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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

AN: Intervenção da líder da oposição Janira Hopffer Almada no debate sobre crescimento sustentável 30 Maio 2019

O crescimento económico, quando é real e resulta da dinâmica da economia, não precisa ser anunciado, nem publicitado e muito menos propagandeado… porque é sentido, no dia-a-dia da vida das pessoas. A situação nua e crua é que os cabo-verdianos não sentem os impactos do crescimento económico na sua vida real e não se deixam embalar pela sua ruidosa propaganda de mau gosto que quer vender ilusões e comercializar consciências.

AN: Intervenção da líder da oposição Janira Hopffer Almada no debate sobre crescimento sustentável

Intervenção da líder da oposição Janira Hopffer Almada no debate sobre crescimento sustentável na AN

Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhores Deputados,
Senhores Membros do Governo,

Todos os cabo-verdianos, sem excepção, querem um Cabo Verde Melhor!
Todos os cabo-verdianos, de todos os cantos e de todas as idades, querem um país a crescer, a se desenvolver e a prosperar, para que, aqui neste chão, 43 anos depois da Independência destas ilhas, possa se realizar, sem pensar em sair, e aventurar-se no sonho de sair para “terra longi”, procurar uma vida melhor!

Senhor Primeiro-Ministro,

Todos nós queremos um Cabo Verde que, aproveitando a sua localização geoestratégica, possa se erigir, nesse mar que nos inspira e nesse mundo que nos rodeia, e se transformar numa Plataforma Internacional de prestação de serviços.
A transformação de Cabo Verde numa Plataforma de referência, de prestação de serviços, foi proposta pela Governação anterior, na sua Agenda de Transformação que lançou as bases para uma ampla e profunda infraestruturação, a partir da qual o país passou a sonhar mais, a querer mais e a ambicionar mais.

Agenda de transformação suspensa

A agenda de transformação teve um impacto tão grande no país, que, ainda hoje, embora com roupagens diferentes, continua a marcar as principais orientações estratégicas.

Mas as ideias, por mais brilhantes que sejam não darão frutos se não forem enquadradas dentro de uma visão, com estratégias bem definidas e com uma missão clara, que integra e envolva todos os cabo-verdianos. É desejável que essa visão se concretize em medidas de política e reformas. E essas medidas e reformas devem ser assumidas e implementadas de forma estratégica e integrada, para que possam ter os impactos que Cabo Verde precisa e nos conduzir ao desenvolvimento sustentável com que todos nós sonhamos.

Crescimento sem impacto na vida das pessoas

Senhor Primeiro-Ministro,

É evidente que, para alcançarmos o desenvolvimento, teremos de garantir o crescimento económico.

Mas, tão importante quanto o país crescer, é garantir que esse crescimento é sentido por todos.

Tão importante quanto crescer economicamente, é garantir a redistribuição da riqueza gerada.

E garantir a redistribuição da riqueza gerada, é garantir que cada cabo-verdiano sente que a sua vida está a melhorar, com mais empregos dignos, com mais rendimentos, com mais e melhor acesso à saúde e à educação, com melhores condições de transporte, com mais e melhor habitação, e com mais segurança.

Crescimento sem cumprir promessas da campanha

Para o PAICV é importante sim, que o país cresça! Claramente, a conjuntura mundial, hoje, é muito mais favorável que antes, permitindo muitos países atingir taxas de crescimento extraordinárias. Mesmo assim, estamos longe da promessa de crescimento de 7% ao ano, que o Senhor fez aos cabo-verdianos, e que, agora, quer recalibrar.

O crescimento económico – por maior que seja – só tem impacto na vida das pessoas, quando há uma perspetiva de inclusão!

Só através de um crescimento inclusivo, estaremos a caminhar para o desenvolvimento com que sonhamos!

Mais importante do que dizer aos cabo-verdianos que o país está acrescer, é cada cabo-verdiano sentir que a sua vida está a melhorar!

Crescimento sem transformar o país como destino turístico

Senhor Primeiro-Ministro,

A infraestruturação física e económica do país fez com que, de há alguns anos a esta parte, o Turismo se tenha erigido como o motor da nossa Economia, sendo responsável por cerca de 24% do PIB.

Hoje, e para além de pretender aumentar o número de turistas, temos de ambicionar mais.

Falar do crescimento económico, hoje, é também falar de um destino turístico que seja de referência e, nesse aspecto temos que agir rapidamente e de forma sustentável no sentido de qualificar o nosso destino turístico.

Falar de crescimento económico, hoje, é também falar da diversificação da nossa economia!

É chegado o momento de passarmos do discurso à prática e demonstrarmos se, de facto, estamos a trabalhar para transformar Cabo Verde num destino de referência.

Ligações áreas e marítimas mais caras e difíceis

Senhor Primeiro Ministro,

Ponha a mão na consciência, olhe os cabo-verdianos nos olhos e responda com sinceridade: Por aqui, estamos a trabalhar para qualificar o nosso destino turístico?

