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Angola vive em "instabilidade, não é de confiança para os investidores", diz Isabel dos Santos antes de avançar a receita para sanar o mal 16 Outubro 2019

"Trabalho com bancos em Cabo Verde, com bancos em outros países africanos", afirmou a empresária em defesa da origem lícita da sua fortuna. A filha do ex-presidente angolano, em entrevista à agência Lusa em paralelo à Conferência ‘Cabo Verde: Desafios para o Futuro’ na cidade da Praia, denunciou ainda o insatisfatório ambiente de negócios que marca a presidência de João Lourenço e deixou dicas para atrair investidores.

Angola vive em

"Estão a viver-se momentos difíceis, não há dúvida. Estamos a viver momentos de grandes dúvidas e o que é fundamental e importante é que se respeite o Estado de Direito. É muito importante que se respeitem as leis, é muito importante que não haja atropelos entre os três poderes, que as pessoas tenham confiança na Justiça", afirmou Isabel dos Santos.

A empresária angolana disse durante a entrevista — concedida à Lusa na Praia, onde na passada sexta-feira, 11, participou no painel ’Economia 3.0 — O Futuro de Cabo Verde e o papel de Portugal’— estar preocupada com os vários casos judiciais, mediáticos, em curso ou em investigação em Angola, que em geral envolvem os próximos do anterior Presidente da República.

"A título de exemplo, depois da minha saída da Sonangol houve vários relatos n[os] media de possíveis inquéritos, processos ou inquietações", afirmou sobre o que aconteceu após os 17 meses, entre junho de 2016 e novembro de 2017, em que foi PCA da Sonangol.

"Mas foram [só nos] media. E aí nós vivemos num clima de especulação entre o que vem [nos] media e o que efetivamente acontece ou não na realidade, o que cria muita confusão. Era importante, era bom haver um bocadinho mais de clareza do que se está a passar, porque as pessoas sentem que há confusão, que há muita informação que não é clara. Portanto, há aqui alguma instabilidade que inspira uma falta de confiança", considera a empresária.

Justiça em xeque

"Como é que é possível haver campanhas de difamação ou de calúnia até ao ponto de um presidente de um Tribunal Supremo, que é um órgão importantíssimo, sentir a necessidade de não continuar no cargo que estava indicado para cinco anos? Eu acho que isso não é bom. Não transmite confiança aos investidores", expressou assim Isabel dos Santos a sua preocupação com o pedido de renúncia do juiz Rui Ferreira, que disse estar a ser vítima de uma "campanha intensa e cruel de mentiras, deturpação de factos, intrigas, calúnias e insultos".

"Não transmite confiança às pessoas", sublinha Isabel dos Santos sobre "a perseguição" ao juiz Rui Ferreira, que no cargo de juiz presidente do Tribunal Constitucional deu posse ao novo Presidente da República, João Lourenço, em setembro de 2017.

"Hoje este clima não é de confiança para os investidores poderem investir e para continuarmos a apostar", a empresária insiste que é urgente "assegurar às pessoas que existe um Estado de Direito" em Angola e "que existe efetivamente a separação dos poderes".

"Crise económica muito complicada"

A filha de José Eduardo dos Santos critica os dois anos de governação sob João Lourenço: o cenário é de uma "crise económica muito complicada".

"Reparamos que a nossa economia desde 2017, 2018, 2019 entrou num ciclo muito negativo. Isto é preocupante. A mim preocupa-me. Eu gostava de ver uma economia mais positiva, gostava de ver algumas decisões a serem tomadas que possam mudar o quadro e que consigam levantar o potencial que Angola tem e conseguir dar aos angolanos a oportunidade de terem uma vida melhor, uma vida boa", comentou.

A empresária, que em 2013 entrou na lista Forbes como a primeira bilionária africana, pretende continuar a investir em Angola, onde tem interesses na indústria (das bebidas aos cimentos), na distribuição e nas telecomunicações, entre outras atividades.

"Nós continuamos a investir. Este ano abrimos um novo estúdio, estamos agora a construir uma fábrica, que vai ser uma das maiores fábricas de vidro do país, estamos a olhar também para investimentos no setor agrícola. Continuamos a investir".

Mas admite que a confiança é menor e que também a crise obriga a uma forma mais "tímida" de investir. "É difícil investir hoje em Angola porque temos um problema de rentabilidade grande, o poder de consumo baixou, as pessoas compram muito menos do que compravam antes, as taxas de juros são elevadas".

Sempre fui alvo de escrutínio, e é normal

Acerca das recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos, Isabel dos Santos afirma que isso ocorre por desconhecimento de que para poder investir, ela afirma: "Quando há rumores que falam de erário público, é falso. Felizmente nunca trabalhei com o erário público. Eu gosto de trabalhar com o mercado, com o setor privado, eu gosto de fazer um produto que as pessoas queiram comprar, mas queiram comprar porque ele é bom e tem um bom preço".

