OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

A sapiência do homem cabo-verdiano poderá estar sob dúvidas, caso não houver moderação nas tomadas de medidas de preservação das consideradas bases para o desenvolvimento económico do país 13 Dezembro 2020

Estamos vendendo e privatizando as nossas enxadas e terras aos visionários exteriores, para daqui a meio século os nossos herdeiros serem obrigados a lutar para resgatar o que pensarão ser deles por direito, assim como fazemos hoje em relação à salina de Pedra de Lume (Sal) e outros.

Por: Efrem Soares

A sapiência do homem cabo-verdiano poderá estar sob dúvidas, caso não houver moderação nas tomadas de medidas de preservação das consideradas bases para o desenvolvimento económico do país

A cultura que levou mais de 500 anos a ser construída, hoje encontra-se de baixo de sapiências cruzadas, em que predomina o domínio externo. O processo da nossa confirmação teve o seu inicio a mais de um século, com as emigrações para o continente europeu e não só, para países com menos influência na nossa formação cognitiva, que, a mais ou menos um século, começou a despertar reações reivindicativas com o surgimento dos escritores, criadores da cabo-verdianidade, para algum tempo depois vier a despoletar o surgimento dos independentistas, a pouco mais de meio século.

A nossa ação cognitiva foi criada, com a sapiência de dois continentes, europa/áfrica, durante esses largos 500 anos, onde estivemos na nossa formação identitária, debaixo da influência do principal progenitor da raça cabo-verdiana, (Portugal), que, por razões sobejamente conhecidas, permitiu que o cabo-verdiano se afirmasse, como um povo, com a sua identidade e cultura forjadas pelas condições naturais adversas da situação geográfica do país e pelas melhores condições encontradas em outras paragens conquistadas, no continente africano, nas américas e no continente asiático, que não ajudaram na fixação continua, principalmente da raça branca nas ilhas e mesmo da raça negra, cuja vinda aconteceu em condições forçadas.

Hoje, após quarenta e cinco anos da independência, por diversas razões, estamos colocando em risco o que nós e os nossos antepassados levaram todo esse tempo a construir, ao passarmos a não acreditar nas nossas capacidades e permitir fortes influências externas, através de surgimento de nativos de olhos gordos, que não estão sabendo lidar com as suas sapiências de formação, ao não usar toda a sua capacidade na transformação do próprio pais, usando inteligências naturais e adquiridas.

O homem, ao focar em demasia em obter rapidamente o que pensa não ter no imediato, coloca em risco toda a sua identidade cultural, que levou tempo a ser construída, dado ao elevado paladar de enriquecer num estalar de dedos, perdendo o próprio poder sobre as coisas, ao perder as faculdades de auscultar, enxergar, ponderar, partilhar e mesmo de pensar por si próprio, entregando até a sua própria alma, sem dar a mínima importância ao mal que provavelmente poderá estar a causar na sociedade que o gerou e fez crescer, apostando tudo nele para uma continuidade baseada no senso comunitário e nacional.

É assim que se vai desperdiçando as apostas dos nossos antepassados na criação de um país independente, territorial e cultural, na luta para tornar economicamente independente, sem por em causa os resultados já potencializados e adquiridos.
Brutalmente e teimosamente estamos a oferecer de bandeja aos visionários externos tudo o que provavelmente podemos construir, mesmo que com a participação externa, ao não valorizarmos as valências técnicas e científicas e mesmo a valentia e a tenacidade dos conterrâneos no pais e na diáspora na construção e preservação do nosso território e da nossa identidade.

Estamos nos oferecendo à escravidão consentida, por causa do dinheiro fácil, sem nos entregarmos á “luta”, trabalho, da forma com que fomos ensinados e, supostamente, são as próximas gerações, quem vão pagar a fatura, ao terem severos problemas em saber da sua formação identitária, por nossa culpa, ao não prestarmos a devida atenção na preservação da terra seca e desprovida de recursos naturais, mas de homens enraizados na terra de olhos virados para o céu, pedindo esperançosamente para a chuva cair, que conseguiram driblar o tempo e nos trazer valores importantes a serem continuados.

Por causa da nossa localização geográfica, o nosso clima hoje é cobiçado por muitos, dadas as mudanças climáticas, tendo como causa a poluição global, a nossa participação pode ser incontornável, dadas as condições climáticas ainda quase virgens, vimos sendo descobertos por muitos países, como um ponto no globo onde podem seguramente ter umas férias tranquilas e merecidas, para recuperação de energia, quiçá viver pós reforma no pais de destino, para além de beberem um pouco da nossa cultura que também tem algo a dar à cultura global, com a mestiçagem da nossa formação cultural.

Estamos vendendo e privatizando as nossas enxadas e terras aos visionários exteriores, para daqui a meio século os nossos herdeiros serem obrigados a lutar para resgatar o que pensarão ser deles por direito, assim como fazemos hoje em relação à salina de Pedra de Lume e outros.

Não que somos contra a globalização, na essência da união dos povos, na partilha de conhecimento e informações culturais, trocas comercias de bens e produtos de latitudes diferentes, da participação de povos de outras latitudes no nosso desenvolvimento, como vem acontecendo desde a longa data.

Mas defendemos a preservação da identidade cultural e territorial de cada povo, num ambiente de respeito mútuo, que deve prevalecer e dizemos não à escravidão baseada na usurpação de informações culturais, bem como na obtenção de bens e apropriação, através da corrupção de lavagem de capitais, fruto do suor de povos em diversas partes do mundo, corrompendo as normas emissoras e recetoras, com envolvências de tráficos de influências em ambos os lados, desencadeando formação da escravatura, consentido no lado mais vulnerável, dado ao nível de pobreza existente, tornando-a na pobreza extrema, misturada de uma aculturação forte que não deixa as pessoas enxergarem que estão sendo levadas para um beco sem saída, na miséria da periferia, dos ricos postiços , da ganância, a custa do próprio povo, que outrora vivia feliz e não sabia;

Se não ponderarmos em rever a postura do desenvolvimento, seremos obrigados a pagar amanhã pelo feito, porque a felicidade não vem com a riqueza.
O desenvolvimento sustentado, sem qualquer sustentabilidade, com um total desrespeito à natureza e às pessoas, trás as suas consequências que podem ser gravosas:
Será que estamos preparados para pagar a fatura do tão propalado “apocalipse” do desenvolvimento insustentável?
Pensemos bem nisso se é o propalado e enganoso que assistimos todos os dias que queremos!

Porque não arregaçarmos as mangas como os outros povos fizeram, para o desenvolvimento do nosso país? Sem ter que passar por esta via! Para quê tanta pressa! Como se o mundo irá acabar amanhã! E se fosse, o que adiantaria! Se for esta a razão da nossa preocupação, acho que mais vale rezarmos pela transcendência, prestando mais atenção ao planeta terra que protege e protegeu milhares de gerações, de várias gerações cognitivas até chegar ao sapiens, que somos os mais agressivos de todos em relação ao nosso habitat onde tudo é nos dado gratuitamente, e tornamos a ser a espécie humana mais possessiva de todo os tempos, querendo controlar tudo e destruir o que o superior construiu, perdoa-nos Deus nosso Senhor, nos abençoe, nos proteja e livrai-nos do mal, amem.

Abraços salenses e da cabo-verdianidade!

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