OPINIÃO

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A prepósito do histórico encontro Kim Jong-Un e D. Trump 13 Junho 2018

O regime da Coreia do Norte tem sabido chantagear, habilmente, os seus inimigos, bem como países como a China, para garantir a sua sobrevivência energética e alimentar. Mas desta vez conseguiu mais: garante a integridade territorial e condições para o desenvolvimento económico e trouxe o presidente dos EUA à sua mesa pois, D. Trump encontra-se fragilizado tanto internamente como tem somado derrotas no plano internacional.

Por: Joaquim Fernandes

A prepósito do histórico encontro Kim Jong-Un e D. Trump

Em 1945 quando as duas bombas foram lançadas em Hiroshima e Nagasaki, havia umas dezenas de especialistas em tecnologia nuclear em todo o mundo e estes viam ferreamente controlados todos os passos que davam fora de casa. Hoje não só é completamente impossível controlar os milhares de especialistas, como já ninguém dá conta por onde andam e em que armazém militar ou civil por este mundo fora, estão armazenados, plutónio e uranio enriquecidos, e em que quantidade.

Se aquelas bombas causaram danos cujos efeitos ainda hoje, 73 anos depois, se repercutem na saúde e sobretudo na mente dos nipónicos, hoje qualquer bomba é muitíssimo mais destrutiva. Alias, estudos indicam que 500 gramas de plutónio poderão, quase sem destruição física, deixar uma cidade com um milhão de habitantes, inabitável durante muitos anos.

Apesar dos atrasos no desenvolvimento económico, social e sobretudo tecnológicos da Coreia do Norte, são preocupantes os seus programas de produção de armamento nuclear, “o sucesso na miniaturização das suas ogivas e o aperfeiçoamento dos seus mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) e, bem pior, dos respetivos modelos para lançamento por submarinos (SLBM)” (Pedro Jordão, Público 11.09.17).

Pode Kim Jong-un convocar os mídia de todo o mundo a assistir à destruição do seu arsenal nuclear (certamente absoleto) cumprindo assim à luz do que até aqui sabemos, é seu dever contractual. Alguém acredita? Basta receber uma caixa como carga aérea, recomeça tudo de novo, com tecnologia actual.

O regime da Coreia do Norte tem sabido chantagear, habilmente, os seus inimigos, bem como países como a China, para garantir a sua sobrevivência energética e alimentar. Mas desta vez conseguiu mais: garante a integridade territorial e condições para o desenvolvimento económico e trouxe o presidente dos EUA à sua mesa pois, D. Trump encontra-se fragilizado tanto internamente como tem somado derrotas no plano internacional. Senão vejamos:
1. A primeira viagem ao estrangeiro do Presidente D. Trump foi à Arábia Saudita onde fez o maior negócio da venda de armas da História. A mesma Arábia que arma as forças extremistas na Síria, a Nasrua, o DAESH e a Al-Quaeda e dizimou o Iémen do Sul sem dó (pediram já desculpas).
2. Na Síria, na Turquia, no Iraque e um pouco no Irão, os EUA têm jogado e perdido com Putin, político sagaz e que tem equilibrado muito bem as vitórias políticas no exterior com a contestação interna nem sempre bem solucionadas.
3. Mas a razão porque acredito pouco nesta teatralização histórica entre Kim e Trump prende-se com os seus próprios desiquíbrios. Nenhum é de confiança e, ou muito me engano ou a próxima cena será a denúncia de incumprimentos da desnuclearização total da Coreia do Norte que, os até aqui surdo-mudos ocidentais nada opinaram. Da outra parte irão reclamar que seria a desnuclearização total da PENÍNSULA coreana, o que a meu ver não interessa aos EUA. E...
4. ...e aí entra a China (com a Rússia a acompanhar de longe).
Não terá sido por acaso, os avanços e recuos na marcação da data e local deste histórico encontro. De permeio, Marc Pompeo fez centenas de milhares de quilómetros e Kim Jong-un quebrou mais um dos pilares da milenar tradição da Dinastia Kim: O princípio do Autossustento. Não viajou de comboio como já fazia o avô e o pai Kim Jong-Il -viajou até Pequim e a Singapura de avião Air China-.
A China há muito que trava duras "batalhas" (não só diplomáticas) por umas ilhotas ao longo do Mar da China. Entre outras intenções economicistas, estão o alargamento das suas fronteiras marítimas por forma a garantir um corredor seguro para fazer chegar as matérias primas (petróleo, ouro, cobre...) vindas da África e do Sudoeste asiático, às suas maiores cidades industriais -Quindao, Dalin, Guangzhou, Shanghai ou Hong-Kong-, pulmões da sua pujante economia. Por estas e outras razões interessa muito à China a pacificação total da península coreana e ver ao longe os americanos.

5. Mas, por estas e outras razões (Coreia do Sul, Japão, ...), interessará pouco aos EUA que a China se agigante ainda mais, tanto no plano político-diplomático como geoestratégico, com tremendos retornos no plano económico. Quanto mais não seja porque neste tabuleiro jogam a correlação de forças chaves, vetores aliás importantes para a estratégia económica, geopolítica e militar dos EUA.

É inegável que o encontro em si constitui um sucesso diplomático. Um marco histórico nas relações.

Quem me dera estar errado quanto aos resultados práticos deste encontro histórico, para além dos habituais ganhos da Coreia do Norte, da maior aproximação ao irmão do Sul e à pacificação da península.

Face à loucura daqueles líderes, por enquanto a China vai esfregando as mãos de contente e o resto do mundo agradece.

https://www.publico.pt/…/coreia-do-norte-histeria-global-17…

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