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Portugal: Bloco em "derrapagem", Chega a "beneficiar da crise internacional" e o futuro do PCP. O que pensam os politólogos sobre os partidos 13 Novembro 2022

Numa altura em que o histórico Jerónimo de Sousa deixa a liderança dos comunistas, Cotrim de Figueiredo anuncia a sua saída da presidência dos liberais e o nome de Passos Coelho surge pela boca do Presidente da República, politólogos revelam o que esperar dos partidos nos próximos tempos.

Portugal: Bloco em

O partido do Governo está “desgastado”, o líder do principal partido da oposição fica “resguardado”, dois partidos mudam de líder e outros dois enfrentam sérios problemas se não mudarem. Pelo caminho há uma luta pelo controlo sindical em andamento que pode pode mudar por completo o horizonte político português. A atual legislatura está quase a cumprir 600 dias e a CNN Portugal foi falar com politólogos para tentar perceber que partidos estão em melhores condições de crescer, estagnar, ou mesmo de se tornarem de "nicho".

PS: casos sucessivos geram "descredibilização" do partido do Governo

Com a maioria absoluta no parlamento e prestes a levar avante a proposta do Orçamento do Estado para 2022, o Partido Socialista encontra-se teoricamente numa posição de vantagem, mas a verdade é que, como refere Paula do Espírito Santo, investigadora em ciência política e professora associada no ISCSP, esta legislatura tem mostrado um “desgaste acelerado” do partido de António Costa. “Desde as últimas eleições, os socialistas estão agora num plano de muito maior visibilidade e de muito maior exposição, o que leva a que, por via das circunstâncias, tenham havido bastantes situações que não são facilmente justificadas à luz da ética democrática e republicana”.

Estas situações, que Paula do Espírito Santo refere, começaram cedo após António Costa ter tomado posse, com o caso do acolhimento de refugiados ucranianos por associações com ligações a Moscovo, e multiplicaram-se através de acusações de incompatibilidades, da demissão de Marta Temido e de Miguel Alves, da não demissão de Pedro Nuno Santos, da (não) contratação de Sérgio Figueiredo e da recente contratação de um adjunto de Mariana Vieira da Silva com apenas 21 anos (vai ganhar 4 mil euros). Tal como está, acrescenta a politóloga, “este desgaste gera descredibilização e gera também incapacidade depois de se conseguir manter o eixo da roda, como Adriano Moreira o dizia”.

Há também outro assunto no pensamento dos socialistas neste momento, aponta o politólogo Bruno Gonçalves Bernardes. Quem será o herdeiro da era António Costa no PS? E aí, mesmo desautorizado, é Pedro Nuno Santos quem está no topo da corrida. “A questão vai-se colocar sobre a forma como personalidades como Fernando Medina, Ana Catarina Mendes e Pedro Nuno Santos conseguem mobilizar a máquina eleitoral interna, neste caso é Pedro Nuno quem segue à frente, porque tem muita influência sobre diferentes federações dentro do PS”, garante o politólogo.

PSD com líder fora do parlamento e com tarefa difícil pela frente

Na opinião dos politólogos, Luís Montenegro enfrenta uma tarefa hercúlea. Tem de travar suficientemente bem o combate político com o Partido Socialista para ser visto como uma alternativa realista e, ao mesmo tempo, vai ter de reconquistar o espaço político que perdeu a favor do Chega e da Iniciativa Liberal. Tudo isto fora do Parlamento e já com um teste importante em 2024, as eleições europeias.

Tendo em conta que o atual líder do PSD não está dentro do parlamento”, indica Paula do Espírito Santo, a visibilidade que ele projeta e a forma como intervém enquanto oposição será “sobretudo de monitorização constante”. “Percebe-se que há uma grande necessidade de reforçar os elos com o grupo parlamentar para que se perceba que ele é um braço de intervenção da própria liderança. Para a politóloga esta é a maior ’fragilidade’ de Montenegro no momento, mas para Bruno Gonçalves Bernardes esta até pode ser encarada como uma vantagem para o sucessor de Rui Rio, já que “a distância do Parlamento protege-o”. “Resguarda-se e permite que ele esteja de fora dos debates quinzenais com o Governo e vá a jogo em outras circunstâncias que não aquele cenário, dominado pelo discurso, pela narrativa e pelo soundbite de António Costa”, sublinha, acrescentando que, se Montenegro estivesse na Assembleia da República, “era mais normal que na própria dinâmica interna do PSD surgissem dúvidas relativamente ao seu líder”.

Pelo meio, apontam os politólogos, “o fantasma Passos Coelho” começou a ganhar maior dimensão após a chegada de Montenegro à liderança do PSD e especialmente depois de Marcelo ter dito que o país antigo ainda "deve esperar muito do contributo" do antigo primeiro-ministro. Para a investigadora Paula do Espírito Santo “pode ser feita a interpretação de que não há um apoio expresso do PR ao líder atual do PSD”. “Na política estas questões são muito sensíveis e fica a dúvida sobre se há um afastamento ou uma incapacidade de diálogo com Montenegro”, considera.

