano, pois é através dela que podemos enriquecer o nosso conhecimento e contribuir para que essa chamada Cultura possa crescer na nossa mente.

As tecnologias da informação e comunicação do mundo moderno, infelizmente, fizeram com que as pessoas deixassem a leitura de lado, originando jovens cada vez mais desinteressados dos livros, possuindo vocabulários cada vez mais pobres e conhecimentos muito escassos no dia-a-dia.

Mas a capacidade de leitura exige alfabetização, que impõe combater com determinação o analfabetismo, verificando-se que nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, segundo os últimos Recenseamentos da População que realizaram, a Taxa de Analfabetismo era, ordem crescente:-Portugal 5,2% (2011);-Brasil 9,1% (2010);-São Tomé e Príncipe 9,9% (2012);-Cabo Verde 17,2% (2010);-Timor-Leste 34,5% (2010);-Angola 35,4% (2014);-Guiné-Bissau 45,8% (2009);-Moçambique 49,9% (2017).

É preciso ter um cuidado que é não deixar que as novas tecnologias nos tornem nuns analfabetos funcionais, que lemos informação muito tempo em redes sociais e nos mais variados sites, mas não conseguimos compreender as informações que nos chegam tornando-nos pessoas cansadas mentalmente e sem conteúdo cultural.

Nós, que todos os dias usamos a Língua Portuguesa, nem sempre temos presente que é a 5ª Língua mais falada no Mundo e a 3ª no Mundo Ocidental, sendo a Língua Oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, e Macau.

A Língua Portuguesa é a Língua mais falada na América do Sul, além do Brasil é falada no Uruguai (cerca de 100.000 pessoas no Departamento de Rivera), onde é chamado Portunhol, havendo ainda os seguintes territórios onde a Língua Portuguesa possui relevância: Galiza (Espanha); Goa, Damão e Diu (Índia); Departamento de Amambay (Paraguai); Antígua e Barbuda; Bermudas; e Guiana.
A dispersão da Língua Portuguesa em vários Continentes deve-se aos descobrimentos dos Portugueses nos séculos XV e XVI, podendo dizer-se que se iniciou assim a Globalização que muitos historiadores afirmam ter tido início naqueles séculos com as Grandes Navegações e

Descobertas Marítimas dos Portugueses

Sendo assim, a Língua Portuguesa foi introduzida e logo se juntou com as culturas locais, formando uma diversidade de dialetos, sendo essa nova forma de falar o Português fora de Portugal denominada Crioulo.

A Língua Portuguesa é oriunda do latim vulgar que era apenas falado, língua que os Romanos inseriram numa região ao norte da Península Ibérica chamada Lusitânia, e a partir da invasão dos Romanos na região, praticamente todos os povos começaram a usar o Latim, salvo os Bascos na região norte da atual Espanha.

Foi em Português que Luís de Camões escreveu os Lusíadas, tendo sido instituído em 1988 o Prémio Camões pelos Governos de Portugal e do Brasil que segundo o protocolo constituinte consagra anualmente um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum, tendo o Prémio sido já atribuído aos seguintes escritores:
1989-Miguel Torga, Portugal; 1990-João Cabral de Melo Neto, Brasil; 1991-José Craveirinha, Moçambique; 1992-Vergílio Ferreira, Portugal; 1993-Rachel Queiroz, Brasil; 1994-Jorge Amado, Brasil; 1995-José Saramago, Portugal; 1996-Eduardo Lourenço, Portugal; 1997-Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido por ?Pepetela?, Angola; 1998-António Cândido de Mello e Sousa, Brasil; 1999-Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal; 2000-Autran Dourado, Brasil 2001-Eugénio de Andrade, Portugal; 2002-Maria Velho da Costa, Portugal; 2003-Rubem Fonseca, Brasil; 2004-Agustina Bessa-Luís, Portugal; 2005-Lygia Fagundes Telles, Brasil; 2006-José Luandino Vieira, Angola (recusou o Prémio); 2007-António Lobo Antunes, Portugal; 2008-João Ubaldo Ribeiro, Brasil; 2009-Arménio Vieira, Cabo Verde; 2010-Ferreira Gullar, Brasil; 2011-Manuel António Pina, Portugal; 2012-Dalton Trevisan, Brasil; 2013-Mia Couto, Moçambique; 2014-Alberto da Costa e Silva, Brasil; 2015-Hélio Correia, Portugal; 2016-Raduan Nassar, Brasil; 2017-Manuel Alegre, Portugal; 2018-Germano Almeida, Cabo Verde e em 1998 o português José Saramago recebeu o prémio Nobel da Literatura.

Tenho um amigo que me disse um dia que "se houver um paraíso espero que tenha uma biblioteca e com livros em Língua Portuguesa", tendo sempre presente a sua forma de me receber, que com elevada cortesia me convida a entrar apontando-me com a sua mão direita o fundo do corredor à direita. Aí chegado entra no seu mundo, um mundo de livros, de silêncio e de saber. E é aí que me dá a conhecer o sublime da essência humana.

