OPINIÃO

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A IMPORTÂNCIA DE CAMÕES NA NOSSA LÍNGUA OFICIAL COMUM 19 Dezembro 2020

Muitas vezes incompreendido pela Sociedade, Camões queixou-se pelo pouco reconhecimento que teve em vida. Foi só após a sua morte que a sua obra passou a ser foco das atenções. Hoje é considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa e um dos maiores representantes da literatura mundial. O seu nome é conhecido em todo o mundo e é usado em diversas praças, avenidas, ruas e instituições.

Por:Adrião Simões Ferreira da Cunha*

A IMPORTÂNCIA DE CAMÕES NA NOSSA LÍNGUA OFICIAL COMUM

Luí de Camões (1524-1580) foi determinante para a Nossa Língua Oficial Comum, foi um poeta e soldado português, considerado o maior escritor do período do Classicismo, sendo apontado como um dos maiores representantes da literatura mundial. Autor do poema épico Os Lusíadas revelou grande sensibilidade para escrever sobre os dramas humanos.

Camões nasceu em Lisboa em 1524, tendo uma boa e sólida educação, na qual aprendeu sobre história, línguas e literatura. Estudos indicam que era indisciplinado e que teria ido a Coimbra para estudar.

Ainda jovem interessou-se pela literatura iniciando a sua carreira literária como um poeta lírico na corte do Rei D. João III. Muitos historiadores dizem que nesse período teve uma vida boémia. Na altura, também passou por uma desilusão amorosa, momento em que decidiu tornar-se um soldado.

Assim, ingressou no Exército da Coroa Portuguesa em 1547 embarcando como soldado para a África onde combateu contra os celtas em Marrocos onde perdeu o olho direito. Em 1552 voltou a Lisboa e no ano seguinte embarcou para as Índias, onde participou em várias expedições militares.

Foi preso tanto em Portugal, como no Oriente, e foi durante uma das suas prisões que escreveu a sua obra mais conhecida e importante Os Lusíadas. Quando regressou a Portugal, publicou a sua obra, tendo recebido uma pequena quantia em dinheiro do Rei D. Sebastião.

Muitas vezes incompreendido pela Sociedade, Camões queixou-se pelo pouco reconhecimento que teve em vida. Foi só após a sua morte que a sua obra passou a ser foco das atenções. Hoje é considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa e um dos maiores representantes da literatura mundial. O seu nome é conhecido em todo o mundo e é usado em diversas praças, avenidas, ruas e instituições.

Camões faleceu no dia 10 de junho de 1580 em Lisboa. No final da sua vida passou por grandes problemas financeiros morrendo pobre e infeliz, uma vez que não teve o reconhecimento que merecia.

Camões escreveu poesias, epopeias e obras de dramaturgia. Foi assim que se tornou um poeta múltiplo, sofisticado e ao mesmo tempo popular. Possuía grande habilidade poética na qual soube explorar com criatividade diferentes formas de composição. Foi um dos maiores poetas do Renascimento, mas às vezes inspirou-se em canções populares escrevendo poesias que lembram várias canções medievais.

Os seus versos revelam que estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos. As suas obras de maior destaque são: El-Rei Seleuco (1545), peça de teatro; Filodemo (1556), comédia de moralidade; Os Lusíadas (1572), grande poema épico; Anfitriões (1587), comédia escrita em forma de auto; e Rimas (1595), coletânea da sua obra lírica. Mas a obra pelo que é mais conhecido e admirado é Os Lusíadas. A poesia épica desta obra em 10 Cantos, publicada em 1572, celebra os feitos marítimos de Portugal.
Tomando como assunto central a viagem de Vasco da Gama às Índias, Camões fez dele um símbolo da coletividade lusitana e das proezas dos navegadores portugueses, que permitiu compará-las com as façanhas dos heróis dos poemas de Homero (Ilíada e Odisseia) e de Virgílio (Eneida).

Camões usou os modelos clássicos para cantar os acontecimentos do seu tempo, que ao contrário dos antigos, eram reais e não fictícios. Camões faz algumas entidades mitológicas participarem da ação. Assim, coube a Vénus o papel de protetora dos portugueses. É curiosa a história que há sobre que Camões sofreu um naufrágio perto de Goa na Índia, e diz a lenda que ele nadou salvando o manuscrito de Os Lusíadas na mão.

ALGUNS SONETOS DE CAMÕES

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Lisboa, 10 de Dezembro de 2020

— -
*Estaticista Oficial Aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal
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