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R.de Malta: Inquérito à morte de Daphne Caruana conclui— "O Estado falhou dever de proteger a jornalista anti-corrupção" 31 Julho 2021

O governo da República de Malta "falhou o seu dever de proteger adequadamente a jornalista anti-corrupção Daphne Caruana Galizia" — assassinada em 16 de outubro de 2017 — e é responsável por ter criado uma "cultura de impunidade", lê-se na conclusão do relatório ao inquérito independente sobre o assassinato. O primeiro-ministro maltês, Robert Abela, que pediu desculpas ao marido e três filhos de Dapnhe ao apresentar o documento esta quinta-feira, 29, prometeu que essas lições "darão frutos no combate à impunidade".

R.de Malta: Inquérito à morte de Daphne Caruana conclui—

"Os tentáculos da impunidade estenderam-se a outros órgãos regulatórios, à polícia, o que resultou no colapso da lei", concluiu um painel de juízes.

A jornalista Daphne Caruana Galizia morreu vítima na explosão do carro que conduzia perto de casa, menos de uma hora após publicar um artigo em que denunciava os poderosos do país insular do Mediterrâneo.

Dois anos decorridos, o executante do crime aceitou revelar o nome do mandante em troca do perdão prometido, como revelou o primeiro-ministro Joseph Muscat (2013-2020).

A morte de Daphne, de 53 anos, levou milhares de manifestantes às ruas da capital, Valetta, e fez a Comissão Europeia despertar para o desafio de legislar sobre a lavagem de capitais e a corrupção naquele país-membro da União Europeia.

A jornalista Daphne liderava o grupo que no seu país investigava o envolvimento de personalidades da República de Malta nos ‘Panama papers’, o escândalo de fuga ao fisco e lavagem de capitais revelado em maio de 2016.

A própria mulher do primeiro-ministro Joseph Muscat estava entre os malteses que depositaram fundos no paraíso fiscal, revelou a jornalista Daphne, cujo blog, ’Running Commentary’, na mesma linha do Wikileaks, registava milhares de leitores.

As suas publicações mostram que ela expunha não só os membros do governo e os seus afiliados, mas também figuras da oposição. Entre estas, o candidato a primeiro-ministro Adrian Delia, com problemáticas conexões familiares e de amizades que a jornalista denunciou no seu blog.

A jornalista partilhou às 14:09 de 16 de outubro de 2017 aquele que viria a ser o seu último texto, ’Ouçam o povo’, em que é visado o líder da oposição. O alerta sobre a explosão foi recebido pela polícia pouco depois das 15:00. Um dos filhos ouviu a explosão do interior da casa e correu para o local. A família reside em Bidnija, aldeia do município de Mosta, a menos de dez quilómetros da capital, Valetta. Situada na ilha homónima, a República de Malta — independente desde 1964, após séculos de dominação estrangeira, a última das quais a da Inglaterra —, está entre os micro-estados e a sua população é de pouco mais de 400 mil habitantes.

Filhos recusam ajuda do governo

Os filhos Matthew (na foto), Andrew e Paul denunciaram no primeiro aniversário da morte da mãe, "a pressão implacável da presidente e do primeiro-ministro de Malta sobre o que resta da nossa família", no sentido de aceitarem "apoiar uma recompensa de um milhão de euros por provas que levem à condenação dos assassinos da nossa mãe".

A mensagem postada no Facebook acrescenta o posicionamento da família, que quer prosseguir a mesma linha de conduta da falecida: "Não estamos interessados na justiça sem mudanças. Não estamos interessados numa condenação penal que só iria servir às pessoas do governo, que iriam afirmar que a justiça foi feita. A Justiça, para além da responsabilidade penal, só será realizada quando tudo aquilo pelo que a nossa mãe lutou — responsabilidade política, integridade na vida pública e uma sociedade aberta e livre — substituir a situação desesperada em que estamos".

