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Antropólogo Arlindo Mendes afirma: Urbanidade e melhoria de vida estão a mudar a mentalidade dos santiaguenses sobre a morte 24 Janeiro 2010

“Os rituais funerários são levados muito a sério pelos santiaguenses”, afirma Arlindo Mendes, autor de uma tese de doutoramento sobre os rituais da morte em Santiago.

Antropólogo Arlindo Mendes afirma: Urbanidade e melhoria de vida estão a mudar a mentalidade dos santiaguenses sobre a morte

Porém, uma profunda mudança está em curso desde a década de 60, de acordo com o professor da Universidade de Cabo Verde. Na origem desta alteração de valores Arlindo Mendes aponta o aumento da população urbana da ilha, bem como um maior nível de vida dos seus habitantes.

“Até um passado relativamente recente, na ilha de Santiago a morte raramente era encarada como um acontecimento normal na vida das pessoas. Não é por acaso que se utilizava o ritual do interrogatório do cadáver para se encontrar o autor da sua morte”, diz o antropólogo Arlindo Mendes ao fim de uma vintena de anos de pesquisa sobre o ritual da morte na maior ilha de Cabo Verde, também a mais profunda.

O professor universitário explica que “a morte de um jovem na flor da idade era encarada com uma certa perplexidade e consternação acrescida. Normalmente não se admitia que um jovem pudesse morrer. Se tal acontecesse, forças mal intencionadas estavam por detrás”. Diante da morte de um parente, novo ou velho, os familiares preocupavam-se então com a preparação do corpo.

“Este hábito reveste-se de um certo significado uma vez que, para além da utilidade prática, contribui também para dar vazão à expectativa religiosa dos familiares e ainda serve para ajudá-los a fazer o seus trabalho de luto”, esclarece Arlindo Mendes. Ou seja, “o banho mortuário é simbolicamente encarado na perspectiva do rito de purificação do corpo e da depuração da alma, intimamente ligados ao rito da passagem”.

Tão importante quanto a lavagem do corpo é o velório ou ritual da esteira, em que ocorrem as encenações do choro com um conteúdo simbólico significativo. Porque na perspectiva dos santiaguenses, aclara Arlindo Mendes, “o morto nunca deve ficar só. Ele pode vingar-se dos vivos mal-agradecidos ao sentir-se abandonado por eles”.

Quer dizer, adianta o antropólogo, “trata-se do derradeiro momento de convívio e sociabilidade entre o morto, a sua família, os seus vizinhos e amigos. Durante esse período, come-se, bebe-se, diverte-se e procura-se ajudar a família enlutada a aliviar a dor e a gerir o sofrimento da perda de um ente querido”.

Certas pessoas desaprovam esta prática – em especial as copiosas refeições -, no entanto, alega Arlindo Mendes, “quando perdem um ente querido, sobretudo no meio rural, não conseguem ficar alheias à força da tradição, ficando evidenciada, de uma forma clara, a dissonância flagrante entre o discurso do não e a prática do sim”. E, todas as pessoas presentes no acto fúnebre, mesmo os que não partilham de tais valores, “são obrigadas a servir-se dessas refeições, sob pena de beliscar os princípios da tradição”.

Em Santiago, a morte é também rodeada de um conjunto de crenças, incertezas e superstições. Por isso, a tradição recomenda um conjunto de medidas conjuratórias para afastar as ameaças e inibir o pavor que a morte provoca sobre os vivos. Segundo a representação colectiva dos santiaguenses, a omnipresença dos espíritos dos mortos, as injúrias e a vingança atribuídas à alma penada desempenham um papel marcante na compreensão dos contornos dos seus imaginários quotidianos.

“As interferências dos espíritos dos mortos são uma realidade indiscutível do meio rural. Os uivos dos cães, os voos dos passarinhos, os cantos das aves anunciadoras da morte, as influências reais ou imaginárias dos espíritos funcionam como sinais do presságio da morte. Os anciãos estão atentos aos indícios que possam anunciar a chegada da morte, quer seja na família, na vizinhança ou na aldeia”, afirma o autor deste estudo.

Novas tendências dos rituais funerários

“No quadro ritual de Santiago respeita-se cada vez menos os princípios da tradição, os quais estão associados ao indício da ignorância, ruralidade, superstição e analfabetismo”, pontua Arlindo Mendes. Por isso, “os rituais funerários ganham cada vez mais um carácter laico entre os santiaguenses”.

Ou seja, “as crenças nas forças do finado são cada vez menos e acentuadas no meio rural, os tradicionais actos rituais, designadamente os compodores de corpo, são cada vez mais raros e a teatralização dos choros e a exteriorização das emoções vêm sendo encaradas como falta de educação ou deficit de urbanidade. Os próprios sinais públicos de luto estão cada vez menos visíveis e mesmo negligenciados por certos familiares do morto, no seio das populações urbanas”.

