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Angola: 1 morto e mais de cem detidos em manifestação contra governo 28 Fevereiro 2018

101 pessoas detidas, oito feridos, e pelo menos um morto, atingido a tiro na cabeça é, segundo o ’Movimento do Protectorado Lunda-Tchokwe’, o balanço da manifestação na região diamantífera das Lundas – Norte e Sul, no último fim de semana.

Angola: 1 morto e mais de cem detidos em manifestação contra governo

As detenções começaram antes do protesto, durante a madrugada, nas residências dos responsáveis do Movimento: "No Cuango e em Capenda-Camulemba [Lunda Sul], muitos foram apanhados dentro das suas próprias casas. Em Cafunfu [Lunda Norte], na sua maioria, foram detidos na manifestação por volta das 8h00” , segundo o líder da organização, José Mateus Zecamutchima.

O responsável contabiliza ainda "8 pessoas feridas, entre as quais duas em estado grave, por terem sido atingidas com bala de fogo". As forças de segurança abriram fogo contra cerca de 4 mil manifestantes em Cafunfo. Os oito feridos terão sido levados para a única esquadra policial da localidade, alegadamente sem receber assistência médica.

Vítima mortal, Estêvão Aroma, de 25 anos, que baleado na cabeça, faleceu estando preso na esquadra, segundo Zecamutchima. Um outro detido, André Zende, teve a sua casa totalmente destruída pela Polícia de Intervenção Rápida (PIR) quando o foram prender. "Outro cidadão que está num estado lastimável é o senhor Cândido Mwanhende”, diz o presidente do Movimento, que acusa a polícia de torturar o manifestante.

Prossegue a "caça ao homem”

Neste momento, segundo relatos recolhidos pela DW África continua a "caça ao homem” contra todos aqueles que se identificam com o Movimento do Protectorado, numa operação coordenada entre a Polícia Nacional da Ordem Pública, a Polícia de Intervenção Rápida (PIR) e as Forças Armadas. Há relatos de raptos desencadeados por homens trajados à civil que se supõe pertencerem aos Serviços de Inteligência do Estado (SIE).

"A situação permanece tensa em quase toda a extensão da província da Lunda-Sul e nalgumas localidades da Lunda-Norte, porque há neste momento perseguições porta-a-porta, e as pessoas estão abandonar as suas casas com medo de serem detidas e levadas para locais incertos”, diz Zecamutchima.

O presidente do Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe afirma ainda que a repressão contra o protesto do "povo Lunda" é um sinal de que o Governo do Presidente João Lourenço não está preparado para governar, apesar dos seus discursos sobre dialogar e saber ouvir as críticas: "O MPLA tem uma estrutura hipócrita e hoje só tivemos mais uma vez prova que Lourenço é uma das caras da mesma moeda”.

"Escrevemos à presidência da República, ao ministro do Interior e aos governos locais com 45 dias de antecedência, mas como o MPLA é um partido comunista e contrário às leis e à Constituição que ele próprio aprovou, mais uma vez estamos a ser reprimidos e humilhados, por tentarmos usar um direito Constitucional e defendermos a nossa própria terra e o direito de autodeterminação", acusa o presidente do Movimento do Protectorado.

A organização reivindica há vários anos a autonomia da região, que compreende as províncias de Kuando Kubango, Moxico, Lundas-Norte e Sul, alegando "que a região rica em diamante e madeira não faz parte de Angola", baseando-se num tratado assinado em 1887 entre as autoridades coloniais portuguesas e o reino de Mwatiãnvua [o imperador da região na época]. As Lundas foram anexadas oficialmente ao território angolano a partir de 1920.

Tortura nas cadeias

Crianças, mulheres e idosos não foram poupados na "ação musculada” das forças de segurança, diz o Movimento do Protectorado.

Nas várias cadeias onde se encontram espalhados os manifestantes detidos, muitos estão a ser submetidos a tortura, segundo fonte ouvida pela DW África sob condição de anonimato junto da polícia em Saurimo, sede da província da Lunda-Sul.

"É arrepiante como nós, enquanto órgão vocacionado para proteção da segurança dos cidadãos, estamos a agir como se fôssemos terroristas ou uma organização criminosa”, diz um agente da PIR que pede para não ser identificado. "É mesmo muito doloroso ver como as pessoas estão a ser [espancadas] mesmo a sangrar, e os nossos chefes [comandantes] têm o prazer de ver e incentivar tudo isso. Vou abandonar a corporação por essas práticas", diz o agente.

José Mateus Zecamutchima está decidido a levar o assunto junto de instâncias internacionais: "Sempre apelámos ao diálogo. A nossa luta foi sempre pacífica. Mas o Governo sempre usou sempre a força da arma e outros meios violentos contra o ’povo da Lunda’. Depois disso, não nos resta outra saída senão apresentar uma denúncia junto das Nações Unidas e da União Europeia, assim como junto na Organização da União Africana”, garante.

A DW África revela que tentou, sem sucesso, contactar o governador da província da Lunda-Sul, e o porta-voz da Polícia Nacional de Angola.

Fonte: © Deutsche Welle/ DW.de

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