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Académico cabo-verdiano defende diálogo para acabar com conflitos religiosos em África 31 Janeiro 2023

O historiador Jairzinho Lopes Pereira, o primeiro cabo-verdiano a entrar para a Academia Portuguesa de História (APH), elogiou hoje o exemplo entre Estado e Igreja em Cabo Verde e defendeu diálogo para acabar com conflitos religiosos em África.

Académico cabo-verdiano defende diálogo para acabar com conflitos religiosos em África

“Apostar na promoção do diálogo inter-religioso deve ser sempre uma prioridade, porque uma das verdades fundamentais do cristianismo é que todos somos criaturas de Deus. Portando, aí está o pilar da nossa fé”, defendeu o académico, em declarações à Lusa, na cidade da Praia, no âmbito de uma conferência internacional sobre o Governo episcopal no Império Português, realizada nas comemorações dos 490 anos da criação da Diocese de Santiago de Cabo Verde.

A diocese de Santiago de Cabo Verde é precisamente a primeira diocese moderna em África, considerada um exemplo, onde o académico ressaltou que as disputas não impedem entendimentos, cooperação e até convivência entre as diversas confissões religiosas.

“Eu tenho dito que em Cabo Verde as relações entre o Estado e a Igreja são exemplares, não vejo nenhum problema de maior, não há grandes interferências e nós temos um país onde a liberdade religiosa é respeitada pelos poderes civis”, constatou.

Entretanto, o mesmo não acontece um pouco pelo continente africano, onde são muitas as disputas religiosas, com a mesma fonte a insistir na necessidade de cada um fazer o seu trabalho da melhor forma possível, cumprir os seus deveres, procurando evitar interferências desnecessárias ou nocivas.

A Igreja tem o seu campo de atuação, o Estado tem o seu campo de atuação e devemos começar por aí, respeitar as áreas e jurisdições e cada um que faça o seu trabalho”, pediu o investigador, que coordenou a edição de um livro sobre as relações entre a Igreja e o Estado em África nos séculos XIV e XX.

Uma das razões para esses conflitos em África, constatou, é o facto de ainda em muitos países o secular e o religioso, o civil e o eclesiástico terem uma linha de separação muito difícil de se traçar, levando a perda de estabilidade nos Estados.

É claro que quando os Estados interferem nas questões religiosas ou as igrejas interferem em questões de natureza política, cria-se uma situação pouco desejável e que não abona a favor da prosperidade das Nações”, lamentou.

A abertura da conferência, organizada pela Biblioteca Nacional de Cabo Verde, serviu para a imposição do colar de Académico Correspondente da Academia Portuguesa de História (APH) ao Jairzinho Lopes Pereira, que se tornou no primeiro cabo-verdiano a entrar para essa academia portuguesa.

Relativamente à essa distinção, o académico disse à Lusa que tem a sensação de “dever cumprido” e que é o reconhecimento do seu trabalho por parte dos seus pares.

Reconhecem o meu trabalho, valorizam aquilo que faço, daí a distinção”, afirmou, entendendo, por outro lado, que é uma distinção que lhe traz uma “carga adicional” de responsabilidade.

E uma das milhas prioridades é, seguramente, prezar este meu lugar para promover um diálogo, uma linha de atuação, de cooperação, de colaboração entre a Academia Portuguesa da História e academia aqui em Cabo Verde”, prometeu.

A imposição deste que é um dos mais almejados galardões do mundo académico foi feita pela presidente da APH, a professora Manuela Mendonça, que lembrou que Jairzinho Pereira foi admitido há quase dois anos e que foi a própria a sugerir a atribuição do colar na sua terra natal.

Para a presidente, mas do que reconhecer o mérito do trabalho realizado até agora pelo estudioso cabo-verdiano, a distinção serve também para trazer a história comum entre Portugal e Cabo Verde para a atualidade.

A Academia Portuguesa de História completou 300 anos em 2020 e a presidente sugeriu a criação de semelhante instituição em Cabo Verde, para poder estabelecer relações com a congénere portuguesa, uma ideia que Jairzinho Pereira considerou que ainda vai levar muito tempo, devendo começar pela criação do primeiro curso de História no país.

Jairzinho Lopes Pereira é licenciado em História pela Universidade de Coimbra, mestre em Ciência Política pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Lovaina (Bélgica) e doutorado em Teologia Sistemática pela Faculdade de Teologia da Universidade de Helsínquia (Finlândia).

Investigador numa universidade norueguesa e da Universidade Católica Portuguesa, tem como principais áreas de interesse e investigação as relações entre a Igreja Católica e a Escravatura em África, com destaque para Angola, Congo Belga e Cabo Verde, Teologia política; História da Igreja em Cabo Verde. A Semana com Lusa

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