POLÍTICA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Agostinho Lopes e a remodelação do Governo: Há uma percepção clara de falta de coordenação política entre responsáveis pela governação 24 Dezembro 2017

Agostinho Lopes, antigo presidente do MpD (2002-2008), põe a boca no trombone e resolve fazer a sua analise sobre as recentes mexidas no Governo de Ulisses Correia e Silva. Lopes critica que pela forma como a remodelação foi feita, fica evidente que o Primeiro-ministro reconhece os sinais vindos da sociedade, sublinhando que na verdade “há sinais na sociedade de que as coisas não estão bem”. Para o politico na retirada estratégica, o momento escolhido para as mexidas também é o reconhecimento de que “há um limite para além do qual a imagem coletiva começa a ser afetada pelo desempenho de alguns”. O ex-líder ventoinha adverte que “há uma percepção clara de falta de coordenação politica entre os diversos subsistemas responsáveis pela governação”. Estas declarações foram feitas na sua página do Facebook.

Agostinho Lopes e a remodelação do Governo: Há uma percepção clara de falta de coordenação política entre  responsáveis pela governação

Em relação a mexida no Governo, Lopes diz que foi “sem surpresas, já que há muito estava sendo esperada esta primeira remodelação governamental desta IX legislatura. Chegou quase vinte meses depois e creio que era tempo de se refrescar a equipa. Nenhuma equipa é suficientemente coesa e eficaz para resistir ao tempo. E na política, especialmente no governo, o tempo desgasta, corrói e provoca autismos.”, sublinha.

Por isso, Lopes entende que a injeção de sangue novo, no decorrer da legislatura, proporciona ideias novas: um redefinir de posições e, normalmente, recompõe os cenários. Pode ainda, segundo ele, constituir oportunidades de reflexão sobre os resultados conseguidos, a meio percurso.

Para o ex-líder do MpD, o momento escolhido para remodelação do acutal governo de Ulisses Correira e Silva é também o reconhecimento de que há um limite para além do qual a imagem coletiva começa a ser afetada pelo desempenho de alguns. “Na verdade, há sinais na sociedade de que as coisas não estão bem. As reclamações são sectoriais e mais vincadas nos desempenhos da Educação, das Indústrias Criativas e Comunicação Social, da Saúde, das Infraestruturas, da Economia e Emprego e dos Negócios Estrangeiros”, escreve na sua página do Facebook.

O antigo presidente do partido ventoinha diz ainda que, pela forma como a remodelação foi feita, “fica evidente que o Primeiro-ministro reconhece os sinais vindos da sociedade; mas entende que um rearranjo na distribuição das pastas, um reforço político do elenco, serão bastantes para melhorar a perceção global do desempenho governativo. Veremos se assim é”.

Segundo a mesma fonte, fica, no entanto, claro que “a ideia de um governo pequeno em Cabo Verde só tem pernas para andar se ela for seguida de uma profunda reforma do Estado, especialmente da administração pública.

O politico ressalva que, “a nossa administração pública está formatada para servir um regime de partido único; em que os seus quadros dirigentes têm que ser militantes partidários para se sentirem motivados - precisam de orientação administrativa e não têm poderes de decisão próprios para gerir os seus departamentos operacionais. Muitas vezes pequenas decisões de gestão financeira, patrimonial e de recursos humanos, precisam de orientação/anuência do Ministro ou do Secretário de Estado, aumentando grandemente o grau de burocracia e de dependência funcional. O acesso aos lugares cimeiros depende da cumplicidade política e do grau de influência que o chefe pode ter com e sobre o candidato.”, refere.

Na optica de Agostinho Lopes, “a subsistência no cargo não depende do bom desempenho, da capacidade de gestão correta e legal da coisa pública ou do cumprimento de um hipotético cahier de mission, mas das boas ou más relações pessoais que se pode cultivar e manter com o senhor ministro. Com uma administração pública assim formatada não há pequeno governo que resista. Aliás, todos os primeiros-ministros de Cabo Verde democrático optaram por governos pequenos, no início dos primeiros mandatos. Mas nenhum resistiu à pressão da ineficiência administrativa e nenhum teve coragem para meter mão na massa e reformar verdadeiramente a nossa administração pública. O problema não está nas pessoas mas sim nos conceitos filosóficos de base e nos métodos instituídos. É o sistema. Este, muitas vezes sem querer, é obrigado pelo sistema a se envolver em questões de gestão corrente que lhe absorve tempo e lhe limita na sua capacidade para governar e decidir sobre as coisas que importam.”