"Trabalho com bancos em Cabo Verde, com bancos em outros países africanos, bancos que nos apoiam, que acreditam nos projetos, que acreditam na validade dos projetos que nós propomos. Portanto, tenho muitas dívidas, tenho muito financiamento por pagar, as taxas de juros são elevadas, nem sempre é fácil também ter essa sustentabilidade do negócio, para conseguir enfrentar toda a parte financeira dos negócios, mas também [temos] boas equipas e trabalhamos para isso", explica.

Sobre os seus investimentos, sobretudo em Angola e Portugal, afirma que está habituada a passar por complexos processos de avaliação de idoneidade.

Isso é, diz ela, "normal" nas relações de negócios, com parceiros internacionais. "Normal", quando se trata de "um empresário vindo de África", "a quem são pedidas inúmeras informações sobre como é que vai financiar o seu negócio, qual a origem dos seus fundos, que planos é que tem para o seu negócio, etc. Portanto, hoje em dia, todas as empresas de uma forma geral têm esses pedidos, são pedidos normais", esclarece.

Sobre o escrutínio cerrado de que é alvo, a empresária acrescenta: "No meu caso, eu até tenho mais do que outras empresas porque obviamente há a questão das pessoas politicamente expostas e, é certo, há sempre a atenção de tentar perceber como é que são fundados e financiados os negócios”.

Sobre a origem dos investimentos afirma: "Eu não tenho preocupações com as dúvidas, porque, como digo, sempre fui alvo de escrutínio e é normal, não é algo que me preocupa, tenho parcerias com empresas internacionais que estão obrigadas a um nível mais elevado de governança [sic], antes de trabalharem com um parceiro têm que verificar que esta pessoa é idónea e que representa e que é aquilo que diz ser, trabalho com grandes grupos mundiais, com grandes multinacionais, com consultoras que são do top-cinco mundiais. Trabalho com bancos, com a banca comercial", destaca.

Dinheiro com preconceito

A empresária observa que no mundo ocidental é fácil aceitar "a ideia de que se o dinheiro vem de África, ou de empresários africanos ou angolanos, se calhar é duvidoso".

"Muitas vezes isto está ligado ao preconceito. Existe um preconceito, sim. Hoje acho que é muito à base de falta de informação. Quando olhamos para os media hoje, a narrativa [sobre] África é muito negativa, e praticamente de África só falamos de política, de governos, de guerras, de conflitos, de desastres".

"Raramente falamos de empresas, empresários africanos são muito pouco conhecidos, ou seja, os atores das economias africanas ainda são poucos conhecidos na Europa e no Ocidente. E isso traz um nível de desconfiança. E essa desconfiança, claramente, não é só comigo", garante.

Gordos anos para angolanos e portugueses

O seu percurso como empresária começou em Angola, há mais de duas décadas, esclareceu Isabel dos Santos: "Eu gosto que as pessoas se lembrem que eu não comecei a trabalhar ontem, não comecei a trabalhar em 2010, comecei a trabalhar nos anos 90, portanto é um percurso muito, muito longo, e ao longo deste percurso nós vamos construindo reputação, vamos construindo relações, com empresas, com bancos, e vamos crescendo, vamos sendo apoiados e efetivamente é assim que eu tenho que trabalhar".

A chave do seu sucesso, tal como o de outros empresários, incluindo portugueses, foi o forte crescimento da economia angolana de 2002 a 2017, precisamente quando começou a investir em Angola: "E tivemos sorte. Angola cresceu. A economia angolana de 2002 a 2017, durante 15 anos, teve um crescimento médio de quase 8-9%", indicou a entrevistada da agência noticiosa portuguesa.

"Exatamente neste período houve também muitos empresários e muitas empresas portuguesas que ganharam dinheiro e lucro em Angola, centenas de milhões de euros, e estas questões nunca são postas em causa. Por isso, é preciso também não ter dúvidas que as empresas e os empresários angolanos neste mesmo meio ambiente de negócio obviamente também ganharam dinheiro, também trabalharam, investiram… Aliás, os investimentos estão presentes, os postos de trabalho são óbvios, os locais estão construídos, não são investimentos abstratos", comentou a empresária.

O PIB-Produto Interno Bruto nesse período bom da economia angolana, de 2002 a 2017, afirma Isabel dos Santos, cresceu "quase 900%, de 30 mil milhões para 130 mil milhões de dólares" [sic. NR. Erro de contas: com esses números, o crescimento seria sim de pouco mais de 300%].

Fonte: Lusa

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