OPINIÃO

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A IMPORTÂNCIA DA LITERACIA ESTATÍSTICA NO QUOTIDIANO DO CIDADÃO 12 Agosto 2018

A literacia estatística vai além da aplicação da Estatística de maneira mecânica, constituindo-se na habilidade de ler e interpretar dados de forma critica. O uso adequado dos conhecimentos estatísticos é de utilidade em argumentos do quotidiano do cidadão comum, dos estudantes dos diversos níveis de ensino e dos profissionais em geral.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

A IMPORTÂNCIA DA LITERACIA ESTATÍSTICA NO QUOTIDIANO DO CIDADÃO

Sendo a Estatística um conjunto de métodos utilizados para o planeamento de inquéritos, recolha, apuramento, analise, interpretação, difusão e auxilio para as tomadas de decisão, a sua relevância pode ser observada pelo seu uso em organizações governamentais e não-governamentais, onde instituições financeiras, económicas e sociais necessitam de conhecimentos Estatísticos do mais elementar ao nível mais avançado, para que cidadãos comuns e profissionais em geral possam tomar decisões com fundamentos técnicos com uma certa margem de segurança.

O papel da Estatística nos últimos anos atingiu uma importância significativa para o desenvolvimento social e económico. Instituições de pesquisa são criadas com fins específicos de atender às solicitações de recolha, análise e interpretação de dados para fins de planeamento.

Realço o papel dos Institutos Nacionais de Estatística (INE) que, de acordo com os seus estatutos, têm como missão retratar os respetivos países com informações estatísticas oficiais necessárias ao conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania, por meio da produção, análise e difusão de informações de natureza estatística demográfica, socioeconómica, e geocientíficas, geográfica, cartográfica, geodésica e ambiental.

Os INE constituem-se assim nos maiores órgãos de produção e difusão de dados estatísticos dos países, atendendo, assim, à procura de informações estatísticas oficiais.

Observo ainda que os INE, no desempenho das suas funções, oferecem uma visão ampla, completa e atualizada dos países, dentre outras questões, na produção de informações estatísticas, na coordenação e consolidação destas informações e na coordenação dos Sistemas Estatísticos Nacionais.

A nível internacional, a Associação Internacional para a Educação Estatística (AIEE), nas suas ações pelo mundo, procura promover, apoiar e melhorar a Educação Estatística em todos os níveis, além de estimular a cooperação internacional, a discussão e pesquisa, disseminando ideias, estratégias, materiais e informações através de publicações e conferências internacionais.

De acordo com o exposto a Estatística tem uma aplicabilidade muito vasta na utilização de dados estatísticos e contribui para o desenvolvimento científico. Portanto, na atualidade, a necessidade de conhecimentos estatísticos incrementa-se para as pessoas em geral, a fim de possibilitar uma melhor compreensão dos fenómenos da natureza, sociais, económicos e tomadas de decisão.

Destaco a grande necessidade dos adultos, numa sociedade industrial, estarem capacitados (alfabetizados) estatisticamente para analisar e avaliar criticamente a informação oriunda da organização de dados que os indivíduos podem encontrar em diversos contextos, e discutir e comunicar as suas conceções em relação a essas informações quando forem relevantes.

Diante da necessidade do cidadão e dos profissionais em geral, em domínios de conhecimentos estatísticos para decidir no qu otidiano, alguns países introduziram o ensino deste conteúdo nos currículos escolares de todos os níveis do ensino.

Não basta o cidadão entender percentagens expostas em índices estatísticos, como as taxas de desenvolvimento populacional, de inflação ou desemprego, é necessário que o mesmo saiba analisar e relacionar criticamente os dados apresentados, analisando, interpretando, comparando e tirando conclusões.