Senta-se à sua secretária, diante de mim, e começa a dissertar acerca da temática mais relevante no momento. Por vezes pára para ir buscar um livro que o ajuda a ilustrar as suas palavras, regressando sempre como que num triunfo silencioso com o livro procurado sabendo sempre onde o abrir, e como é extenso o seu universo de livros, que, regra geral, estão com frases sublinhadas e comentadas.

Então procede à leitura de um excerto com a singularidade de uma voz que tem o dom de animar carateres impressos, como se em vez de os ler lhes desse vida, e como eu gosto de o ouvir. Com a sua invulgar cultura sabe que o caminho do saber é o da humildade, porque só procura o saber quem lhe sente a falta.

Uma vez disse-me que considerava muito a seguinte afirmação de Blaise Pascal (físico, matemático, filósofo moralista e teólogo Francês, 1623-1662) Uma vez que não podemos ser universais e saber tudo quanto se pode saber acerca de tudo, é preciso saber-se um pouco de tudo, pois é muito melhor saber-se alguma coisa de tudo do que saber-se tudo apenas de uma coisa.

Para ele Biblioteca é um espaço físico em que se guardam livros, dispostos ordenadamente para estudo e consulta, podendo as bibliotecas ser públicas ou particulares.

Biblioteca e leitura

A biblioteca é uma criação que já existe há bastante tempo. Na verdade, desde a antiguidade era aconselhável buscar o conhecimento num lugar para consulta. Assim, como um caso emblemático, podemos citar a biblioteca de Alexandria, que agrupou uma quantidade significativa de obras e cuja fama está nos nossos dias. Claro que, este tipo de coleção mostrava muitas diferenças das que hoje podemos considerar. Em primeiro lugar, os livros não existiam como hoje, mas costumavam ser usados em papiros ou rolos sem encadernação. Por outro lado, em muitas ocasiões, havia uma estreita relação com a religião imperante.

Na Idade Média, a biblioteca teve um papel fundamental em relação à preservação do conhecimento do passado. Na verdade, estas bibliotecas serviram de ponte entre a idade antiga e o início do renascimento, e assim as obras antigas foram sendo revalorizadas. A biblioteca medieval estava presente em edifícios religiosos e era mantida por copistas que ficavam longas horas transcrevendo com letra legível os inúmeros volumes presentes. Estes manuscritos tinham um preço exorbitante em consequência da dedicação que era necessária para produzi-los.

Assim, com a invenção da imprensa, as bibliotecas tiveram uma grande extensão e saíram da área de mosteiros ou outras estruturas vinculadas ao campo religioso. De facto, graças ao avanço tecnológico, o custo de produzir um livro diminuiu notavelmente e isto permitiu que existisse mais circulação e um maior número de bibliotecas. Era necessário desenvolver uma capacidade ideal para organizar a quantidade de volumes e isso estabeleceu a elaboração de diversas práticas para que seu uso eficiente estivesse garantido.

Atualmente, graças também ao desenvolvimento tecnológico, o papel da biblioteca está-se diluindo. De facto, a Internet oferece um grande banco de dados com informação capaz de ser organizada de forma sistemática e proporcionar uma imensa variedade de informações. Com o passar do tempo, a leitura de livros virtuais tem crescido ainda mais e hoje já é presença garantida no nosso quotidiano.

A leitura é algo crucial para a aprendizagem do ser humano, pois é através dela que podemos enriquecer o nosso vocabulário, obter conhecimento, dinamizar o raciocínio e a interpretação. Muitas pessoas dizem não ter paciência para ler um livro, no entanto isso acontece por falta de hábito, pois se a leitura fosse um hábito rotineiro as pessoas saberiam apreciar uma boa obra literária, por exemplo.

Muitas coisas que aprendemos na escola são esquecidas com o tempo pois não as praticamos, mas através da leitura rotineira tais conhecimentos se fixariam de forma a não serem esquecidos posteriormente. Dúvidas que temos ao escrever poderiam ser sanadas pelo hábito de ler, talvez nem as teríamos pois a leitura torna nosso conhecimento mais amplo e diversificado.

Durante a leitura descobrimos um mundo novo, cheio de coisas desconhecidas. O hábito de ler deve ser estimulado na infância, para que o indivíduo aprenda desde pequeno que ler é algo importante e prazeroso, assim com certeza ele será um adulto culto, dinâmico deve haver alguns direitos do leitor, como o de escolher o que quer ler, o de reler, o de ler em qualquer lugar, ou, até mesmo, o de não ler.

Respeitados esses direitos, o leitor, da mesma forma, passa a respeitar e valorizar a leitura. Está criado, então, um vínculo indissociável. A leitura passa a ser um imã que atrai e prende o leitor, numa relação de "amor" da qual ele, por sua vez, não deseja desprender-se. Portugal, 05 de Junho de 2018
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*Estaticista Oficial aposentado, antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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