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Bolsonaro elogia operação mais letal da história do Rio: 25 mortos, 10 inocentes e outros "eram só suspeitos" 26 Maio 2022

Pessoas choram junto de corpos carregados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas. Pelo menos 21 chegaram já mortos, em resultado da operação policial na Vila Cruzeiro, parte do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, que se prolongou desde a madrugada até ao início da noite de ontem (terça-feira).

Bolsonaro elogia operação mais letal da história do Rio: 25 mortos, 10 inocentes e outros

O número de mortos, 25, em resultado da operação policial conjunta — Bope-Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar, PF-Polícia Federal e PRF-Polícia Rodoviária Federal — levou o MFP-Ministério Público Federal e o MPRJ-Ministério Público do Rio de Janeiro a dar ordens para "investigar condutas e possíveis violações de agentes de segurança".

Segundo um comunicado da Polícia Militar, "a ação teve por objetivo localizar e prender lideranças criminosas que estão escondidas na comunidade, inclusive criminosos oriundos de outros Estados do país (Amazonas, Alagoas, Pará entre outros)". "As equipas do BOPE e da PRF se preparavam para a incursão quando criminosos começaram a fazer disparos de arma de fogo na parte alta da comunidade", continua a nota da polícia.

Contudo, numa entrevista à TV Globo, o chefe duma operação lamentou nestes termos : "Infelizmente morreram 10 inocentes" e referiu que outros 15 "eram só suspeitos".

Bolsonaro elogia

À noite, o presidente Jair Bolsonaro deu via Twitter parabéns "aos guerreiros do BOPE e da @PMERJ que neutralizaram pelo menos 20 marginais ligados ao narcotráfico em confronto, após serem atacados a tiros durante operação contra líderes de facção criminosa".

"A operação vinha sendo planeada há meses e os agentes de segurança monitoravam os passos de chefões do tráfico com o objetivo de prendê-los fora da comunidade, o que não foi possível devido ao ataque da facção, fazendo-se necessário o uso da força para conter as ações", escreveu Bolsonaro.

Segundo a página "Vila Cruzeiro - RJ", criada e gerida por Cláudia Sacramento que tem mais de 140 mil seguidores no Facebook, as "escolas e unidades de saúde na região" ficaram fechadas durante o dia. A passagem de "algumas linhas de ônibus" foi interrompida e muitas pessoas não foram trabalhar, por precaução ou por dificuldade no transporte.

Vídeos nas redes sociais mostram, com ruídos de tiros ao fundo, que ao longo do dia ocorreram confrontos em várias partes da comunidade, principalmente perto de áreas de mata.

Gente que labuta

"Dentro da favela não tem só gente armada, tem gente que trabalha, que às vezes deixa os filhos em casa para trabalhar. Aqui dentro não tem pé de drogas, não tem pé de armas, aqui é um enxuga gelo que só prejudica quem não tem nada a ver com isso", lamenta a moradora gestora do Vila Cruzeiro.

Direitos Humanos

O MPF anunciou que vai "apurar as condutas, eventuais violações a dispositivos legais, as participações e responsabilidades individualizadas de agentes policiais federais durante operação conjunta".

"Em 11 de fevereiro deste ano, no mesmo lugar, houve oito vítimas fatais em operação com participação da PRF. O Brasil é signatário de tratados e acordos internacionais que nos obrigam a investigar e punir violações de direitos humanos. E 21 mortos, até agora, em menos de 3 meses, não podem ser investigados como se fossem simples saldo de operações policiais", afirmou em nota o procurador da República e titular do Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial no Rio de Janeiro, Eduardo Benones.

Segundo o GENI-Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, em 17.929 operações policiais realizadas, de 2007 a 2021, em favelas na Região Metropolitana do Rio 593 terminaram em chacinas, com um total de 2.374 mortos. O maior número de mortes em uma única ação ocorreu no Jacarezinho, também na zona norte da cidade do Rio, em maio do ano passado: 28 pessoas morreram.

De acordo com um levantamento do grupo de estudos, a presença de unidades especiais, como o Bope ou a Core-Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais, da Polícia Civil, "torna as operações mais propensas a levarem a chacinas".

Em fevereiro deste ano, o plenário do STF-Supremo Tribunal Federal determinou uma série de medidas a serem cumpridas pelo Estado do Rio de Janeiro em operações policiais, como a instalação de videocâmaras nas fardas dos agentes policiais dentro de 180 dias e um processo mais detalhado e exigente para a realização de mandados de busca e apreensão.

Os ministros do STF também decidiram que o uso da força letal por agentes do Estado só deve ocorrer depois de esgotadas todas as alternativas e em "situações necessárias para a proteção da vida ou a prevenção de dano sério, decorrente de ameaça concreta e iminente".

Fontes: BBC/Portugal Digital/TV Globo/Dw.de/Redes sociais. Foto (EPA): Relatos davam ontem conta de 27 mortos. Contudo, o Ministério da Saúde confirmou 25.

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