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Analistas consideraram que Armando Gebuza agudiza rutura com Nyusi 25 Janeiro 2023

Analistas moçambicanos consideraram hoje que as declarações públicas do ex-Presidente Armando Guebuza estão a agudizar a rutura com o atual chefe de Estado, Filipe Nyusi, mas sem riscos de cisão na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

Analistas consideraram que Armando Gebuza agudiza rutura com Nyusi

“A Frelimo é um instrumento através do qual [os seus membros] se enriquecem e constroem redes de interesses clientelares, é uma máquina fundamental para a sobrevivência de todos eles”, assinalou o politólogo Régio Conrado.

O académico e analista moçambicano desvalorizou, por isso, o risco de as clivagens no partido no poder, desde a independência, levarem a uma cisão.

No entanto, sublinhou que as posições de Guebuza cavam um afastamento que se “consumou há muito tempo”, entre ele e Nyusi.

Ndambi Guebuza, filho do ex-Presidente, anunciou recorrer depois de ter sido condenado as 12 anos de cadeia no julgamento das dívidas ocultas, com o advogado a queixar-se de perseguição em que o alvo é o pai.

Mais recentemente, Armando Guebuza reafirmou a tese, ao intervir num evento alusivo aos seus 80 anos, na sexta-feira, em que deixou um aviso: "se o colonialismo português não conseguiu calar-nos, vencer as nossas convicções, não são os nossos camaradas que o vão conseguir fazer".

Régio Conrado considerou que as declarações revelam um sentimento de traição em relação ao seu sucessor na liderança da Frelimo e do Estado moçambicano, Filipe Nyusi, pelo facto de este não ter travado o processo que levou à condenação de Ndambi.

Por outro lado, “Armando Guebuza não conseguiu aceitar que hoje não é mais o Presidente de Moçambique, que já não é a pessoa chave que determina o decurso da história, do seu partido e do país”, depois de ter governado durante 10 anos, afirmou Conrado.

Por seu turno, Lázaro Mabunda, investigador em Ciências Políticas, também defendeu que Guebuza declarou uma “guerra aberta dentro da Frelimo”, porque se sente “traído” pelo atual chefe de Estado, para cuja ascensão ao poder se empenhou pessoalmente.

“Não vejo qualquer possibilidade de uma aproximação entre o Presidente Nyusi e o ex-Presidente Armando Emílio Guebuza, porque este é um conflito antigo”, que começa com a detenção de Ndambi Guebuza, em 2019, seguido da condenação em dezembro de 2022, assinalou Mabunda.

O antigo chefe de Estado estava na expectativa de que Filipe Nyusi iria contornar a pressão da comunidade internacional para o julgamento do processo das dívidas ocultas, porque os dirigentes da Frelimo e seus familiares sentem-se “intocáveis”, continuou.

“Um partido como a Frelimo sempre vive de negociações internas antes da tomada de decisões que vão afetar, sobremaneira, a coesão dentro do próprio partido”, enfatizou.

Face ao “encurralamento” a que foi sujeito pelos doadores e instituições financeiras internacionais, Filipe Nyusi deixou que as instituições judiciais fizessem o seu trabalho, levando à condenação do filho mais velho e de antigos colaboradores de Armando Guebuza.

Lázaro Mabunda observou que, por enquanto, o poder de Nyusi na chefia do Estado e da Frelimo não está em causa, porque controla a máquina estatal, os recursos e a economia do país.

“Ele, neste momento, é o Presidente da República e, no contexto africano, controla as finanças do Estado”, dispondo assim de “melhores condições para liderar os processos a seu favor”, destacou.

Fernando Lima, jornalista e analista, considerou que o discurso de Armando Guebuza tem uma componente emocional, de alguém ferido por ter visto a sua filha assassinada e ter o primogénito condenado, e uma componente política, por se sentir desprotegido pela cúpula do partido que dirigiu.

“Armando Guebuza deixou sempre claro que está em profundo desacordo com o facto de se ter permitido que uma entidade estrangeira fizesse a auditoria forense que levou ao julgamento do caso das dívidas ocultas e à consequente condenação do filho e de outros arguidos que lhe são próximos”, salientou Lima.

A fúria do antigo Presidente da República não é tanto por acreditar na inocência do filho, mas por entender que foi feita uma justiça seletiva, visando a sua família, concluiu.

As últimas declarações de rutura, feitas por Guebuza na sexta-feira, aconteceram horas depois de Nyusi lhe ter endereçado uma mensagem de parabéns pelos 80 anos.

"Parece que Armando Guebuza não reagiu bem à primeira tentativa de aproximação", escreveu o Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD) numa nota de análise.

Os dois "estão numa indisfarçável zanga de comadres, sendo a causa imediata o rumo que tomou o escândalo das dívidas ocultas", concluiu.

A Semana com Lusa

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