Bruno Gonçalves Bernardes refere também que o PSD vai precisar de uma figura como Passos Coelho para não precisar do Chega nem da Iniciativa Liberal para ganhar força. “Esse é o problema do cenário à direita e, portanto, o Presidente da República sinalizou que o PSD precisa de uma figura desse calibre para poder posicionar-se como, por exemplo, candidato à presidência”, afirma.

Mais sindicalista, Chega pode aproveitar contexto de crise

De todos os partidos com lugar na Assembleia da República, é o Chega que mais vai beneficiar da atual situação de crise mundial, afirma José Filipe Pinto politólogo e professor catedrático na Universidade Lusófona. “Tendo um populismo cultural-Identitário, tira muito melhor usufruto da crise internacional, porque mais tarde ou mais cedo, vai começar a dizer que as dificuldades que os portugueses estão a sofrer são consequência de medidas tomadas por entidades supranacionais e, por isso mesmo, não conhecem a realidade do povo português”, aponta.

Confrontado com as dificuldades vividas pelos portugueses, André Ventura “vai dizer que elas não decorrem do foro interno e são resultado de existirem entidades supranacionais que decidem o nosso futuro comum”, acrescenta o politólogo, referindo que nesta questão o Chega vai ter condições para crescer.

Ainda assim, diz José Filipe Pinto, o Chega não escapa aos problemas da competição pelo espaço político à direita de outros partidos que estão em processo ou de crise, ou de reafirmação. “O que acontece é que uma parte do eleitorado do Chega é constituído por descontentes, ora se o PSD de Montenegro se apresentar como uma alternativa válida ao Governo do PS, muito dos votos que alimentaram o Chega vão deslocar-se para o PSD o que pode fazer com que o crescimento não seja tão acentuado”.

Porém, a nova aposta de Ventura em criar uma organização sindical que não se reveja nem na UGT, nem na CGTP vai render ao seu partido um grande acrescento de votos nas próximas eleições, consolidando-o como a terceira força política no Parlamento, prevê José Filipe Pinto. “O Chega, ao contrário do Bloco de Esquerda, não corre neste momento o risco de se tornar um partido de nicho, pois apresenta-se como aquele que está no sistema para desafiar o sistema e assim constitui-se como uma alternativa. É por isso que já sonha em ser governo e já pensa em ser a principal força da oposição”, reitera.

Bloco de Esquerda, "o populista" em "derrapagem"

Ao contrário do Chega, José Filipe Pinto considera que o Bloco de Esquerda, “ainda que seja um partido populista”, não vai conseguir ganhar força política com a crise internacional e, na conjuntura atual, é mesmo aquele que se encontra em maior risco de “derrapagem”. O Bloco é um partido populista-sócioeconómico que em situações de crise económica e grave crise social, “é normal que beneficie destas condições”. O problema, argumenta o professor catedrático, “é que esta crise é uma crise de que o BE não pode tirar proveito, porque é uma crise provocada pela conjuntura internacional e por uma causa de que o BE subscreve, o apoio à Ucrânia”. Assim, concretiza, apesar de virem tempos em que os portugueses vão “ter de pensar com os bolsos” e os populismos sócio-económicos “têm margem para crescer”, “o BE não vai conseguir rentabilizar essa situação”.

Por outro lado, a manutenção de Catarina Martins no cargo de coordenadora do partido é encarada pelo politólogo Bruno Gonçalves Mendes como um “erro”. “A saída de Martins é a única forma de o partido poder renovar e crescer”, considera, apontando para a perda de mais de 250 mil votos e 14 deputados nas últimas eleições.

José Filipe Pinto acrescenta ainda que a tendência é que o Bloco de Esquerda “se torne num partido de nicho”. “A grande ambição do BE era integrar um governo de não maioria, a partir de que isso não acontece, o Bloco desvanece”.

Iniciativa Liberal entre as "dores de crescimento" e o perigo da "orfandade"

João Cotrim de Figueiredo foi durante a última legislatura o único deputado do Iniciativa Liberal e conseguiu um lugar logo na primeira vez que o partido, fundado em 2017, se candidatou às eleições legislativas. Três anos depois, o trabalho de promoção e valorização dos ideais liberais no parlamento e fora dele levaram a que o partido conseguisse eleger oito deputados. Então, como se explica que menos de um ano depois de alcançar um resultado positivo o seu líder tenha anunciado a saída da presidência do partido?

José Filipe Pinto considera que isto revela “dores de crescimento”. “É um partido que teve um crescimento rápido, num espaço que está em construção e, por isso, era normal que a Iniciativa Liberal tivesse problemas de afirmação”. Segundo o politólogo, a saída de cena de João Cotrim de Figueiredo revela também que “há dentro do partido vários projetos que se dividem entre os que vivem o liberalismo moderno e o neoliberalismo”. “São posições que dificilmente, com o desenvolvimento do partido se tornariam compatíveis”, constata.

