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Angola: Vários chefes de Estado no último adeus a José Eduardo dos Santos 28 Agosto 2022

Funeral de Estado de ex-Presidente contou com participação de 21 delegações de alto nível. João Lourenço não falou na cerimónia. Já Adalberto Costa Júnior criticou "partidarização" do evento. Leia as homenagens a JES.

Angola: Vários chefes de Estado no último adeus a José Eduardo dos Santos

Luanda acolheu, este domingo (28.08), o Funeral de Estado de José Eduardo dos Santos. O corpo do ex-Presidente angolano, que governou o país de 1979 a 2017, chegou a Luanda no passado dia 20, depois de as autoridades judiciais espanholas terem decidido entregar a sua guarda à viúva Ana Paula dos Santos.

O enviado da DW a Angola, António Cascais, acompanhou, esta manhã, o ambiente na Praça da República, onde cerca de duas dezenas de chefes de Estado de vários países se deslocaram para dizer adeus ao ex-Presidente angolano.

O Chefe da Casa Civil do Presidente da República foi o primeiro a intervir na cerimónia lendo a mensagem de Estado preparada para a ocasião.

"Reconhecimento é unânime e inquestionável"

Adão de Almeida afirmou que “o reconhecimento do ex-Presidente angolano é unânime e inquestionável, razão pela qual o povo angolano o apelidou de arquiteto da paz".

"Neste momento em que o povo angolano sente a dor da sua partida e lhe rende esta homenagem, curvamo-nos perante a sua memória para reassumir o nosso compromisso de continuar a fazer de Angola um país que orgulhe todos os seus filhos, seguramente a sua maior ambição. Que o seu legado nos inspire eternamente para vencermos os desafios de hoje e amanhã, da atual e das futuras gerações", declarou o Chefe da Casa Civil do Presidente da República, na presença do Presidente João Lourenço.

"O povo angolano aprendeu consigo que Angola é eterna", disse.

Seguiu-se Joseana Lemos dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, que, numa emotiva mensagem, agradeceu o apoio que a família recebeu "nesta fase de luto".

"Papá, as tuas lutas não foram em vão"

"Em nome da minha família, agradeço a todos os presentes que se juntaram a nós para celebrar a vida do grande homem que perdemos", disse, deixando um "reconhecimento aos membros do executivo que tornaram possível este dia".

"Ecoará eternamente a sabedoria e o conhecimento que passou (…) Honraremos o teu nome, o teu caráter e a tua trajetória", disse ainda Joseana dos Santos, frisando que a família "não deixará que usem o nome [de José Eduardo dos Santos] em vão em benefício próprio".

"Papá, as tuas lutas não foram em vão", acrescentou, recordando a "música e o desporto", em particular o futebol, como as suas paixões.

"Em nome da direção do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], de todos os militantes, simpatizantes e amigos do nosso partido, venho oferecer-te uma flor. Adeus nosso Presidente emérito, adeus camarada presidente José Eduardo dos Santos, adeus arquiteto da paz, adeus Zedu, paz à sua alma", resumiu Luísa Damião, vice-presidente do MPLA.

Em representação da Fundação José Eduardo dos Santos, João de Deus recordou que o povo falava do ex-Presidente como ’Zedu’, "dada a sua natureza de humildade e trajetória simples".

O histórico antigo Presidente da Namíbia Sam Nujoma agradeceu ao ex-Presidente angolano o papel de Angola na libertação da África Austral e na resistência ao ’apartheid’. No seu discurso, Sam Nujoma saudou também a família, indicando todos os filhos, incluindo os nomes de Isabel e ’Tchizé’ dos Santos, que não estiveram entre o público.

"No momento da nossa luta contra o ’apartheid’, foi Angola que nos deu abrigo, apoio e suporte" e Angola "não descansou enquanto o resto da áfrica Austral estivesse livre", uma promessa do primeiro chefe de Estado angolano, Agostinho Neto, continuada por José Eduardo dos Santos.

Sam Nujoma acrescentou, "em nome dos veteranos da luta de libertação", que "a independência da Namíbia e Zimbabué e a abolição do ’apartheid’ da África do sul foram uma batalha de Angola", que "resistiu aos brutais ataques" da África do Sul durante a guerra civil.

"Que a alma de José Eduardo dos Santos descanse na paz eterna", acrescentou.

"Um grande líder africano"

Entre os convidados estão 21 delegações de alto nível, incluindo os Presidentes de Portugal, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, República Democrática do Congo, República do Congo, Zimbabué e África do Sul, bem como representantes de Ruanda, Guiné Equatorial, Gabão, Namíbia, Timor-Leste e Zâmbia.

Em declarações, este sábado, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, considerou o ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos uma "inspiração" para a África Austral e é um "orgulho também os momentos de democracia que ele desenvolveu" em Angola.

"Seria totalmente incontornável a presença do povo moçambicano aqui", disse Filipe Nyusi, justificando a sua presença nas cerimónias fúnebres oficiais.

