OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Leitura da votação da deputada do MpD contra Estatuto Especial da Praia: A cor da consciência é anterior a cor do partido 23 Setembro 2020

Queremos propor uma leitura sobre a intervenção da deputada Mircéa Delgado que, nessa altura (sessão da AN para aprovação do estatuto Especial da Praia), votou contra aos ditames do próprio partido (MpD). Com esse gesto, que para muitos foi motivo de critica, a deputada expressou um aspeto fundamental do dialogo político que é o direito (e dever) de honestamente expressar a própria opinião. Entendemos que o dialogo parlamentar não é construído simplesmente no confronto entre grupos partidários mas antes no confronto entre pessoas, que por “dar cara” também assumem as consequências com toda a própria pessoa e portanto na plenitude da própria consciência. Próprio por ser assumida conforme consciência uma opinião merece respeito mesmo quando estiver em erro.

Por: Frei Silvino Benetti *

Leitura da votação da deputada do MpD contra Estatuto Especial da Praia: A cor da consciência é anterior  a cor do partido

Deixamos passar um tempo desde a sessão parlamentar onde foi apresentado e discutido o estatuo especial da Cidade da Praia, esperando assim, não dar ocasião a mais polemicas mas, eventualmente, dar início a uma reflexão.

Queremos propor uma leitura sobre a intervenção da deputada Mircéa Delgado que, nessa altura, votou contra aos ditames do próprio partido.

Com esse gesto, que para muitos foi motivo de critica, a deputada expressou um aspeto fundamental do dialogo político que é o direito (e dever) de honestamente expressar a própria opinião. Entendemos que o dialogo parlamentar não é construído simplesmente no confronto entre grupos partidários mas antes no confronto entre pessoas, que por “dar cara” também assumem as consequências com toda a própria pessoa e portanto na plenitude da própria consciência. Próprio por ser assumida conforme consciência uma opinião merece respeito mesmo quando estiver em erro. A consciência expõe a pessoa e ao mesmo tempo é sua defesa. A politica deve defender a consciência porque só a partir dela se obtém um dialogo construtivo! Um partido tem de ter uma linha partidária mas é próprio a consciência das pessoas que purifica ou afina essa sua linha partidária. Portanto se o politico sente que a sua consciência não adere tem direito, liberdade e dever de manifestar-se de forma diferente.

O dialogo parlamentar representa o dialogo do povo mas se no parlamento só se expressam como grupos perde-se o horizonte do bem comum o dialogo se transforma em conflito que estender-se-á nos mesmos moldes a todo o povo. O que nos une não são as cores partidárias mas o bem comum dado em primeiro lugar pelas boas relações que intercorrem entre nós, em todos os níveis da sociedade, e nas quais criam os nossos filhos. Um politico tem de ter claros esses valores e polos como objetivos da própria pessoa antes de qualquer linha politica e para conseguir isso, necessita de ser acompanhado pela própria consciência. Se abafarmos a consciência dum politico esse transforma-se num interesseiro e trabalhará exigindo condições e pedindo recompensas extras e no entanto o seu trabalho só poderá trazer (alguns e provisórios) benefício material no lugar dos benefícios sociais e humanos dos quais maiormente necessita a nossa “polis”. A consciência é “instrumento comum” tanto do politico como do cidadão e é próprio falando em consciência que o dialogo proposto pelo politico pode realizar-se com qualquer um e a qualquer nível da sociedade. É a partir do dialogo em consciência que o politico constrói as politicas e as forças para leva-las em frente.

Necessitamos dos partidos não para satisfazer os interesses de partes diferentes mas para que essas partes ponham a própria, diferente, experiencia ao serviço do alcance do bem comum do qual todas as partes vivem. A criação de partidos começa pela compreensão que a complexidade da realidade ultrapassa a cada um e não leva à rivalidade mas ao relacionamento humilde que se manifesta expressando a necessidade de pedir opinião ao outro.

Dizia o filosofo Aristóteles que a politica é a arte mais nobre e o Papa Paulo VI disse que a politica é a forma mais alta para fazer caridade. Seja a arte como a caridade se realizam gratuitamente porque realizam-se transmitindo, ou dando, e não recebendo. O politico, próprio a partir da sua experiencia, entende que é só com espirito gratuito que se alcançam sucessos políticos. O politico que trabalha com consciência deposita nela os seu sucessos e amarguras e não corre o risco de perder a si mesmo!

Mindelo 21.09.2020
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*Membro da congregação Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Irmãos Capuchinhos de Cabo Verde

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