DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

A mangueira morre sem encanecer 24 Janeiro 2022

Estávamos alguns metros acima do velho plátano, nesse terceiro andar, em frente ao velho liceu. O plátano amarelava... em breve seriam folhas caídas. O tronco acinzentava, em breve seria branco. O vento fez rodopiar uma folha alaranjada e de súbito irrompe a visão da mangueira que na nossa memória nunca se cobre de cãs.

A mangueira morre sem encanecer

A memória das hespérides é, assegurava um Coelho, "um só ramo insular do mesmo tronco", que depois se subdividiu como os favos duma colmeia, os do norte e os do sul.

Isto apresentado por um deles de sobrenome diferente, o do sexto-avô escravo cujo tronco se conhece muito mal.

— Meio tronco — diria a estoriadora da família dos Santos. Com as suas palavras novas nascidas do chão das ilhas, ela era a memória criada desde essa era de Quatrocentos. Até que se apagou a memória.

A memória das hespérides — afinal é tudo "o mito, que é nada que é tudo" — e só ficou a costela do Adão luso.

A memória oral das hespérides. Que nenhuma letrada escreveu, por que será? Os exploradores de atol que nunca entraram para a história. As filhas… remadoras… exímias nadadoras, até podiam ser, mas o importante era a sua capacidade de resistir cinco, dez, quinze minutos sem vir à superfície enquanto mergulhavam…

O ramo que ficou em terra e o outro que foi ganhar as graças do mar. Em barcas baleeiras fixadas no topónimo aportuguesado vale-dos-cavaleiros. Em sagas orais musicadas como o "Pinote ne vapor".

O ramo que ficou em terra reencontra nesse quinto ano de seca os vindos de África. A francófona?

Ou seriam já os vindos da terra do cacau que bebe do sangue do contratado?

Corais nestas ilhas vulcânicas do Atlântico. Esta uma reflexão que estava longe das serenas mergulhadoras.

Uma sua descendente certo dia espanta-nos com a informação ao telefone.

— Prima, vou contar-te uma novidade! Sabes quem vi hoje lá no banco?
— ??
— O teu tio José Pedro!
— Então o teu pai veio da Flórida?…
— É mais um tio mas nenhum de nós sabia dele. Vi-o e disse “credo, é a cara do meu pai”.
— E…
— Tive de lhe perguntar se era da família. E é!
— Parecido com o teu pai e como se chama?
— Sim, é a cara dele, mas o seu nome é Marcos…
— Acho que nunca ouvimos falar …
— Saiu da Selada há mais de quarenta anos, perto de cinquenta anos, que foi viver para Dakar!

Este é mais um “Não pode ser!”

Não pode ser!? É a Terra a girar com o pai ao norte na Terra Trazida, que se tornou ponto de saída. Cais de partir da antiga Metrópole-Lisboa que depois leva para a América, e o seu parente que o espelha a fazer uma curta estada vindo da emigração do sul.

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