Isso significa, segundo Arlindo Mendes, que “os saberes ancestrais vêm sendo paulatinamente substituídos por actuações práticas, pelos procedimentos racionalistas de perspectiva tecnicista”. Prova disso é que “actualmente, no momento da agonia, os moribundos pedem cada vez menos a presença dos padres para se confessarem”.

Também, hoje em dia, assiste-se a uma "simplificação e modificação sem precedentes das práticas rituais, deixando o lugar para ser preenchido pelos especialistas das agências funerárias que manipulam o cadáver numa perspectiva de prestação de serviço, o que torna o corpo humano numa espécie de mercadoria cuja embalagem requer um certo marketing para satisfazer aos gostos dos clientes mais exigentes”.

Contudo, para o antropólogo Mendes não é “uma tarefa fácil delimitar no tempo e no espaço as mudanças de mentalidade das pessoas, de um grupo humano ou de uma comunidade de pessoas, uma vez que se trata de algo cuja mudança ocorre de uma forma lenta, irregular e dificilmente determinável de uma maneira correcta e objectiva”.

Além disso, “a questão da mentalidade é sempre uma abordagem comparativa e regressiva. Parte-se sempre daquilo que sabemos do comportamento de hoje, o modelo ao qual comparamos aos dados do passado. Ainda assim, Arlindo Mendes arrisca-se a afirmar que “nos finais da década de 60 e no limiar da década de 70, surgiram, de facto, os primeiros sintomas da mudança de atitude perante a morte no interior de ilha de Santiago”.

E foram vários os factores que estiveram na origem desta mudança, apesar de o advento da independência nacional ter incentivado a revalorização das nossas tradições culturais. “Certas práticas ligadas ao ritual da morte, combatidas durante muito tempo pelas autoridades políticas e religiosas, foram reconstituídas, como é o caso da reza”, refere Mendes. Mas a mudança de mentalidade já estava em curso irreversível nessa altura.

“Nessa altura iniciou-se a emigração em larga escala para o estrangeiro, particularmente, para a então metrópole, Lisboa. As pessoas de cento e tal escudos por quinzena passaram a ganhar novecentos escudos por mês, muito dinheiro na altura para os emigrantes que não estavam habituados a receber um salário deste nível, o que contribuiu não só para aumentar o poder de compra das famílias como também trouxe novas leituras sobre o sociocultural santiaguense. Os contactos com a Europa fizeram com que as pessoas passassem a encarar certas condutas rituais como sendo ridículas e como sinais de ignorância”, explica Arlindo Mendes.

Ainda ocorreu, como consequência de maior poder económico, “a substituição da djangada pelo uso generalizado de caixão de madeira, mesmo no seio de certas camadas economicamente mais vulneráveis da população rural”. “O aumento de poder de compra de certos familiares do defunto e a introdução da sumptuosidade tanto ao nível da aquisição do caixão como na diversificação das refeições fúnebres contribuíram para dar, inquestionavelmente, ao meio rural santiaguense uma nova feição de lidar com a perda de um ente querido”, afirma o professor universitário.

Por outro lado, com a deslocação em massa das populações rurais para o meio urbano, certas práticas rituais ligadas à morte, designadamente a reza ou bespa, foram reinterpretadas e reintroduzidas na cidade. “Alguns jovens quadros residentes na cidade da Praia, por vezes, ficam entalados entre o respeito pelas tradições imposto pelos familiares e o receio de serem considerados atrasados e/supersticiosos. Aliás, muitas das vezes estes quadros tentam persuadir os pais a não terem certos comportamentos rituais que aos seus olhos passam a ser ridículos”, diz Arlindo Mendes.

Mas não é apenas a mentalidade urbana que encara com curiosidade algumas atitudes perante a morte - a teatralização dos choros, as gesticulações desproporcionadas e outros ritos excessivos -, que limita a realização dos rituais tradicionais. É o próprio espaço urbano que cria barreiras, segundo Arlindo Mendes: “Quando se habita num prédio colectivo, não se consegue rachar e cozinhar à lenha, gritar e chorar à vontade. A própria configuração e estrutura dos apartamentos, uma única saída para fora, dificulta sobremaneira a movimentação de tanta gente aflita”.

“É inadmissível incomodar os moradores do prédio durante sete dias ou mesmo um mês, com toda a movimentação das pessoas que a morte implica. Aliás, as festas da morte ficam condicionadas devido à falta de espaço físico para abater aos animais e preparar a comida, para a socialização das pessoas e exteriorização dos sentimentos de tristeza, angústia e sofrimento. De facto, os rituais funerários ficam, de certa forma, limitados devido à configuração do espaço habitacional dos actores rituais”, afirma Arlindo Mendes.

O antropólogo alega entretanto que “os rituais funerários revestem-se de uma forte importância simbólica e de um grande alcance sociocultural e religioso. Eles jogam um papel primordial no seio das populações, permitindo ao grupo regenerar-se, reforçar-se, tomando consciência de si, da sua unidade e de sua especificidade ao ritmo cadenciado das expressões de dor manifestadas pelas carpideiras, parentes próximos e outras pessoas ligadas directa ou indirectamente ao defunto e à sua memória”.

TSF

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