Alguns autores consideram que a representação gráfica devido à sua eficiência na transmissão das informações, é visualmente mais amena na perceção e raciocínio das pessoas, mas advertem sobre as contradições existentes no recebimento das informações em pesquisas com fundamentação observacional, experimental e estatística, cujos resultados, às vezes, não são compreendidos em função de serem divulgadas apenas conclusões de forma incompleta, descontextualizadas e distorcidas, mal compreendidas que induzem as pessoas a tomarem decisões de forma equivocada.

Neste ponto é preciso compreender que a maioria das informações provenientes de inquéritos estatísticos oficiais, na busca de estimar tendências e parâmetros, tem por base uma amostra, a partir da qual os parâmetros são estimados. Logo, as inferências obtidas com base em dados amostrais estão sujeitas a erros provenientes da própria amostragem. Também se deve compreender que, nos casos de sondagens de opinião pública, por detrás de toda informação veiculada pelos órgãos de comunicação social, existe um patrocinador, alguém que pagou pela sondagem e que, portanto, coloca em dúvida a neutralidade e, em certa medida, a fidedignidade dos resultados exibidos em tais investigações.

Entende-se, desta forma, a extrema necessidade de que as pessoas comuns possam detetar algum conhecimento em Estatística para o exercício pleno da cidadania, pois a cidadania consiste nas possibilidades do indivíduo de participar ativamente da vida do Governo e sua população, inserindo-o na vida social, e da tomada de decisões.
Numa Sociedade onde o cidadão, a todo instante, é "bombardeado" com uma gama muito grande de informações ele precisa de conhecimentos e habilidades básicas para saber analisar, interpretar e compreender estas informações para tomadas de decisão no seu quotidiano. Uma habilidade fundamental para o cidadão interpretar e avaliar, de forma crítica, as informações é a literacia estatística.

O indivíduo "letrado" estatisticamente necessita ainda de habilidades de comunicação para expressar as suas opiniões e tomadas de decisões baseadas na adequada compreensão da análise dos dados estatísticos.

A literacia estatística vai além da aplicação da Estatística de maneira mecânica, constituindo-se na habilidade de ler e interpretar dados de forma critica. O uso adequado dos conhecimentos estatísticos é de utilidade em argumentos do quotidiano do cidadão comum, dos estudantes dos diversos níveis de ensino e dos profissionais em geral.

Para um adulto que vive numa sociedade industrial, a literacia estatística é definida como: a) competência da pessoa para interpretar e avaliar criticamente a informação estatística, os argumentos relacionados com os dados ou aos fenómenos estocásticos, que se podem apresentar em qualquer contexto e, quando relevante, b) competência da pessoa para discutir ou comunicar as suas reações para tais informações estatísticas, tais como os seus entendimentos do significado da informação, as suas opiniões sobre as implicações desta informação ou as suas considerações acerca da aceitação das conclusões fornecidas.

Há pessoas que se colocam em extremos opostos quanto aos inquéritos estatísticos. Há aqueles que não acreditam em inquéritos estatísticos por julgarem que a Estatística é a "arte de mentir". Enquanto isso, há aqueles que acreditam que as previsões ou tendências estatísticas são extremamente confiáveis, mesmo desconhecendo alguns conceitos elementares essenciais à análise e compreensão dos dados estatísticos.

Em ambos os pensamentos as pessoas necessitam de melhor fundamentação para compreender as informações. Um exemplo bastante conhecido dos cidadãos dos países democráticos são as sondagens de intenção de voto realizadas em épocas de eleições que ocorrem periodicamente.

Para o eleitor avaliar criticamente uma sondagem com este tipo de finalidade é preciso compreender a diferença entre população e amostras, tipos de amostragens adequadas à homogeneidade ou heterogeneidade da população, margem de erro e intervalo de confiança.

Os indivíduos que compreendem estes conceitos fundamentais da Estatística terão melhores condições de compreender as informações e tirar conclusões com mais segurança e tomar decisões com a menor margem de erro possível.

Lisboa, 10 de Agosto de 2018

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*Estaticista Oficial Aposentado - Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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