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Alemanha: Polícias espancam na U.Bona judeu professor-visitante de universidade americana 18 Julho 2018

O professor Yitzhak Melamed, da Universidade Johns Hopkins, foi brutalmente espancado em Bona na última quarta-feira, 11, "por quatro ou cinco polícias", horas antes de ir dar uma palestra (a que chegou atrasado). No dia seguinte, ele estava na primeira-página ’por desacato à autoridade’.

Alemanha: Polícias espancam na U.Bona  judeu professor-visitante de universidade americana

A ocorrência mereceu a atenção de vários media internacionais e o académico sentiu-se “na obrigação de relatar tudo” na sua página na rede social “para responder a todos, porque tenho agora de me ocupar com o meu trabalho e a minha família”.

O seu relato minucioso põe em xeque a atuação da polícia de Bona, não só dos que o espancaram mas também da chefia que após lhe ter expressado a sua solidariedade visitando-o no hotel, no dia seguinte à agressão presta declarações à imprensa em que o agredido passa a agressor que resistiu à autoridade.

“O relatório está repleto de mentiras evidentes visando encobrir tanto a brutalidade como a ineficiência da polícia de Bona em 11 de julho”, escreve Melamed.

“És judeu”, provocou-o um palestino — Polícias confundem-no com provocador

O professor Melamed relatou minuciosamente o incidente no Jardim Botânico: "Um homem robusto com cerca de 1,60 m" perguntou-lhe, em alemão, se era judeu e à resposta “sim” apresentou-se como palestino. “Comecei a dizer (em inglês) que tenho simpatia pela situação dos palestinianos e lamento profundamente o atual estado deprimente das relações islâmico-judaicas”.

O palestino começou então a dizer-lhe, em inglês, que odiava judeus. Preferindo ignorá-lo, Melamed virou-lhe as costas sem responder. Mas o provocador não desistiu e atirou-lhe para o chão o “yarlmulka” (kipá. N.B. espécie de chapéu a simbolizar a fé no judaismo) “gritando em alemão que na Alemanha não sou autorizado a usá-lo”. Por três vezes o kipá foi atirado ao chão e reposto na cabeça, o que deixou o provocador ainda mais furioso.

Ante a continuada provocação “pelo menos, 20 minutos”, a colega (que o guiava pela universidade e cidade que visitava pela primeira vez) pediu que alguém chamasse a polícia. Havia muitas pessoas no local, pois eram cerca de duas da tarde.

“Ao ouvir a sirene, o atacante moveu-se devagar, e depois fugiu”. Para evitar que ele escapasse, já "que ele correra uns 400 metros", Yitzhak Melamed "depois de alguma hesitação comecei a correr atrás dele, para que eu ainda pudesse mostrá-lo à polícia”.

Foi então que “o atacante tirou a camisa”. Essa estratégia resultou: “Depois de três metros vi uns dois ou três polícias a correr na direção oposta, a passar pelo atacante, e a correr ... na minha direção”.

“Não tive muito tempo para me perguntar porquê, já que em segundos tinha quatro ou cinco polícias a saltarem sobre mim (dois pela frente, dois ou três pelas costas). "Atiraram-me ao chão, e de imediato enquanto eu estava totalmente imobilizado e incapaz de respirar, bateram-me no rosto. Depois de umas dezenas de socos, comecei a gritar em inglês que eu era a pessoa errada”.

Ainda no chão, algemaram-no. Deram-lhe ainda “algumas dezenas de socos adicionais”, enquanto ele continuava a gritar que eles se tinham enganado na pessoa”. Algemado e no chão pôde enfim pedir-lhes para verem os seus documentos. Enquanto o faziam, o infeliz deu-se conta que lhe tinham quebrado os óculos e o relógio.

“Ao fim de mais 5 ou 10 minutos, eles perceberam o seu erro”. Então um dos polícias aproximou-se . “Tirou-me as algemas, e disse-me que capturaram a pessoa que nos atacou”.

Nova reviravolta: “Já não tenho medo da polícia alemã…infelizmente”

Mais estava para vir, agora era a polícia a provocar Yitzhak Melamed: “Os mesmos polícias gritaram comigo em um tom didático (em inglês): «Não procure mais sarilhos com a polícia alemã!». A isto a vítima reagiu mal, dizendo com ironia: "Eu, já não tenho medo da polícia alemã. A polícia alemã assassinou o meu avô. Assassinaram a minha avó. Assassinaram o meu tio, e assassinaram a minha tia. Tudo num único dia, em setembro de 1942. Então, infelizmente, já não tenho medo deles”.

Os polícias levaram-no à esquadra, com a colega a acompanhá-los, para prestarem depoimento. “Pedi para apresentar uma queixa contra os polícias que me bateram”. Em vão tentou “durante uma hora e meia”, pois os polícias tentavam convencê-lo a não formalizar a queixa. “Eles pediram desculpas, disseram que foi um erro”.

O académico argumentou que o erro era evidente, que nada podia justificar as dezenas de socos num homem imobilizado. “Então, um dos polícias tentou convencer-me que eu «toquei na mão dele» e por isso eles reagiram”. A nova versão dos factos indignou-o, tanto mais que eles estavam a dois metros dele e não tinha havido nenhum contacto físico antes, e respondeu ”que era uma mentira total”. Um dos polícias tentou convencê-lo de “que era talvez um instinto meu do qual eu não estava ciente”.

“Essa conversa surreal em que eles continuaram a tentar convencer-me que por virtude de algum reflexo ou instinto eu toquei na mão de um dos polícias e que essa foi a justificativa para a surra, correu por bastante tempo. Depois, começaram a insinuar que se eu apresentar queixa contra eles, vão acusar-me de resistir à prisão".

Por fim, conseguiu apresentar queixa, numa outra delegacia. “Aí o polícia foi muito mais cortês. Ao ver-me a sangrar perguntou: «Isto é o que esse bandido lhe fez?» E eu respondi: «Não, senhor, a verdade é só uma: Foi isso que a polícia alemã fez comigo». Ele cobriu a cara com a mão e disse: «Ah, não», depois foi falar com os seus supervisores, voltou, recebeu o meu depoimento. Perguntou se eu queria apresentar uma queixa contra a polícia. Eu disse-lhe que não tenho nada de pessoal contra nenhum dos polícias, e que não tenho planos para nenhuma futura interação com a polícia de Bona. No entanto, acrescentei que como cidadão alemão ele deve ter interesse em erradicar a brutalidade policial, principalmente quando se trata de estrangeiros e minorias”.

Fontes: DW.de/ Times of Israel/Facebook de Yitzhak Melamed. Foto (Getty) —O incidente com contornos não só alegadamente antissemitas, além de brutalidade policial teve lugar nos jardins da U. de Bona.

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