Já Paula do Espírito Santo aponta que o principal desafio do partido neste momento, em que terá de escolher ou Carla Castro ou Rui Rocha para a sua liderança, prende-se com a possibilidade “de os eleitores do partido se sentirem orfãos”. “Esse é o aspeto mais frágil, a guerra que tem de ser travada pode precisar de mais experiência e, ainda que haja um passado que não é longo, convinha que o reforço parlamentar não regrida, como aconteceu com o PAN na sequência da liderança de Inês Sousa Real que não permitiu esse crescimento”. Para além disso, afirma a investigadora, o PSD e o Chega têm “nesta incógnita uma hipótese clara de beneficiar da competição no jogo partidário”.

PCP: Sai Jerónimo, entra um novo líder de um círculo restrito

O prazo de validade de Jerónimo de Sousa à frente do Partido Comunista chegou ao fim, por motivos de saúde, e a própria forma como isso foi comunicado - através de um comunicado poupado nos detalhes - deixou a opinião pública surpreendida, especialmente depois de, como José Filipe Pinto retrata, “Jerónimo de Sousa estar a conseguir quebrar a orfandade que o PC sentia desde que Álvaro Cunhal saía de cena”.

Para o politólogo e professor catedrático, o que mais penalizou Jerónimo de Sousa foi o seu avanço para o acordo de entendimento com António Costa no pós-geringonça. Quando isso aconteceu, e porque dentro do PCP “há ainda uma tendência que continua a acreditar em amanhãs que cantam em russo”, “pagou o preço de uma parte do partido o abandonar”.

O sucessor de Jerónimo de Sousa foi conhecido ao mesmo tempo que se deu nota da sua saída da liderança. Paulo Raimundo, um funcionário do partido que, como aponta José Filipe Pinto, faz parte de um número restrito de personalidades que consegue estar tanto na Comissão Política do Comité Central, como no Secretariado. “É muito raro, é um núcleo muito reduzido, porque é aí que se concentra o cerne da decisão do PCP”.

Esta escolha, acrescenta, “não era uma escolha lógica para a opinião pública” que via João Ferreira, Bernardino Soares ou João Oliveira como possíveis sucessores, já que foram apostas mediáticas do partido para “altos voos”. No entanto esta foi a escolha “escolha racional”, aponta Filipe Pinto. “A escolha indica a manutenção da ideologia para um eleitorado que, ao que me parece, ainda está com os olhos no passado”.

Também Paula do Espírito Santo encontra no sucessor de Jerónimo de Sousa a linha imutável das posições comunistas dos últimos tempos. “Mesmo com um líder diferente, há uma máquina institucional que se sobrepõe às lideranças”, afirma, sublinhando que “não há grande margem para algum tipo de desempenho que promova uma abertura. E mesmo se essa abertura existir, é mais na forma do que no desempenho”.

Livre, o partido "com menos anticorpos"

Depois de ter entrado em rota de colisão com Joacine Katar Moreira, o que levou o Livre a ficar sem assento parlamentar na última legislatura, Rui Tavares conseguiu trazer o seu projeto de novo para a casa da Democracia e, afirma Paula do Espírito Santo, “espera-se que haja crescimento” nos próximos tempos.

Para a politóloga, os eleitores urbanos deram o “benefício da dúvida a Rui Tavares e isso tem produzido resultados que são positivos, muito à custa da imagem que o próprio transmite de “de seriedade, de isenção, de questionamento fundamentando as suas posições dentro da matriz que o partido defende”.

De todos os partidos na Assembleia da República, Paula do Espírito Santo diz que o Livre é aquele que “tem menos anticorpos” e um dos “que pode beneficiar mais da queda do Bloco de Esquerda”.

PAN enfrenta problemas "estruturais" e de "liderança"

O PAN só conseguiu eleger um deputado, a sua líder, no último minuto das eleições legislativas deste ano e ficou, juntamente com o PSD de Rui Rio, entre os grandes derrotados da noite eleitoral de janeiro. A má prestação levou mesmo o ex-líder do partido, André Silva, a pedir a demissão de Inês Sousa Real, algo que não se concretizou.

Para Paula do Espírito Santo a manutenção no cargo prejudicou a reputação do partido. “De facto, a permanência, após a queda de quatro para um deputado, deveria ter sido colocada logo à disposição, não tendo feito isso não foi nada benéfico para o partido”, argumenta.

Já Bruno Gonçalves Bernardes afirma que a outra opção para a liderança do partido, caso Sousa Real decidisse abandonar, seria a ex-deputada Bebiana Cunha, “ainda mais radical, o que também não seria positivo”. Por isso, acrescenta o politólogo, nem uma troca de comando no PAN “pode resolver aquele que é o seu problema estrutural: tem um discurso demasiado urbano que simplesmente não é compreendido e entra em choque pelo grosso da população”. Para além disto, aponta, “os períodos de crise económica muitas vezes retiram o foco das questões ambientais”. “Nunca mais se ouviu falar na questão das touradas”, concretiza.

Paula do Espírito Santo refere também que, com “a diminuição do PAN”, é o “Livre que melhor está posicionado para beneficiar dessa fragilização”. A Semana com CNN/Lusa

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