No seu entender “com uma administração pública assim formatada não há pequeno governo que resista. Aliás, todos os primeiros-ministros de Cabo Verde democrático optaram por governos pequenos, no início dos primeiros mandatos. Mas nenhum resistiu à pressão da ineficiência administrativa e nenhum teve coragem para meter mão na massa e reformar verdadeiramente a nossa administração pública.” Para Lopes, “o problema não está nas pessoas, mas sim nos conceitos filosóficos de base e nos métodos instituídos. É o sistema.”

Lopes entende que a solução “passará por realizar esta reforma num ambiente de governo médio/gordo e só depois optar por um governo pequeno. Depois de feito o trabalho de casa, aí sim, deve-se rever a constituição e nela fixar a dimensão dos governos em Cabo Verde. Não será tarefa fácil! Mas ou a fazemos ou então esqueçamos de vez esta estória de governos pequenos.”

Lopes aplaude criação de um Ministério de Integração Regional

O ex-líder ventoinha comenta também outra dimensão desta remodelação é a criação de um Ministério de Integração Regional, que aplaude. “Creio que ele terá como tarefa fundamental traçar e executar políticas que reforcem a nossa integração e ação nos espaços regionais em que estamos inseridos: a CEDEAO, os PALOP, a CPLP, a cooperação entre as ilhas da Macaronésia e demais. Me parece lógico que a remodelação em análise já vem sendo pensada há meses. Mas acredito também que o recente desaire na luta pela presidência da Comissão da CEDEAO, tenha influenciado a criação deste ministério.É bom, porque Cabo Verde ou assume a sua pertença à CEDEAO e tira dela todas as vantagens que a pertença a um espaço deste proporciona, ou então sai.Não faz sentido continuarmos na CEDEAO só para pagar quotas”, remata, afirmando que esta esta opção governamental passa a mensagem clara de que este governo assume a CEDEAO, está disposto a lutar para se impor e melhorar a visibilidade do nosso País dentro da organização.

“Na verdade, pouco sabemos da CEDEAO e pouco sabem de nós, na maioria dos países da região. Existimos ao lado, não temos capacidade para influenciar nada, praticamente não beneficiamos dos projetos regionais estruturantes, não aproveitamos o mercado, não desenvolvemos parcerias económicas e empresariais, o comércio de e para a CEDEAO é insignificante, as nossas trocas culturais são quase nulas e a circulação de pessoas é deficiente e problemática. O Estado de Cabo Verde não tem dado a devida importância e relevância a esta questão e muitas vezes vemos os países da CEDEAO com desconfiança e preconceito”, afirma.

Má comunicação do Governo comunica e falta de coordenação política

Como uma uma última nota neste rescaldo, Lopes analisa que, neste período de vinte meses já cumprido nesta legislatura, ficaram evidentes duas coisas: primeiro, este Governo comunica muito mal: não consegue passar as suas mensagens e não raras vezes aparece para simplesmente responder a comunicados ou conferências de imprensa dos partidos da oposição; está permanentemente na defensiva; as suas ações só são apreendidas pela população numa fase avançada de execução ou quando já terminadas; a agenda do governo não é convenientemente publicitada e sua ação política é permanentemente dinamitada pela falta de comunicação. Muito do desgaste sofrido deve-se à ausência de uma estratégia de comunicação clara e eficaz.

O segundo ponto, na ótica do Agostinho Lopes, tem a ver com a flata da coordenação da atividade governativa. “Há uma percepção clara de falta de coordenação politica entre os diversos subsistemas responsáveis pela governação. O governo parece a funcionar de per si; o grupo parlamentar do MpD demonstra alguma fraqueza na sua organização interna e na sua relação institucional; o MpD – partido, tem problemas de organização interna e de liderança local e central; não motiva os seus militantes; há uma sensação de orfandade por abandono.Todas estas duas situações clamam por atenção e resoluções no sentido da melhoria. A boa governação depende de um bom governo, com uma boa estratégia, com as pessoas certas nos lugares certos, com uma boa comunicação e uma coordenação politica efetiva.

Por fim, esta é a primeira remodelação de Ulisses Correia e Silva. "Espero que não haja outra. Seria um sinal que acertou, de que não houve imprevistos pelo caminho, de que o desempenho governativo melhorou e de que a população esteve satisfeita nas suas necessidades essenciais”, conclui o ex-presidente do MpD na sua página de Facebook.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade
Cap-vert
Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project