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Às mães de egrégios avós sem história 04 Maio 2020

Às mães de egrégios avós sem história

Entro no dia das mães, com um olhar retrospetivo. Recuo aos primórdios, que vasculho desde a primeira imagem da Cidade da Ribeira Grande.**

Esta noite sonhei com a mãe de André Álvares Almada, autor na segunda metade de 1500s do Tratado dos Rios da Guiné e do Cabo Verde. E acordei a imaginar como seria, se ele teria o rosto dum meu avô. Se ela teria o rosto duma minha avó, que podia servir de modelo para pintar a mãe dele.

Um nome! Ignoto nome dessa mãe da era de Quinhentos "que teve de Álvaro o André", como se escrevia em lusa sintaxe ainda a imitar a latina (quam Alvari Andrem habuit). Teve paciência a provável escrava mãe de André, futuro tratadista como lho permitiu o status de capitão letrado.

Andresa seria se o filho pudesse dar nome à mãe sempre que ocorresse uma irregularidade da conservatória oficial. Se André igualasse Saramago, esse futuro Nobel, que adulto foi ao registo pôr como patrónimo oficial a oculta alcunha do pai José.

André, que foi capitão. E se o destino-roleta biológica o fez nascer talvez negro talvez pardo talvez branco, pouco importa, foi o acaso que fez dele ‘branco’, que não é cor mas posição social.

André de Álvaro, no nome a marca de reconhecimento do pai. E se tivesse sido André de Maria ou Joana ou Francisca ou Andresa? A mãe imortalizada.

Álvaro a reconhecer em ato notarial o filho. Uma perfilhação, quiçá por falta de ascendência europeia neste Cabo Arsinário. Quantos filhos a morrer na infância!

Sobreviveu o Álvaro em André, quiçá o último rebento. Sobrevivem os patrónimos com o tratado. Um prematuro tratado interdisciplinar ou projeto enciclopédico, ainda longe dos versos que farão deste um país de poetas, de que André é a natural exceção ...por ter nascido cedo.

Que diria ele, tratadista de prosa cerrada, de frases poéticas à mãe negra santoma, se tivesse vivido no século XX como esse outro Almada, mas Negreiros e são-tomense?

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar!
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um. (…) Depois venho sentar-me a teu lado (...) a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! (…)
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade!

**Imagem, que se fixou na retina, das ruínas num magazine ainda colonial em 1973-74.

LS

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