"O governo só se interessa por uma coisa: a sua reputação e a necessidade de esconder o buraco onde atolaram as nossas instituições. O nosso interesse é bem outro, é o da nossa mãe".

As acusações são diretas: "As pessoas que, desde que nos lembramos, procuraram silenciar a nossa mãe, não podem agora ser elas a fazer justiça. A Polícia pode ou não descobrir quem ordenou o assassinato de nossa mãe, mas enquanto os que levaram o país a este ponto permanecerem no lugar, nada disso vai importar — o nome da pessoa que fez isso continuará a ser uma nota de rodapé na história de como o nosso Estado foi desmantelado, desfeito pedaço por pedaço e devorado por criminosos e por corruptos".

A missiva prossegue aconselhando o primeiro-ministro a demitir-se. "E antes de se demitir, ele pode fazer o seu último ato no governo, a substituição do comissário da polícia e do procurador-geral com funcionários públicos que não terão medo de agir contra ele e aqueles que ele protege".

Conclui: "Então não vamos precisar de uma recompensa de milhões de euros e a nossa mãe não teria morrido em vão".

De acordo com a imprensa do país, Caruana Galizia havia participado à polícia que estava a receber ameaças de morte nas duas semanas que precederam a sua morte.

Exemplos: "Elas arriscam a própria vida" no Vietname, Arábia...

As jornalistas Eman al-Nafjan, da Arábia Saudita, Caroline Muscat, da R. de Malta, e Phoam Doan Trang, do Vietname, foram galardoadas com o ‘Prémio da Liberdade de Imprensa’ da RSF-Repórteres Sem Fronteiras de 2019. Mas só a jornalista maltesa foi a Berlim receber o prémio.

Duas dessas três jornalistas distinguidas em novembro de 2019 pelo seu desempenho extraordinário no dever de informar, uma da Arábia Saudita e outra do Vietname, foram impedidas de deixar os respetivos países para ir receber o seu prémio.

A vietnamita é detida sempre que um novo artigo jurídico é publicado sob a sua responsabilidade. A saudita encarcerada desde 2018 espera ser julgada por "atentado à segurança do Estado", cuja pena é de vinte anos de prisão.

Apenas a jornalista maltesa pôde estar presente para receber o prémio — na cerimónia que aconteceu pela primeira vez em Berlim, para assinalar os vinte e cinco anos da instalação da RSF na Alemanha.

Eman al-Nafjan, fundadora do site SaudiWoman.me, de defesa dos direitos da mulher, e autora de artigos publicados na imprensa internacional, é reconhecida com o Pémio da Coragem. O galardão distingue quem, jornalista, órgão de imprensa ou organização, deu provas de coragem pelo exercício da profissão, a defesa e ou a promoção do jornalismo.

O Pémio da Independência, para jornalistas que se destacaram por resistir às pressões de cariz financeiro, político, económico ou religioso, distinguiu em 2019 Caroline Muscat. Ela criou o jornal digital de investigação The Shift News, instigada pelo assassínio em outubro de 2017 da colega Daphne Caruana Galizia (ver artigo, de 21.11.019 neste online).

Phoam Doan Trang, que foi por diversas vezes detida ao longo do último ano, foi distinguida com o Prémio do Impacto, para jornalistas que se destacaram por introduzir uma "melhoria concreta" na liberdade, independência e pluralismo do jornalismo. A jornalista e blogueira dirige as publicações jurídicas online Luât Khoa e The Vietnamese, que permitem ao seu público-alvo conhecer as leis do país para defender os seus direitos contra a arbitrariedade do partido-único que suporta o governo e o Estado vietnamita.

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Fontes: BBC/DW.de/TV5Monde/Sites referidos. Relacionado: Malta: Polícia detém suspeito mandante da execução de jornalista, 21.nov.019. Fotos: Daphne e Matthew, um dos seus três filhos. Galardoadas.

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