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Argélia: Bouteflika demite-se, enfim — Quis incarnar orgulho argelino mas retira-se sem glória 04 Abril 2019

Esta terça-feira, 2, ao fim de tantas manobras para evitar deixar o poder, Bouteflika —que afirma querer "apaziguar os espíritos e corações dos meus compatriotas" — entregou a sua demissão ao Conselho Constitucional. O presidente argelino não pôde mais resistir ao peso da rua — os jovens primeiro e depois os que combateram ao seu lado pela independência gritaram tanto para ele sair que foi obrigado a ouvir.

Argélia: Bouteflika demite-se, enfim — Quis incarnar orgulho argelino mas retira-se sem glória

"Tenho a honra de notificar formalmente V.Exas sobre a minha decisão de cessar o meu mandato como Presidente da República, a partir de hoje, terça-feira 26 Radjab 1440, que corresponde a 2 de abril de 2019", lê-se na carta ao Conselho Constitucional publicada pela agência noticiosa oficial APS.

"Após 20 anos a reinar, Bouteflika deixa o poder", "Bouteflika sai sob fundo de tensão com Exército", "Presidente Bouteflika anuncia demissão", Bouteflika recusa o artigo 102 e demite-se", titulam respetivamente o Courier d’Algérie, El Watan, El Moudjahid, Jour d’Algérie na sua edição disponível online para a saída em papel na manhã de quarta-feira.

O prospetivo quinto mandato levantara protestos inauditos, oito anos depois da ’Primavera Árabe’ a que Bouteflika resistira enquanto outros colossos caíam. Desde fevereiro, os argelinos manifestaram-se semanas a fio. Bouteflika recorreu a todas as estratégias dilatórias para permanecer no poder. Prometeu que se retiraria após as eleições de abril, depois adiou-as ’sine die’, depois renovou a equipa governamental, prometeu ’pela enésima vez’ uma nova constituição baseada num referendo antes de partir.

Oponentes e analistas então convergiram num ponto: o presidente manobrou para prolongar o mandato até 2023-24. O tempo de cumprir a promessa de deixar uma nova constituição, a partir duma consulta popular “inclusiva e independente” e votada em referendo. A prometida nova constituição já tem barbas: Bouteflika ao longo do seu mandato presidencial, iniciado em 1999, por diversas vezes usou a promessa da nova constituição para acalmar os ânimos.

A demissão anunciada esta terça-feira, 2, foi saudada nas ruas. Até houve gente a sair de pijama disfarçado sob a bandeira argelina na noite de terça-feira.

Desta vez têm a garantia da carta entregue ao Conselho Constitucional, a marcar a sua vitória mais consistente: Bouteflika enfim sai.

’Temos razão para não desmobilizar’

Ouvidos pela AFP, argelinos expressaram-se: "Ele entrou pela porta, sai pela janela", "É um dia histórico", "Agora já posso morrer tranquilo, aos meus netos a esperança numa Argélia melhor".

Euforia à parte, os argelinos dizem que vão continuar na rua: "Agora temos de lutar contra o sistema mafioso e dos seus tentáculos no poder".

O presidente interino Abdelkader Bensalah, de 75 anos e desde 2002 presidente do órgão representativo Conselho da Nação, terá de assegurar que as eleições aconteçam de modo a que ele passe a presidência ao sucessor num prazo máximo de 90 dias.
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Fontes: Citadas/Le Monde/Le Figaro/DW.de/ Fotos: Momentos de resistência recente à presidência de 20 anos, incluem protestos, indignação pela subserviência ao poder saudita (a foto do rei a presidir o encontro, em Rabat, entre o representante do presidente e um emissário saudita

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