Hoje, estamos a dinamizar a economia do turismo em todas as Ilhas? Como, se por exemplo, hoje e para Santo Antão, temos menos oferta de transporte que há dois anos atrás? Hoje, estamos a promover os destinos internos? Como, se as ligações estão cada vez mais difíceis e as passagens cada vez mais caras? Como, se para se chegar a São Nicolau se paga mais de 30 mil escudos?

Hoje, estamos a aumentar as ligações de Cabo Verde com o mundo? Estamos a diversificar as nossas fontes de turistas? Como, se S. Vicente o segundo centro populacional do País já nem sequer tem ligações diretas, feitas pela Companhia Nacional?

Crescimento sem mobilização de água e agricultura

Senhor Primeiro-Ministro,

É chegado o momento de, também, analisarmos se o Turismo está a crescer segundo o seu potencial e se está a “puxar” outros sectores estratégicos da nossa economia.
Por aqui, estamos a estabelecer a ligação do Turismo com outros sectores estratégicos? Com a Agricultura, com as Pescas ou com a Cultura?

Falar de um crescimento económico que seja inclusivo e sustentável, é falar também da empresarialização no sector do Agro-negócios!

Que medidas estão a ser tomadas para se garantir a modernização da agricultura e o aumento da produção, para satisfazer as demandas do mercado interno, turístico e até da Diáspora? Estamos a conseguir reduzir as importações? Estamos a apostar na mobilização de mais água, com a construção de mais infraestruturas hidráulicas, com o ordenamento de mais bacias hidrográficas e com mais apoio aos agricultores na modernização do sistema de rega? Estamos a estimular a organização da produção agro-pecuária e o desenvolvimento da cadeia de valores? Não podemos pretender o crescimento económico inclusivo, mergulhando no mais profundo abandono um sector tão importante como a agricultura!

Crescimento sem conexão com cultura e pescas

Senhor Primeiro-Ministro,

É, igualmente, importante apostar na modernização do sector das pescas!
Mas, 3 anos depois, que modernização se está a fazer no sector das pescas?
Já se avançou com o mapeamento das infraestrutura de apoio às pescas? Já foram identificadas as necessidades a nível da construção e/ou da requalificação? O que se está a fazer para promover a pesca industrial e semi-industrial? Que medidas existem para se garantir a renovação da nossa frota, para aumentar o potencial de captura?
Que investimentos existem a nível do processamento e transformação de pescado?

Não há crescimento económico inclusivo quando se faz apenas gestão corrente de um Sector como o das pescas. Ainda por cima quando se fragiliza a regulação, como aconteceu com a extinção da AMP.

E a nossa Cultura, o maior elo de ligação e de definição da nossa cabo-verdianidade, em qualquer parte do mundo…
Que ligações estão a ser facilitadas entre a cultura e o turismo? Até que ponto o país está a ganhar com o grande potencial cultural material e imaterial de conteúdo criativo e valor económico, abrangendo todos os sectores que envolvem a criação, assim como os produtos e serviços ligados à fruição e difusão? Estamos, de facto, a conseguir acrescentar valor ao nosso turismo, através da cultura?

Crescimento só na propaganda e destruição de 15 mil empregos

Senhor Primeiro-Ministro,

O Governo propala que o país está, hoje, a crescer 5 vezes mais do que estava há 3 anos atras! Mas, hoje, 3 anos depois, confirma, sem pestanejar e sem gaguejar, que a vida dos cabo-verdianos está a melhorar? Têm mais empregos dignos, hoje, quando já foram destruídos 15 mil empregos em 2 anos e 57% das pessoas pensa em emigrar? Sentem que há mais igualdade, quando já não existem concursos públicos para cargos de chefia e as Instituições, ao invés de contratar jovens, colocam-nos como estagiários? Sentem que têm mais acesso à água e à electricidade, quando os custos aumentaram e os salários se mantiveram iguais para a grande maioria das pessoas? Sentem que conseguem circular melhor entre as ilhas, e das ilhas para o mundo, quando as ligações diminuíram e as passagens atingem preços proibitivos?
Sentem que a educação está mais acessível, quando se dá a isenção de propinas e, ao mesmo tempo, se corta nos subsídios da FICASE e não se garantem transportes regulares para os alunos? Sentem que a saúde é um direito e não um luxo, quando pagam exames de 30.000$00 e esperam mais de 6 meses por uma evacuação?

O crescimento económico, quando é real e resulta da dinâmica da economia, não precisa ser anunciado, nem publicitado e muito menos propagandeado… porque é sentido, no dia-a-dia da vida das pessoas.

A situação nua e crua é que os cabo-verdianos não sentem os impactos do crescimento económico na sua vida real e não se deixam embalar pela sua ruidosa propaganda de mau gosto que quer vender ilusões e comercializar consciências.
Todos sabem que o mais importante, o que interessa mesmo, é ver o País a crescer, o desenvolvimento a chegar e a condição de vida das pessoas a melhorar.

Muito obrigada!

Janira Hopffer Almada, Presidente do PAICV (Praia,29 de Maio, Assembleia Nacional)

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