"Nós levamos nas nossas costas o povo e a mensagem do povo moçambicano em solidariedade" com Angola num "momento muito difícil" em que se recorda o ex-presidente José Eduardo dos Santos, um governante que "trabalhou pela paz e pela reconciliação", procurando "incluir todas as forças" que combateram na guerra civil.

No Twitter, a presidência da África do Sul dá conta também da presença do seu chefe de Estado Cyril Ramaphosa.

Por sua vez, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, lembra José Eduardo dos Santos "como um grande líder africano". Desempenhou um papel importante na transformação geopolítica da África Austral, democratização e o fim do ’apartheid’ na África do Sul, mas também a Independência da Namíbia. Há todo o complexo processo de negociação nos Grandes Lagos de África", salientou.

José Maria Neves destacou ainda o papel "muito importante" de José Eduardo dos Santos "na consolidação dos países africanos de expressão portuguesa. Mais do que isso aqui em Angola teve um papel importante na consolidação da paz, na garantia da integridade territorial de Angola, que foi um elemento extremamente importante".

No Twitter, a presidência da África do Sul dá conta também da presença do seu chefe de Estado Cyril Ramaphosa.

Filhos ausentes

Isabel dos Santos, Tchizé dos Santos e o irmão Coreon Du, três dos filhos de José Eduardo dos Santos que recusaram participar no funeral de Estado promovido pelo regime angolano, choram igualmente o pai hoje, ainda que através das redes sociais.

Coreon Du que diz ter-lhe sido roubada a oportunidade "de lhe dar o último adeus na terra que nos viu nascer", quis marcar o aniversário do pai.

"Quando era criança, o Papá ensinou-me a não ter medo do escuro, porque a luz sempre chega", escreveu José Eduardo Paulino dos Santos, mais conhecido pelo nome artístico de Coreon Du nas suas redes sociais.

Também a empresária Isabel dos Santos usou a sua conta de Instagram, onde na véspera lamentou a realização de debates políticos na Televisão Pública de Angola enquanto decorriam as cerimónias fúnebres de JES, para lembrar esta data especial: "Feliz aniversário, papá", escreveu.

O mesmo fez Tchizé dos Santos, que desejou "feliz aniversario" ao pai, num ’post’ acompanhado de uma música em que acrescentou: "em tua memória, continuarei a lutar pela pátria".

Hoje estiveram presentes nas cerimónias fúnebres apenas quatro dos oito filhos do antigo chefe de Estado: os três em comum com Ana Paula dos Santos (Josiane, Danilo e Breno) e José Filomeno dos Santos.

Críticas de ACJ

A cerimónia acontece numa altura em que o país continua tenso e a aguardar os resultados finais das eleições. Apesar de não ter havido confirmação por parte da UNITA sobre a presença do seu líder na cerimónia de hoje, Adalberto Costa Júnior chegou cedo à Praça da República.

Em declarações aos jornalistas, à saída do funeral de José Eduardo dos Santos, Adalberto Costa Júnior criticou a "ocorrência de mensagens de partidos políticos" numa cerimónia como esta.

“Achámos que devíamos estar presentes. Não foi uma decisão fácil, dado o facto de termos aqui chegado com tão pouca tranquilidade e com a ausência de parte da família”, explicou .

Sobre a controvérsia à volta dos resultados eleitorais, o líder da UNITA reafirmou que "foram formalizadas todas as reclamações nas comissões provinciais", acrescentando que: "penso que é em função disso que o porta-voz da CNE disse ontem que iam rever os resultados".

JES faleceu a 8 de julho

O antigo chefe de Estado morreu em 08 de julho, com 79 anos, em Barcelona, Espanha, onde passou a maior parte do tempo nos últimos cinco anos, mas as exéquias só agora se vão realizar devido à disputa sobre a custódia do corpo entre as filhas mais velhas de José Eduardo dos Santos e o regime angolano.

A praça da República, onde se encontra o monumento fúnebre do primeiro Presidente angolano, no Memorial António Agostinho Neto, foi novamente escolhida para as cerimónias fúnebres, depois de ter acolhido um velório público sem corpo logo após a morte de José Eduardo dos Santos, durante um luto nacional de sete dias.

No sábado, realizaram-se as homenagens públicas, tendo a urna saído de manhã cedo da residência familiar no Miramar, em Luanda, com honras militares reduzidas, dirigindo-se em cortejo fúnebre para a praça da República.

Como estava previsto no programa da cerimónia, após um momento de saudação e deposição de coroa de flores por parte de João Lourenço, seguiu-se a saída da urna com honras militares e início do cortejo fúnebre para o jazigo onde decorreu uma cerimónia restrita, com representantes de governos estrangeiros. João Lourenço não fez qualquer declaração ou homenagem pública ao ex-Presidente angolano.
A Semana com DWÁfrica/Lusa

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