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Astúcia em nome do patrono — "Mandei-lhe uma carta" 14 Fevereiro 2022

"O teu pai só o é por causa de uma carta". Entrou na minha genealogia — esse "és, logo existes", a biologia antes do conhecimento cultural — essa carta que a destinatária recusa receber mas que a portadora luta para lhe entregar. Vitoriosa, a filha de D. Vitória é a única que, à terceira, bem se desincumbiu da missão de Mercúrio mensageiro.

Astúcia em nome do patrono  —

"Mandei-lhe uma carta, em papel perfumado. Ela devolveu-a, sem abrir".

E ela, sem lhe dirigir réplica, dirige-se-me como que punindo-o com a exclusão: "Achava-o muito saliente". O adjetivo que aqui ganhou nova vida para apodar o atrevido, impertinente, inoportuno. "É muito atrevimento mandar uma carta de conquista sem antes receber a autorização da pequena escolhida".

A progenitora da mãe faz a metalinguística do ritual dos preliminares do namoro. Explica, porque esta geração "hoje namora sem carta. É tudo cozinhado na panela de pressão".

Ele pisca-me o olho, cúmplice meu na hora de curcutir (picar, espicaçar) a saudosa do passado. Mas no diálogo a três corrobora. Que passou anos a tentar conquistá-la, e ela fugidia, arisca que nem gato.

Até que lhes aconteceu esse inédito pregão na bananeira. Inédito, quero crer porque ouvinte deliciado com essas substantivas memórias quero qualificá-las como me sabe bem. Uma inesperada obra-prima.

Tudo começa pois nessa carta que lhe pusera na cabeça a Maria de Vitória, perante a rigidez da destinatária. A cabeça, a única área anatómica com plataforma das meninas em botão.

A dama valentina reage ao estratagema: num ápice sacudiu-se do carrego — a carga de cabeça — e acelera Lombo acima porque quem corre o mal espanta. Em segundos, galga os dois lances de degraus e entra em casa. Como faz quem aprendeu com a perdição das loucas que se esqueceram de se prevenir, com candeeiro ou podogó.

A mensageira é que desobrigada também fugiu, Lombo abaixo. A carta lá ficou, caída aos pés da bananeira em flor. A única planta-que-não-árvore, germinadora de pão e fruto, a partir da flor.

"Eu não a quis, nunca esteve na minha mão". Mas nos dias a seguir iria repercutir-se o inesperado pregão afixado na bananeira. Trechos da carta começaram a ouvir-se da morada às meradas, de regadios até nascentes de água fresca, levadas e hortas.

Diziam do "amor maior que o céu", "mais forte que o mar de canal", da "amada com amor incondicional". Ideias vindas da sempre presente antologia de mornas. Mas havia imagens suas como a descrição dos "lábios de uva madura", fruta rara que, mais de um século depois do seu ecocídio por um intendente raivoso, teima em brotar nas subidas íngremes. Aquelas que demoram quatro horas a vencer, hoje como há séculos.

A sua dama valentina, prosseguia, era "o sonho de muitas noites", "a flor de cada nova manhã", a "flor da perpétua, perfumada como a rosa" — numa metáfora que criava o impossível antes da tecnologia da clonagem.

A minha genealogia, um pregão na bananeira. Antes de poder ser recuperada pelo remetente, alguém a leu, tornou-a edital público — que ecoou por ribeiras e ladeiras, a acompanhar a "lida da vida" ou seria "vida de lida" da jovem que foi a minha avó Nininha.

Ele ri-se: como São Jorge, venceu o dragão. Incita-a a contar que ela estava de olho no Martinho.

"Um rapaz sério. Até a Tia Dinha o gabava muito, que o seu afilhado era de confiança", ri-se ela (em anástrofe, que até cabe aqui, a casar linhas de prosa).

Mas, atalha ele, enquanto o Martinho tardava em escrever a carta, eis que o vencedor do dragão Nininha vence-a com "aquela carta".

Patrono: Valentim por António

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